Yakissoba

Acordar e ter que dar conta de uma baby girl. Providenciar alimentação. Estudar, sair correndo, as vezes com fome.
Chegar na faculdade com a Cabeça lá fora, em realizações possíveis que não existem, em pensamentos os quais em seguida são pulverizados.
Voltar e, no metrô, tecer questões filosóficas do tipo: como proceder em relação ao futuro, porque se corre tanto atrás do vento e no fim a gente vira pó? Deve existir uma resposta racional, ou não.
Deus sabe de todas as coisa, Maomé, Jesus, Budha… Só o Sócrates lá na antiguidade que disse: “Só sei que nada sei”. 
É bem verdade que o Platão escreveu o que Sócrates disse, assim como a gente escreve o que um monte de gente diz, na verdade desdiz. E depois diz de novo.
Verdade vira mentira e o inverso também. O mais razoável é a fake news de seu aplicativo/rede social.
O mais razoável é tolher a existência do outro afirmando para os sete cantos que “bandido bom é bandido morto” mas sequer ponderar que, como o Ministério do Trabalho será extinto haverá mais e mais e mais opressão, o que no fim das contas, para a base da pirâmide o que se terá é sim ser bandido, corrupto da menor espécie gerando fake news, estelionatos, furtos e até sugando a alma de funcionários exemplares que vão dar o sangue de sol a sol em trabalho informal.
Por falar em informal, eu me propus a vir aqui falar da minha percepção do Yakissoba proveniente de uma barraquinha aqui no bairro onde eu moro. Ele representa o não acolhimento social do imigrante que lá trabalha [um chinês], sem recolhimento de nada e arriscando a sua vida numa via pública.
Outro fator é que sem MT, o finado Ministério do trabalho as relações frágeis e difíceis de serem controladas serão toadas até sei lá quando.
Quantos são os trabalhadores migrantes que terão que voltar para suas antigas residências porque aqui, no Estado do rio de Janeiro o SUS no funciona, a Segurança Pública só existe na Zona Sul pro alguém ver na frente do palace, os pretos majoritariamente tão morrendo na favela, o meu povo tá passando fome nos morros, nos asfaltos, gente que se submete a qualquer coisa pra não morrer de fome, usa droga para passar a fome, rouba, mata trafica e paga cota para não morrer de fome. Como se diz na gíria dos caras “Tá na lei é pela ordem”. Aceita o seu destino de ser vítima de uma mazela ou a fazer. Essa é a lógica do crime.
Está institucionalizado um estado de exceção o qual Escola de Frankfurt alguma se orgulharia de ver tão taxativamente, tão real, porque, na realidade, o jeitinho brasileiro existe até pra isso, viu? Isso tudo seria criminalizável, mas não pelo cidadão de bem.
O Voto virou um elemento de manipulação social em que o bem estar social e as demandas dos trabalhadores deixou de ser bandeira porque daqui pra frente não mais existirão.
Eu lamento muito deixar esse legado para as outras gerações. Eu não quero residir nesse momento nesse lugar, nesse país, eu não aguento mais discurso de ódio, ver meus amigos relatando as violências diárias e, eu sair todos os dias e ter apenas fé, porque não sei se vou voltar pra casa e amamentar a minha filha calmamente e rezar, orar e vibrar, pra Deus, e o universo manterem a minha sanidade para o outro dia.
Amanhã será outro dia. Com o Yakissoba à porta da estação do metrô com seu cheiro e aromas trazendo a reminiscência de todas as vezes que voltando do trabalho cansada ou estudo eu preciso contar as moedas pra fazer uma quentinha, até mesmo quando não estou com fome. Em perspectiva, amanhã se eu acordar por milagre divino como tem rolado há trinta anos, o que eu espero é superar todas as negações das conquistas históricas sendo naturalizadas, ver as pessoas que eu amo com muito medo como sempre foi e cada dia mais desfavorecidas pelo país que é líder em matar seus filhos desde à Colonização com exceções elitistas, claro. Muito bem sucedidas por sinal.
RE — EXISTIR é a palavra do momento. Mas eu que passei esse tempo todo “contrariando as estatísticas” como bem dizem os Racionais MC´s só sei sobreviver mesmo como o cara do Yakissoba fazer os corres e me expor à esse cerco para garantir algo, algum dia, se é que eu o mereça.
Em tempos de intolerância, paz.

Saudações,

C.