Diz que um certo deputado, hidrofóbico de tão homofóbico, porém conhecido por apelidinhos purpurinados como “mito”, “divo” e “lacrativo”, resolveu que era mesmo O Escolhido, e pra provar isso, iria se jogar nos braços do povo, por quem seria amparado, afagado e carregado pelas ruas, aos gritos de “lindo”, “gostoso” e “vitaminado” até o palácio do Planalto, onde seria enfim coroado por aclamação. Como era muito numeroso (o povo) e muito cheio de ira santa e fumaças messiânicas (o divo lacrativo), o supracitado analisou — ou, pra não ofender a suscetibilidade de Sua Excelência, penislizou — suas opções e acabou escolhendo a mais significativa e grandiosa: o Cristo Redentor, no alto do Corcovado. Seus (poucos) aspones que ainda tinham meia dúzia de neurônios vivos e operacionais argumentaram, pediram e por fim imploraram ao mito-divo que não o fizesse. Que pelo menos começasse aos poucos, de baixo, pulando de um meio-fio, um tamborete de zona ou algum outro local à altura de Sesselência e de sua estatura moral/intelectual/cognitiva. “Sai pra lá!” gritou o heroico estuprador-de-quem-merece-porque-é-bonita-e-branca. “Eu vou pular do Cristo, e se o povo que me ama não me amparar, Deus me segura, porque eu tô do lado Dele e defendo o que Ele quer e sabe que é certo”. Suspirando (a maioria) e abafando uma gargalhada (alguns), os aspones então se dedicaram a tentar diminuir o estrago. Proibiram câmeras e celulares nas proximidades do local no dia do evento, arrumaram colchões de ar gigantescos para tentar aparar a queda, fizeram uma vaquinha (oi?) pra alugar uma ambulância veterinária com o mais sofisticado equipamento de ressuscitação da América Latina, fizeram novenas e o escambau. No dia do grande salto, multidão reunida — ainda não se sabe ao certo o número; uns dizem que eram 200 pessoas, outros que eram 200 mil — câmeras e celulares recolhidos com a habitual delicadeza da tropa de choque de Sua xexelência, ambulância a postos, colchões de ar espalhados, bombeiros de prontidão, o deputado, com um olhar ainda mais maníaco que o habitual, surge no alto do Cristo Redentor. Convencido pelos aspones, pela mãe e pela esposa, ele usa um capacete, mas talvez intuindo que este teria um fim mais decorativo que funcional, mandou pintar o bicho de verde e amarelo, e agora, visto à distância, parece uma formiga cabeçuda que acabou de vomitar contra o vento. Ele abre os braços, dá uns pulinhos de quem vai tentar o ouro em salto ornamental e mergulha no vazio. O tempo parece parar. Duzentas — ou duzentas mil, não se sabe ao certo — pessoas sentem uma súbita taquicardia. Velhinhas rezam, senhouras choram, mulheres caem na gargalhada. Quando o crazy-eyes, em queda livre, vai passando pela cintura do Redentor, há um baque abafado. A multidão prende a respiração, chocada. O Cristo simplesmente mexeu um dos braços e amparou o deputado-cadente na palma da mão direita. Crentes caem de joelhos, ateus caem das nuvens, crianças caem dos colos, queixos caem no chão. Silêncio absoluto. A multidão não sabe se ri, se chora, se grita aleluia, se sai correndo ou se pede asilo político ali no Uruguai. O Cristo ergue a mão espalmada, com aquela formiga verdolenga no centro, até perto do rosto. Estreita os olhos, tentando distinguir que porra é aquela. A multidão está tão tensa que pode-se ouvir o som de milhares (ou centenas, não se sabe ao certo) de agulhas metafóricas sendo cortadas. O Cristo tira o capacete de Sesselência com um piparote de seus elegantes dedos de pedra-sabão. Olhos nos olhos. A multidão tá que não aguenta o suspense. O deputado abre os braços e o sorriso, deixando ainda maiores sua boca de Muppet e os olhos de Geraldão excitado, e grita, feliz da vida: “Sou eu, Jesus Cristo, o Bo…”. Ele não chega a completar seu nome. O punho esquerdo do Redentor acaba de esmagá-lo contra a palma direita, e ainda dá uma rodadinha, como se o representante do povo fosse um dente de alho dentro de um pilão de pedra. Entre a multidão, quem ainda não estava de joelhos está agora; quem já estava cai deitado no chão, alguns imóveis, outros tendo convulsões. Mas o Redentor ainda não acabou: de testa franzida, atira com força a maçaroca vermelha-rosada-verde-amarela no pedestal, ergue a fímbria da túnica e, com seu pétreo pé, pisa mais algumas vezes no que agora, sim, não passa de um mito, e ainda raspa a sola da sandália na quina do pedestal antes de deixar novamente que a túnica lhe cubra os santos artelhos. Com carinha de nojo, JC ainda limpa as mãos uma na outra e depois na túnica, à altura das ancas, antes de se dar por satisfeito. Só então algumas das pessoas lá embaixo conseguem encontrar suas vozes, e como sempre, já começam a abusar delas, gritando, chorando, rezando, soluçando e, os mais ousados (ou loucos, não se sabe ao certo), a urrar que aquele não pode ser O Cristo e portanto é preciso expulsar urgentemente o demônio da estátua. Por algum motivo, essas vozes também se calam assim que o Redentor bota as mãos na cintura e inclina o tronco, procurando o local de onde vêm tão desagradáveis sons. Quando o silêncio é restabelecido, Ele flexiona ombros e costas, faz um alongamentozinho rápido e logo retoma sua conhecida pose de sempre. A multidão, em choque, leva horas (ou minutos, não se sabe ao certo) para se dispersar, e só quando já não há quase ninguém à vista é que um solitário gari jura ter ouvido o Cristo dar uma risadinha abafada, daquelas de Muttley. Mas pode ser conversa fiada. As pessoas inventam cada coisa.

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