Beleza, paz e redenção em um disco de folk.

“Todo mundo sofre; a vida é dor e a morte é o ponto final no fim da frase, então lide com isso. Eu realmente acredito que você pode controlar a dor e o sofrimento vivendo em plenitude e sendo fiel a si mesmo e todas aquelas banalidades aparentemente fúteis”.
Carrie e Lowell

A frustração que eu sinto sempre que termino uma conversa, é uma das coisas que mais me deixam para baixo. A sensação é que eu sou incapaz de dizer exatamente o que eu gostaria ou precisava dizer, sem sobras ou faltas. Das conversas mais banais até as mais importantes eu fico repassando as palavras que deveria ou não ter dito. Mas eu já me acostumei com isso, tenho sempre a esperança de que vão haver outras oportunidades de dizer as coisas certas. Acho que todo mundo se sente assim de certa forma.

No caso do Sufjan Stevens a situação extrapola qualquer normalidade. A mãe dele, Carrie, sofria de bipolaridade, depressão e esquizofrenia, abusava de álcool e drogas e se afastou da família quando ele era ainda um bebê. O pai também sofria com o alcoolismo. A pessoa com quem ele tem os laços afetivos mais fortes é o ex-padastro, Lowell, que hoje administra a gravadora deles, a Asthmatic Kitty Records. As melhores lembranças da infância do Sufjan, hoje com 40 anos, são cinco verões que ele passou em Eugene, interior do Oregon, quando a mãe e o ex-padastro ainda eram casados. “Emerald park, wonders never cease” diz ele sobre um parque da cidade.

Emerald Park, Eugene, Oregon.

Carrie morreu em 2012 vítima de câncer de estômago. Numa entrevista para a Pitchfork (você deveria ler) ele disse sobre a morte da mãe: “Her death was so devastating to me because of the vacancy within me. I was trying to gather as much as I could of her, in my mind, my memory, my recollections, but I have nothing”.

Eu acredito na ideia de Platão de beleza absoluta, perfeita e universal. Acho que as belezas terrestres são sombras de uma beleza maior e que são mais ou menos belas quando se aproximam ou afastam desse ideal. Nesse contexto a obra de um artista serve como uma lanterna, com a qual ele aponta para algum aspecto da vida ou da natureza e consegue iluminar e mostrar a beleza contida ali. Fotografias, músicas, livros, filmes, um acervo imensurável de obras dos mais diversos artistas nas mais diversas épocas da humanidade, cada um colocando um pequeno feixe de luz no mundo. O grande mérito de Carrie & Lowell é tratar de temas duros como morte, luto, e abandono de forma bastante honrada. Nada no disco te leva a ser indulgente ou sentir pena. A frase que serve de subtítulo para esse texto mostra bem qual o espírito da coisa.

Spirit of my silence I can hear you but I’m afraid to be near you
and I don’t know where to begin.

Esses é o primeiro verso do álbum. É bem claro. Quão aterrorizante não é ficar sozinho em situações difíceis? Quão difícil não é ter que falar sobre coisas que estão trancadas? Tudo isso em um verso.

As três primeiras músicas são, cada uma ao seu jeito, lembranças da infância. A casa de férias, o arranjo de flores da mesa, as paisagens. O interessante dessas músicas é que no final sempre parece haver algum tipo de redenção. Depois do lamento, vem a parte que se entende que é preciso seguir em frente. Seja por uma mudança na melodia, um verso de esperança ou ambos, a sensação que fica é que se é possível conviver com a falta.

Nothing can be changed
The past is still the past
The bridge to nowhere
I forgive you, mother
I can hear you
And I long to be near you

Carrie & Lowell é um disco extremamente simples na sonoridade. Simplicidade é uma das coisas que eu mais admiro no folk. São 11 músicas que se alternam entre arranjos modestos de violão e piano. Um coral bem tímido também aparece aqui e ali, mas o que permanece inalterada durante todo o disco é voz do Sufjan. Como bom cantor de folk ele tem uma voz firme mas também calma e serena. Nesse álbum você não percebe em nenhum momento a voz se elevando nem nada do tipo. Tudo muito intimista. Enquanto o som é quase um easy listening, as letras poderiam facilmente ser de qualquer banda de black metal. De qualquer forma esse não me parece um disco para se ouvir por distração.

A minha música favorita é The Only Thing. Por todas as referências ao cristianismo, pelo uso de histórias da mitologia grega, pela simplicidade (acho que é a música mais simples do álbum) e pelos versos mais fortes do disco: “Should I tear my heart out now? Everything I feel returns to you somehow”.

Uma das coisas mais bonitas do cristianismo é que qualquer pessoa verdadeiramente arrependida e com um coração sincero sempre vai encontrar os braços abertos do redentor. Em John My Beloved e No Shade in the Shadow of The Cross, Sufjan mostra como foi importante sua fé em Cristo durante um período em que ele começou a abusar de álcool e drogas e se auto destruir como seus pais.

Jesus I need you, be near, come shield me from fossils that fall on my head

Aliás, em John My Beloved ele canta uma conversa entre Jesus e João, seu amigo amado, pouco antes de ser traído.

I’m holding my breath
My tongue on your chest (João 13:23)
What can be said of my heart?
If history speaks, the kiss on my cheek
Where there remains but a mark
Beloved my john, so I’ll carry on
Counting my cards down to one
And when I am dead, come visit my bed
My fossil is bright in the sun

É de uma beleza comovente.

No fim o que fica é sensação de paz. Que você pode seguir em frente. Lidar com a dor e se resignar com o sofrimento que atinge todos os seres humanos.

Óbvio que existem milhões de coisas mais a serem ditas sobre esse disco maravilhoso, mas acho que até aqui é o suficiente

*Todas as imagens, exceto a do parque, fazem parte do encarte do disco.