O que é a realidade ?

Os irmãos Wachowski enquanto projetavam para o cinema a trilogia Matrix, evocavam vários ícones do inconsciente coletivo da história da nossa civilização [Budismo, Cristianismo, Caverna de Platão, Labirinto do Minotauro, Santo Grall, Alice no País das Maravilhas através dos Espelhos - e muito, muito mais] para, ludicamente nos questionar - o que é a realidade ?

Quando falamos em inteligência, a realidade de muitos a entende como sendo exclusivamente racional. Durante anos essa característica da inteligência era, praticamente, a única realidade percebida - talvez pela nossa herança cartesiana, base também dos sistemas militares que sempre dominaram o mundo através de seus exércitos e estrategistas: Sun Tzu, Alexandre, Flavius Belisarius, Carlos Magno, Júlio César, Von Clausewitz, Churchil.

Marcha soldado, cabeça de papel, se não marchar direito vai preso pro quartel. Sob a égide militar foi assim que fomos criados: como inúteis “cabeças de papel”, além de coagidos a nos submeter, para não irmos “presos pro quartel” …

A inteligência racional, durante e após a segunda grande guerra mundial, e nos anos da guerra fria que se estenderam até 1989 com a queda do Muro de Berlim, evidenciou-se também na realidade dos sistemas corporativos [organogramas - hierarquias verticalizadas: “quem pode manda, quem tem juízo obedece”] e na realidade das ciências derivadas da matemática - principalmente a engenharia e as de tecnologias dos circuitos impressos e integrados. Houve exceções. Porém sem deixarem de ser racionais, buscavam sentir, entender, questionar [Nietzsche, Heidegger, Morin, Simone de Beauvoir …] a realidade entendida como status quo, praticada pelos [conservadores] politicamente corretos.

A racionalidade como interpretava o Pentateuco, creditada como realidade inquestionável por Saulo, que como Paulo de Tarso se tornaria o primeiro e principal porta-voz do cristianismo, depois de “nascer de novo” [João 3], o fazia durante anos um perseguidor dos seguidores de Cristo, justamente por falta de sensibilidade e excesso de racionalidade - binária

Diferente do grande revolucionário que se tornou antes de ter sua cabeça decapitada pelos romanos, outro hebreu, Jacó, muitos séculos antes ficou na história como um politicamente incorreto. Não se submetendo à realidade imposta até então, que elegia a primogenitura como exigência à sucessão patriarcal, trapaceou não apenas com seu irmão Esaú, mas também com seu pai Isaak. Um ato de fé e determinação contra o status quo [realidade] de então, que deu origem a um novo tempo erguido através das 12 tribos de Israel [“aquele que enfrenta Deus”], linhagem do Rei Davi e séculos depois de onde nasceria Jesus.

Apesar das muitas mazelas, the brave new world a partir dos anos noventa tem possibilitado que muitas outras realidades inteligentes, como a emocional, sejam vitais para administrarmos tanto as realidades dos cada vez mais difíceis relacionamentos interpessoais [idiossincráticos e intempestivos], como para apreciarmos a realidade dos espetáculos nos possibilitados pelas inteligências [sinestésicas] dos corpos - inicialmente admiradas através dos quadris e pernas malabares dos craques de futebol, que faziam vibrar arquibancadas com seus dribles e jogadas desconcertantes: Leônidas da Silva, Garrincha, Pelé … Porém, a inteligência sinestésica tinha um escopo delimitado pela racionalidade religiosa que definia o que era realidade moral a ser praticada.

Até o fim da segunda grande guerra mundial era impossível para um homem como Elvis Presley sensualizar, através da dança, inteligência do seu corpo, a atenção das libidos para a sua região pélvica, sem pelo menos ser julgado pela realidade da época - que o criticava como imoral. As mulheres, nem pensar - as pílulas anticoncepcionais depois de 1951 foram um avanço, mas apenas para traírem seus déspotas e insensíveis maridos com seus amantes. A vida é como ela é - assim se expressava Nelson Rodrigues sobre a realidade desses encontros furtivos.

O final dos anos cinquenta e primeira metade dos anos sessenta, mesmo antes dos garotos de Liverpool sacudirem o mundo pedindo socorro [Help], Bill Haley and his comets e Chubby Checker institucionalizaram, através da realidade do rock, o Twist - dando início a trajetória da ruptura dos valores marcada pela libertação da inteligência dos corpos, motivada pela explosão hormonal sublimada através da dança.

Poucos anos depois, final dos anos sessenta, as expressivas manifestações da realidade heavy metal foram determinantes para estilhaçar, definitivamente, os preconceitos aristocráticos burgueses e, por consequência das metamorfoses do rock, a inteligência sinestésica de Michael Jackson encantou não apenas plateias do nosso planeta mas, principalmente, por causa do rock travestido em disc music, muitos homens descobriram, na inteligência [sinestésica] do corpo dançando, outra forma de realidade para encontrar prazer e seduzir as musas que os complementaria.

Portanto, os sentimentos que utilizamos para conviver e interpretar as realidades [percepções, conjuntos de valores] de um mundo inquieto, aceleradamente dinâmico, contextualizado através de várias dimensões, nos induz a julgarmos as pessoas e as situações apesar de não termos todas as informações - porém, não conseguimos perceber que assim agimos. E se fazemos, é por praticidade - porque o tempo necessário para sabermos tudo que precisamos é infinitamente superior a todos os anos das nossas vidas.

Além dos nossos preconceitos [valores] que filtram ou tendencionam as nossas experiências, inviabilizando a percepção plena do que [realmente] acontece, os nossos julgamentos também são bastante prejudicados pelos fenômenos, fantasias, ilusões - que nos seduzem. Por consequência, ao construirmos boa parte do que é, a realidade pode não ser tão real quanto pensamos [imaginamos], já que preenchemos os espaços vazios com os nossos palpites e preconceitos.

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