Pequena,

eu estaria mentindo se dissesse que sua chegada sempre foi um sonho. Que fiz festa e comemorei quando descobri que você existia dentro de mim. Não. Acho que nunca me senti tão perdida, tão indignada com “a vida”. Nunca questionei tanto Deus (o meu Deus): porque comigo? porque agora? Os dias se tornaram longos, tudo ficou cinza e eu só saía do quarto para ir ao banheiro vomitar devido aos enjoos insuportáveis. Chorei. Chorei noites inteiras. Existiam outros planos — os quais nem sabia quais eram direito. Mas eu tinha asas nos pés e amava poder voar pra longe, cada vez mais alto. E tinha certeza que depois daquele bendito “positivo” eu estaria ligada à você em um cordão umbilical eterno.

Nunca soube cuidar se quer de mim e nasci com vocação para ser inconsequente. A ideia de que a vida de alguém dependeria exclusivamente de mim era pavorosa. Tremia da cabeça aos pés quando me olhava no espelho e pensava que, em breve, meu corpo sofreria uma mutação sem volta e, mais que isso: tinha medo desse sentimento incondicional que só a maternidade é capaz de aflorar. Medo de não ser capaz de desenvolver esse instinto, esse afeto todo.

Aos poucos os enjoos foram passando, o apetite voltou ao normal e era preciso aprender a lidar apenas com aquele sono intenso — que, de certo modo, estava me ajudando a sobreviver. Eu não estava bem, os sentimentos revirados e a cabeça confusa. Era bom dormir e fugir daquela realidade — já que sumir não era uma opção e não mudaria muita coisa.

Precisei aprender a conviver com sua existência e não demorou muito para que você me seduzisse: ainda não tinha o tamanho de uma ervilha e já me revirava do avesso como bem entendia. Decidi fazer o que eu sempre fiz de melhor: não pensar em como seria. Foi a melhor decisão que tomei naquela época. Os dias passavam mais rápido e estava sendo divertido ver a barriga crescer, mexer, endurecer. Por outro lado, essa minha displicência fez com que você ganhasse suas primeiras roupinhas nos 45min do 2º tempo — um exemplo de mãe, eu sei.

Fato é que, se tinha uma coisa que eu sempre soube e não precisava de nenhuma ultrassonografia para provar é que você era a Melissa. Desde o primeiro momento. Confesso que nas primeiras semanas te chamava de “meu baby” só para não ter que explicar para as pessoas de onde vinha essa certeza toda — até porque, nem eu sabia.

Você chegou. Barulhenta, pequenininha, de olhinhos azuis e puxados (meu “X-men” favorito). Curiosa, questionadora, birrenta, manhosa. Ora delicada feito algodão doce, ora estabanada como milho de pipoca estourando na panela quente. Cheia das suas peculiaridades: fascinada por bonecas, princesas, batons e esmaltes. Aventureira, apaixonada por dinossauros, cheia de ideias mirabolantes e linda. Absurdamente linda, pequena. Até no ápice das suas crises egocêntricas — que entendo como mera insegurança. Mero medo de perder ou não conseguir. E disso eu entendo bem.

Cresci com um vazio imenso no peito. Desde a infância minha sensibilidade era absurda. Na adolescência fiz jus à idade e anarquizei a vida de todos que me cercavam. Nunca soube explicar do que eu sentia tanta falta, afinal. E isso fez com que eu tomasse muitas decisões erradas e magoasse muitas pessoas. Não vou ousar usar aquele clichê materno de que “tudo fez sentido desde que você chegou”. Não. Eu continuo intensa, perdida, afobada. Mas, por mais turbulentos que sejam os dias, tenho suas mãozinhas pequenas e macias para segurar. Tenho esse sorriso sapeca que ilumina tudo aqui dentro e, ainda que às vezes eu realmente acredite que sua vida seria melhor sem mim, eu sinto uma vontade absurda de permanecer aqui só para te ver alçando voos cada vez mais altos. Se tem uma coisa que faço questão de te ensinar é a voar!

Muitas coisas mudaram, sim, desde que você chegou. Algumas certezas morreram, outros medos desapareceram. A coerência virou palavra de ordem em minha vida e, quando decidi respeitar meus sentimentos e a pessoa que sou precisei assumir algumas cicatrizes bem profundas tanto em mim quanto em você. Eu podia ter seguido os trilhos por anos e anos, podia ter insistido em te oferecer uma estrutura familiar tradicional acomodada na infelicidade. Mas preferi assumir as velhas asas que carrego nos pés e te colocar nas costas para ensinar, efetivamente, que podemos ser o que quisermos, que não somos obrigadas a nada em nome de ninguém. Doeu em mim também, querida, mas foi necessário. Você duvidaria da sua força se eu insistisse em te polpar. Então, acredite: foi melhor assim.

Provavelmente, não correspondo às expectativas quando o assunto é superproteção ou cuidados considerados básicos. Seu avô sente vontade de me atropelar com um trator quando chega em nossa casa e te encontra sem chinelos, correndo de calcinha, toda suja de terra. Sua avó respira fundo sempre que precisa debater o calendário de vacina comigo ou quando insisto em tratar sua tosse com chá, colo, cobertor e paciência.

De tanto discursar sobre os malefícios dos refrigerantes, nossa família parou, enfim, de te oferecer coca-cola ou fanta uva. Seu pai adora me tirar do sério falando que você comeu frango assado ou tropeiro com linguiça e bacon na casa dele. Ele não perde a oportunidade de mandar uma mensagem dizendo: “avisa a Mel que fiz torresmo pra ela”. Muitas pessoas questionam a educação paradoxa que te dou em relação aos alimentos, inclusive: faço questão de te contar de onde vêm os ovos e o leite; te critico sempre por amar gatos e cachorros e devorar frangos, peixes e bois, mas não implico quando você insiste em comer um miojo inteiro sozinha ou pede todinho e biscoito recheado no café da manhã.

Sou assim, pequena! Exatamente assim. Cheia de ambiguidades. Incoerente. Me perdoa por isso. Às vezes, as coisas pesam mais do que eu suponho que posso aguentar e já não tem como esconder de você minhas fraquezas. Longe de mim querer colocar sob teus ombros o peso das minhas decisões, mas é por você, sim, que eu ainda insisto em tentar superar os medos, em ficar bem. Nada me dói mais do que perceber seus olhinhos curiosos pairando sob mim e questionando:
- porque você está chorando, mamãe?

Um dia ainda vou te explicar biológica e emocionalmente porque choro. Até lá, quero dormir e acordar com seu hálito de bebê bem no meu nariz, passar os dias fazendo panquecas, tapiocas e lasanhas. Brigando para que você recolha os brinquedos espalhados pela casa, tomando banho junto com você, respondendo por onde os bebês nascem, explicando sobre o ciclo menstrual e os benefícios dos coletores.

Quero seguir pintando as unhas com você no sábado de manhã e morrer de rir no escuro com seus questionamentos ou quando você solta pérolas como: 
- mamãe, não quero ter filhos. você pode avisar ao médico, por favor?

Que presente sua existência, meu bem. O mundo inteiro deveria ter a oportunidade de te conhecer. E longe de mim romantizar essa tal maternidade. Faço questão sempre de gritar aos quatro cantos o quanto é difícil, o quanto o calo aperta nas noites de febre alta, nas reuniões de escola ou consultas médicas que não posso ir por conta do trabalho. Ainda assim, meio torta, meio sem jeito, com zero vocação e paciência sou extremamente grata por nosso encontro. Por cada transformação que você provocou em mim. Pelo cuidado que você tem quando me oferece água, quando me faz um carinho no cabelo e me oferece abraços apertados. Por todos os monstros que você, com seus singelos 92cm, me encoraja a enfrentar de peito aberto.

Que sigamos juntas. Que sejamos sempre nós duas contra o mundo. Pelo mundo afora. Que você nunca duvide do tamanho do meu amor por você, por mais errante que eu venha a ser. Que seja capaz de perdoar os erros — por que sim, sua mãe é mestre em errar. Que seja menos inconsequente e 70x mais feliz que eu.

Dias melhores virão, meu bem.
I promise.

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