Sobre monstros que ninguém fala e todos ignoram

Despertador tocou.
Abri os olhos.
Ok! Mais uma semana vem aí.
Senti minha respiração ofegante ainda no banho.
Relevei.
O trânsito caótico de sempre.
Um bom humor insuportável às 8h15 a.m.
De repente aquela euforia que começa no dedão do pé e antes de chegar à cabeça já causa tremor nas mãos e faz o coração disparar.
Piadas mórbidas. Uma alegria descabida que pedia uma playlist de punk rock no talo. 
Revirei a agenda do celular. Falei com velhos e esquecidos contatos.
Marquei vinho com as amigas.
Almoço com um brother da época da faculdade.
Uma cerveja no fim da semana.
Tentava controlar a respiração.
Queria mesmo pegar estrada.
Acampar na praia.
Correr na areia.
Mirar a lua.
Respirava fundo. 
Puxava pelo nariz. Soltava pela boca.
Cinco vezes. Dez vezes. Vinte vezes.
Três cigarros antes do almoço.
Eu sabia que conhecia aquele sentimento de outros carnavais. 
Não era bom presságio.
Ignorei.
Até que o fim do dia chegou. Toda aquela energia parecia ter sido sugada e um vazio imenso tomava o lugar. De repente tudo ficou escuro. 
Eu precisava do silêncio da minha casa. 
Não conseguia dormir.
O vazio aumentava cada vez mais. 
Nada aconteceu.
Nenhum gatilho.
Nenhum motivo específico.
Cochilei e já era dia outra vez.
Tudo de novo.
Respiração ofegante, mãos trêmulas, pernas inquietas, cabeça cheia, coração disparado. Aquela sensação de morte — que eu já sei que nunca chega. E a cada giro do relógio os demônios iam saindo de dentro de mim. Aos poucos. Meus monstros internos. Um por um. Em fila indiana. Fazendo caretas, gritando, gargalhando, dançando em volta de mim. 
Continuei ignorando.
Ativei o piloto automático. 
Não há de ser nada.
Só mais um pico de ansiedade.
É necessário sobreviver.
Zero concentração.
Mais três cigarros na parte da manhã.
Outros três até o fim da tarde.
Preciso do escuro.
Do silêncio.
Não quero ouvir ninguém.
Falar com ninguém.
Meus monstros precisam de atenção ou vão me engolir.
Ok! Sou de vocês. Vamos dançar até o dia nascer.
E o dia nasceu.
Sem pregar os olhos.
Não suporto o cheiro de nenhuma comida.
Meu organismo só aceita café e nicotina.
Então toma! Não vou me contrariar. 
E o vazio parecia fermentado.
Crescia. Crescia. Cresceu.
Tomou conta. 
E a mente acelerada. 
E se?
E quando?
E se?
E quando?
Choro descontrolado.
Por que?
Por que?
Choro.
E de repente o sentimento de estar sozinha.
De fato, todos estamos. 
A verdade é que ninguém se importa.

“Você também fica esperando pelo pior sempre”.

Eu não escolhi ser assim.
Acredite!
Eu não escolhi sentir assim.
Mas sinto.
Perdi a noção do tempo.
Alguém me abraça?
Por que ninguém me vê? 
Por que ninguém vem me salvar?
Sozinha.
Sempre sozinha.
É assim que é.
Então que assim seja.
E foi.
Isolada.
Fugindo até do espelho.
Nada faz sentido.
Nada importa.
Não escolhi estar aqui.
Não quero estar.
Comprimidos? Faca? Tesoura? Lâminas? Corda? Prédio? Passarela? Rio?
Gargalhadas internas altas.
“Tão incapaz. Tão covarde”.
Eu sei. Não consigo.
Um abraço é o único antídoto.
Mas quem se importa?
Sozinha.
Seguindo.
No piloto automático.
Sem forças para ficar de pé no chuveiro.
Sem banho. Que diferença faz?
As frutas apodrecendo na fruteira.
Quem se importa?
O gosto (ou a ausência dele) da água me dá ânsia.
Vômito.
Dor de cabeça.
Dor em todos os músculos.
Dificuldade para respirar.
O telefone toca. Silencio.
Desligo.
Morrer não é tão simples quanto parece.
Os olhos também doem.
Mas o vazio ainda dói mais.
Por que?
E se?
E quando?
Não quero estar aqui.
Não faz sentido.
Choro compulsório.
Vômito.
Tem alguém aí?
Alguém me abraça?
Alguém consegue enxergar o tamanho desse vazio?
Está tudo tão escuro.
Tão frio.
E todos os meus músculos doem.
O telefone toca. Finjo que não é comigo.
Dormir é a única maneira de não sentir.
Durmo.
Abro os olhos inchados e as lágrimas já escorrem automaticamente.
A dor continua aqui.
O vazio berra dentro de mim.
Quem se importa?
Essa dor é só minha.
E o frio aumenta.
Durmo.
Acordo.
Choro até dormir de novo.
De repente me olho no espelho: o reflexo de um bicho.
Quase tão bizarro quanto meus monstros internos.
Levemente assustador.
Sinto pena.
Ainda sinto.
Que saudade eu senti.
Alguma coisa dentro daquele vazio.
Celular na mão, olhos doendo com a luz do visor. 
Aplicativo aberto. Mensagens não lidas.
As mesmas indagações: como você está? Dá notícias! Vamos sair?
Desligo de novo.
Mais vômito.
Viro para o lado.
Durmo.
Acordo.
Choro.
Acho que quero te ver.
Por favor! Apreça.
Onde está você?
Tudo em mim dói.
Cada articulação.
Não importa.
Ninguém se importa.
Choro.
E lá se foi uma semana.
Quase sete dias desejando desligar os fios condutores.
Quase sete dias respirando com dificuldade.
Por mera obrigação.

Preciso tomar um ar.
Quero dirigir.
Coração acelerado.
Mãos trêmulas.
Pernas inquietas.
- Estou aqui embaixo.
- Jura? Nem tomei banho. Vamos para sua casa?
- Tanto faz.

(…) 
Continua… (sempre continua).

No início de 2017, a Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou dados que apontam que mais de 320 milhões de pessoas sofrem de depressão no mundo — o que representa 4,4% da população do planeta. O Brasil tem a maior taxa da América Latina e uma média que supera os índices mundiais. A OMS estima que 5,8% dos brasileiros são afetados pela doença.
Além da depressão, a entidade apurou que mais de 260 milhões de pessoas no mundo sofrem com transtornos de ansiedade. Mais uma vez, no Brasil, os números impressionam: 9,3% da população sofre com algum tipo de transtorno de ansiedade — taxa que é três vezes superior à média mundial.