Sobre sonhos e revoluções

6h a.m — o despertador toca anunciando mais um dia útil cheio de inutilidades. Ativo a função soneca. Viro para o lado e durmo por mais 20min. Repito esse ritual até ás 7h a.m, quando me rendo às responsabilidades e aceito que faço parte da maioria esmagadora da população que precisa atravessar a cidade, enfrentar um trânsito caótico para chegar ao destino — onde, por 8h, exerce funções e cumpre o papel de funcionário dedicado à fomentar renda para patrões que há tempos não fazem ideia do que é assinar um contra-cheque e entrar em desespero quando o dinheiro acaba e o mês ainda está pela metade.

O sistema é foda.

E nessa brincadeira de trabalhar para pagar contas e consumir mais e mais, a vida passa em câmera lenta — na velocidade da luz. A gente até se irrita, esbraveja contra a política imunda, tem consciência de que está tudo errado, do quão injusto o mundo é, das crianças famintas na África e das guerras que já não se limitam ao Oriente Médio. Ainda assim, seguimos o roteiro dos primórdios e, um belo dia, as causas sociais e os movimentos políticos os quais nos dedicamos no ápice da juventude saem da lista de prioridades e a gente se acomoda. Preferimos aceitar que certas coisas não mudam, que os recortes de classes são culturais e a desigualdade social é o troféu do capitalismo que impera.

O ativismo passa a ser perpetuado virtualmente pela tela do celular — cada um com seu idealismo, focado em suas causas perdidas — e nem por isso deslegitimadas. Alguns por convicção, outros por pura conveniência. E assim seguimos, nos aproximando de pessoas que falam uma língua parecida com a nossa ou que compartilham de uma mesma hipocrisia, seja qual for.

De repente toda aquelas convicções que carregávamos no peito adormecem, a fé se abala e nos tornamos exatamente aquilo que sempre juramos que não seríamos. Você é feliz? Você está exatamente onde gostaria? Você se sente realizado? Passamos a ignorar esse tipo de questionamento e nos entregamos ao fluxo que a vida dita. Uns com mais privilégios que outros, com realidades menos ou mais complexas, com vivências mais ou menos intensas: todos tentando sobreviver ao caos.

Quem ousa desafiar o comodismo e trilhar o próprio caminho sabe que além de persistência é necessário disposição e estômago forte para quebrar paradigmas e encarar o pessimismo daqueles que seguem a rota do senso comum, da felicidade vendida em comerciais de margarina. Chega a ser bonito e até comovente ver as pessoas tomando as ruas exigindo seus direitos, de punhos fechados e erguidos, rosto pintado, peito aberto, marchando com gritos e palavras de ordem.

Taí uma coisa que me emociona e respeito: revoluções (pessoais e sociais). A história mostra que nenhuma mudança se dá sem mobilização — seja no âmbito que for.

E quando alguém se mobiliza para ser coerente aos seus sentimentos é ainda mais comovente. Em um mundo cada dia mais devastador romper as barreiras — emocionais ou sociológicas — é um ato de coragem. Diante de tanta superficialidade, de mentes perversas e corações obsoletos, creio que abrir mão do óbvio, reconhecer e respeitar as lutas internas do próximo, se dispor a desconstruir para reconstruir pode ter efeitos muito eficazes que qualquer passeata pelas principais avenidas da cidade.

Nada tem a ver com ignorar a realidade coletiva e elevar o próprio ego. Efetivamente, distribuir sopa e cobertores a moradores de rua perde todo o sentido quando uma resposta ríspida e cruel é dada a própria mãe em casa ou quando um abraço forte é negado ao pai. Também não é uma questão de estar sempre em busca da perfeição, dos atos impecáveis condizentes aos heróis que salvam a pátria. É sobre estar em paz consigo mesmo, tendo consciência que a batalha é dura, o caminho cheio de pedregulhos, mas se vender ao sistema, se render ao que lhe disseram que é correto, não pode ser uma opção — em nome de nada, nem de ninguém.

Largar tudo, abrir mão dos bens materiais, colocar a família em segundo plano e sair desbravando o mundo em viagens cinematográficas não é uma escolha (e muitas vezes, nem um desejo) da maioria esmagadora que sai de casa quando o sol nasce e só retorna quando a noite já faz silêncio. É preciso dar conta do recado e romantizar os padrões ideais não muda muita coisa.

Se submeter a um trabalho árduo, suportar a ignorância e a soberba de quem está no poder não é sinal de fraqueza: não falhamos ou traímos nossas convicções ao passar o crachá, bater ponto e cumprir 1h de almoço. Falhamos quando aceitamos que a felicidade é artigo de luxo, fora do alcance e nos acomodamos em uma vida sem sentido, sem frio na barriga, sem pequenas conquistas e realizações diárias.

Que consigamos manter a fé em dias melhores, que a gente não se permita acomodar e, mais que isso, que estejamos sempre traçando planos para alcançarmos aquilo que, de fato, torna nossa existência relevante. Que nossos corações não se tornem obsoletos e que tenhamos empatia ao olharmos para as lutas do outro. Que sejamos compreensivos com nossas próprias fraquezas e imperfeições, que possamos aprender com nossos erros. Que façamos o que for preciso para sobreviver, sem que isso nos faça perder a vida e nos perdermos de nós mesmos.

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