
Era segunda feira, coisa de 8 e meia da manhã e já fazia um calor que me tirava, aos poucos, a dignidade. Andando na rua, eu não ouvia nada ao meu redor por causa da música alta nos fones. Por causa disso, eu não ouvi o desconhecido me chamar e, na transição de uma música do Rodrigo Ogi para uma do Starset, ele me cutucou no ombro pedindo licença pra falar comigo. Educadamente tirei os fones e ouvi:
"O amigo, qualé da sua tatuagem?"
Sempre que alguém me pergunta isso sinto vontade de responder a mesma coisa:
"Meu irmão, nem eu sei. É tipo Lost, lembra de Lost? No começo parecia legal e uma ideia foda, no final é até confuso lembrar o porque de tudo."

Mas não respondi. Eu contei a história real. O significado e todo o resto (mais ou menos como estou fazendo aqui). Isso enquanto andávamos em direção ao metrô. E ele começou a falar do professor de física dele e de como ele tinha acabado de passar no vestibular porque esse mesmo professor de física empolgou a turma inteira dele a estudar, e que esse era um bom caminho. Chegamos no metrô depois de ter trocado ideia sobre faculdades. Nos despedimos. Moleque bacana. Então eu me toquei:
- Nunca mais vou ver esse brother na minha vida e mesmo assim compartilhei várias crenças e ideias minhas com ele
- Trocamos uma ideia maneira sobre as coisas que depois gerou uma reflexão tão boa pra mim quanto pra ele (eu acho)
- Tudo isso aconteceu por causa de uma boa história
Óbvio que, dentro do metrô a piração começou a ficar mais interessante na minha cabeça. Vamos por tudo em tópicos:
Boas histórias ajudam a socializar
Eu sou, sempre fui e sempre serei introvertido. Não daqueles que tem vergonha se alguém vem falar com eles. Mas digamos que eu não fico puxando assuntos aleatórios com pessoas na fila de banco.
Entretanto é inegável que eu precise me relacionar com as pessoas e, inclusive, puxar assuntos aleatórios de vez em quando. Nada melhor que uma boa história para isso.
Aliás, aberto o tema, deixa eu contar uma coisa: já li alguns livros sobre networking e relações interpessoais. Vi TED Talks. Li posts em blogs. Em nenhum lugar vi esse conselho antes. Todos falam de buscar pontos em comum e explorar, mas isso não é tão fácil de fazer. Por que não buscar pontos em comum através de histórias? Por que não puxar assuntos com as pessoas utilizando as suas histórias? Fiquei nessa reflexão que imediatamente puxou outra…
Por que pasteurizamos boas histórias?
Muito se fala em storytelling, marketing de conteúdo e qualquer outra palavra bonita dessas da moda que justificam um lado mais "humano" de se conectar, mas quantas pessoas/marcas estão interessadas em se relacionar por histórias (histórias de verdade sobre si mesmos, não coisas rasas)?
Entenda que para você contar uma história você precisa se expor ao máximo. Mesmo que seja uma ficção, você vai expor muito de si mesmo: suas crenças, seus traumas e inseguranças, seus pontos fortes e fracos, o que te deixa feliz, triste e etcetera.
Quantas pessoas/marcas estão realmente dispostas a fazer isso? Por que insistir na cultura das histórias rasas? O fato de eu ter explicado minha tatuagem expôs muita da minha vida, do que eu acredito e do meu momento pessoal, mas eu não me arrependi. Se eu tivesse sido raso eu teria ouvido a história do desconhecido? Teria refletido sobre tudo isso?
E essa linha de raciocínio me levou a pensar que…
Contar histórias não é um processo doloroso
Não foi ruim contar a história da tatuagem para o desconhecido. Não foi ruim contar (e ouvir) as histórias subsequentes. Foi natural.
Se foi natural e não foi doloroso, por qual motivo as pessoas/marcas/grupos/empresas/[insira aqui] transformam isso num processo mecânico e não natural? Meu ponto é que se você tem dificuldade ou precisa criar regras ou metodologias para escrever uma boa história, algo está errado.
Mas eu quis criar um manual também. E criei:
Manual para contar uma boa história (sem levar em conta a estética já que esse não é um texto que fala sobre estética, estilística, análise literária ou qualquer coisa que o valha)
1. Comece a digitar (ou falar, ou cantar, ou desenhar) uma história
2. fim
Qual a conclusão desse textão?
Primeiro que devem ter umas 700 palavras até aqui. Nem é textão.
Continuando…
Histórias são boas quando contadas para valer. Lembre-se sempre disso. As pessoas sabem quando algo é falso. E quando eu digo falso eu não estou falando de Ficção. Ficção é algo legal. Mas a boa Ficção só é boa porque ela significa algo.
Mas o que que é significar algo?
Toda história tem o seu herói, fazendo alguma coisa e no final uma moral. As pessoas tem tanto medo das suas histórias não terem uma moral mágica, como a dos contos de fada, que muitas vezes elas nem preferem não contá-las. Ou seja, começam a contar histórias com outros objetivos, tentando criar essa moral.
A verdade é que, na vida, a moral nem sempre vai ser boa. Na verdade, nem sempre você precisa de uma moral. Só de contar a "aventura", já tá valendo.
Para significar algo, você precisa contar uma história sem se preocupar com nenhum objetivo a não ser contar uma história. Muitas vezes não é a moral que vai te fazer refletir, mas sim toda a jornada.
A Coca Cola quando faz aqueles videozinhos bonitinhos, ela tem um objetivo claro. Até as cores do comercial são escolhidas a dedo para ativar gatilhos no seu cérebro. Os caras tem que se preocupar com isso para contar uma história para você. Por que não contam histórias de verdade? Será que é impossível escrever uma boa história sem ser teatral (pelo menos para uma empresa)? Ou será que não houve um esforço para contar histórias do jeito certo?
Chego aqui, nesse que é um dos últimos parágrafos e olho para trás. Leio e releio esse texto algumas vezes e me pergunto: qual a moral dessa minha história? De repente escrever tudo isso me parece igual a tatuagem: uma boa ideia no começo, mas agora, o que significa? Qual a moral?
E assim como a minha tatuagem eu consigo ver que ela é uma boa história e tem sim sua moral mas é aquele papo: vai exigir a nossa reflexão…