Aquela maldita mesa torta e um princípio de infarto
O problema, geralmente, são os idiotas

“Cabeça vazia, oficina do diabo”.
Eu sempre disse que era coisa de desocupado até descobrir que ser ocupado demais também fazia ela aparecer. Não precisava nem repetir três vezes de frente pro espelho durante a madrugada.
Um dia no trabalho em meio a enorme pressão senti meu corpo adormecer. Em segundos fiquei gelada, suando frio. Meu coração batia esquisito. Me desesperei. Poucas vezes senti tanto medo. Olhei pro bróder do trampo e disse: Cara, tô tendo um treco. De verdade.
— Ary, você quer água? Alguma coisa? Quer que eu chame uma ambulância? CARALHO VOCÊ TÁ MUITO PÁLIDA!
— Não, só preciso respirar.
Depois de alguns minutos de pânico me recuperei. Tentei pegar leve repetindo pra mim mesma “é só trabalho, o mundo não vai acabar caso não dê certo” como um mantra. Fiz isso o dia todo. Só queria saber de terminar o expediente chegar em casa e dormir. Eu precisava dormir. Há dias não dormia direito.
No dia seguinte marquei médico. Queria alguém que me desse uma bateria de exames. Que me disesse o que tinha de errado com meu organismo. Dessa vez, ao contrário de todas as outras, eu faria o que me fosse indicado.
Marquei num dos bons, nunca havia me consultado lá. Vinha fugindo de médico desde que fiquei sem plano de saúde (leia-se anos). Quando enfim chegou o dia, fui atendida por um senhor razoávelmente simpático com uma mesa torta.
Nada do que ele falava me chamava tanta atenção quanto aquela maldita mesa torta. Relatei a razão que tinha me levado até lá e
— Isso parece um princípio de infarto. Esses surtos de estresse ocorrem com frequência?
— Estresse sim, surto não.
— Ansiedade?
— Talvez.
— Você se incomoda muito quando as coisas saem de controle?
— Eu tô bastante incomodada com a sua mesa torta.
— Aé. Tá torta mesmo.
Dentre perguntas sobre minha rotina, sono e vida social, ele nem arrumou a maldita mesa. Me pediu uma série de exames e constatou:
— Seu problema é estresse. Ele quem desencadeou esses sintomas de TOC e depressão. Vou te receitar um ansiolítico e um remédio que você precisa tomar quando houver crises de insônia. Mas quando tomar esse, não esquece do ansiolítico. Aí, é só aguardarmos os demais exames pra saber como proceder.
Depressão. Eu sempre disse que era coisa de desocupado até descobrir que ser ocupado demais também fazia ela aparecer. Não precisava nem repetir três vezes de frente pro espelho durante a madrugada.
Quando você vive estressado, dissociar a patologia de sua personalidade se torna impossível. Os outros exames não deram em nada. Era estresse. Depressão.
Tenho a péssima mania de ler todas as bulas de todos os medicamentos que tenho a mão. Só pelo protocolo de ter que assinar duas vias pra retirar os malditos remédios já tinha sacado que o negócio era punk. O tal remédio pra dormir tinha uma bula super legal dizendo que era pra observar quaisquer sintomas de apatia ou pensamentos suicídas que aquilo pudesse provocar. O outro era pra tratar tudo isso, então entendi a recomendação do “não tome um sem o outro” do senhor da mesa torta.
Caralho, caralho. Minha vida não tá tão ruim assim.
✓ Relacionamento
✓ Família
✓ Amigos
Aí eu comecei a me sentir culpada de me sentir tão mal. E tudo começou a piorar.
É claro que as recomendações serão sempre: pratique esportes, tenha uma alimentação saudável, arrume um hobbie que te dê prazer, tire férias, vá viajar, etc etc etc. O impressionante é que quem recomenda não entende que você não tem vontade de fazer porra nenhuma. Quando seu nível de estresse chega a níveis alarmantes tudo, ABSOLUTAMENTE TUDO, parece obrigação. E toda obrigação é um saco. E se tudo é um saco você se deprime. Sério. Se sentir bem é mais complicado do que parece.
“Antes que você seja diagnosticado com depressão ou baixa auto-estima, primeiro certifique-se de que, na verdade, não esteja cercado só por idiotas.”
Isso era um problema. Apesar de todos os meus relacionamentos interpessoais estarem ok, por fazer as vezes do atendimento na agência, acabava lidando com situações não tão bacaninhas assim e pessoas não tão bacaninhas assim. Especialmente naquela época.
Veja bem. Não tô reclamando de cliente. O problema é que quando se trata de pessoas, duas ou três são capazes de estragar sua experiência com um grupo todinho. Atendimento é uma daquelas coisas que tenho talento mas não tenho estômago para fazê-lo. Me via fugindo do telefone, dos e-mails, do trello, do messenger, do skype, da deprê. Achei a deprê.

Tem um episódio não menos do que sensacional de O Incrível Mundo de Gumball (esse aqui) sobre o sentido da vida que é bastante instrutivo.
Basicamente: Dói menos para quem se importa menos.
Continuo bebendo, comendo porcaria, “sem tempo” pra ser fitness, sem grana pra viajar e etc maaaas: me sinto melhor. O maior dos problemas é que (ao que tudo indica) sempre me importei muito muito muito muito mais do que deveria com as coisas. E a verdade é que aquele velho mantra do dia que quase enfartei deveria ser repetido não só no fatídico, mas em todos os dias.
“É só trabalho, o mundo não vai acabar caso não dê certo”.
Isso funciona em todos os âmbitos da vida.
Parece, mas nossa vida não vai acabar e nós vamos sim nos apaixonarmos de novo quando um relacionamento acaba. E um dia a gente quita aquela maldita dívida que ficou pra trás não por babaquice, mas porque as coisas deram errado. Um dia a gente vai se erguer ou se reerguer.
Se sentir bem é mais complicado do que parece, mas o problema de verdade geralmente ta ali, do seu ladinho. Juro.
O problema pode ser só uma mesa torta.