Um rio onde não se pode nadar

Margens do rio Uruguai na cidade de Uruguaiana | Legenda acessível #PraCegoVer: Rio Uruguai calmo em tons de azul, uma garça está parada na beira do rio ao canto esquerdo, o céu tem tons de azul claro e nuvens brancas | Foto: Louise da Campo

Por: Louise da Campo | Universidade Federal do Pampa #UNIPAMPA |Esta reportagem possui acessibilidade para pessoas com deficiência auditiva e visual

“Nadar no rio é uma coisa que meus netos nunca vão poder fazer”, relata Cirlei Santos, 62 anos, relembrando a época de juventude onde passava as tardes à beira do Rio Uruguai na cidade de Uruguaiana, “Aquela época era uma maravilha”. Há 20 anos Cirlei nadou pela última vez nas águas do Rio Uruguai e a única coisa que restou foi a lembrança daquele tempo.

A água dos rios é o recurso mais importante para sobrevivência humana. Fornece a água para consumo, produção de alimentos, higiene e para irrigação de solos agrícolas. Não é à toa que as primeiras civilizações foram formadas ao redor de rios, já que nestas regiões existia uma abundância de água potável que servia para consumo dos membros da tribo e para seus animais. Com o domínio da agricultura, fixar-se próximo a locais com curso de água possibilitava terras mais férteis, assim, gradativamente, as cidades foram se formando.

Nas terras brasileiras há a mais abundante rede hidrográfica do mundo. O Brasil possui a maior reserva de água doce do planeta, portanto o desenvolvimento agrícola e urbano depende desse recurso, porém, o fato do país tornar os rios o principal meio de escoamento de esgoto causa diversos problemas como a poluição, mudança de coloração, incapacidade de uso original para consumo e diversas doenças que ameaçam a saúde pública. Mas, não é apenas o escoamento de esgoto que causa a poluição dos rios, o ambiente é impactado pelos humanos quando transformam esse meio em um depósito de lixos.

O Rio Uruguai

Na Serra Geral do Rio Grande do Sul nasce o Rio Uruguai, um curso de água sul-americano formado pela junção dos rios Canoas e Pelotas. Percorre também os países: Argentina e Uruguai, e é considerado um dos rios mais importantes na hidrografia do sul do Brasil.

Localização do Rio Uruguai:

#PraCegoVer: Mapa feito no Google Maps com a rota onde o Rio Uruguai passa. Nas cores verde, bege, azul e amarelo claro.

Segundo o projeto Brasil das Águas, o lançamento de efluentes urbanos, rurais — vindos da avicultura e suinocultura — e de indústria de celulose são muito encontrados nesse rio. O projeto aponta a necessidade de tecnologias para tratamento e reaproveitamento dos resíduos rurais e criação de programa de tratamento de esgoto doméstico e industrial. O biólogo Francisco Galvani (64)ainda ressalta a existência de uma sobrecarga de metais pesados na cabeceira do rio Uruguai vindos através de dejetos da criação de suínos, “É um grande problema de poluição que temos no estado de Santa Catarina, onde existe um despejo de uma carga muito grande de dejetos”, aponta Galvani.

Esgoto que deságua diretamente no rio Uruguai em Uruguaiana | Legenda acessível #PraCegoVer: Um boeiro de esgoto aberto, muitas plantas em tons de verde em volta |Foto: Louise da Campo

Para o biólogo Luis Bortoluzzi (31) a poluição do rio Uruguai é muito pontual, marcada principalmente pelo escoamento de esgoto diretamente no rio e pelos agrotóxicos da produção agrícola que afeta o estado da água e os peixes que habitam esse ambiente, “A grande sacada para tentar resolver isso é tentar buscar a produção aliada de forma menos impactante com harmonia e equilíbrio, tentar buscar uma forma de produzir e impactar menos”, ressalta Bortoluzzi.

Apesar disso, o rio Uruguai não é considerado um dos rios mais poluídos do Brasil, inclusive não estava presente no ranking dos dez rios mais degradados do país feito em 2012 pelo IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Mas isso não quer dizer que as águas ao natural são próprias para banho e consumo, pelo contrário, o médico Luiz Carlos Porto aponta que pelas condições atuais em que o rio se encontra ele não é apropriado para banho e consumo sem o devido tratamento da água.

Margens do rio Uruguai na cidade de São Borja | Legenda acessível #PraCegoVer: Rio Uruguai em movimento, o sol reflete no rio e o faz parecer brilhoso, uma árvore verde ao canto esquerdo, e no horizonte muitas árvores | Foto: Willian Silva

Com isso surge um questionamento: por que a população polui um recurso do qual tanto precisa? A falta de educação ambiental é uma explicação para a existência de tanto lixo depositado por moradores das cidades onde o Rio Uruguai se encontra.

“As pessoas estão próximas ao rio e não veem ele” Luis Bortoluzzi, biólogo.

O professor Doutor em Ciências Biológicas, Edward Pessano (34) aponta que é necessário um processo de alfabetização científica da população, “É preciso entender exatamente o tamanho do impacto da poluição, o que ela vai causar e o que pode desencadear em todo o sistema”, explica Pessano. A peça chave que poderia diminuir gradativamente a poluição dos rios é a educação segundo o biólogo Bortoluzzi.

Ouça o podcast com o biólogo Luis Bortoluzzi explicando a questão:

Segundo a Política Nacional de Educação Ambiental —Lei nº 9795/1999, Art 1º, a educação ambiental se define como os processos dos quais o indivíduo constrói valores sociais, habilidades, atitudes e competências direcionadas para a conservação do meio ambiente.

Ameaça à saúde pública

Falta de tratamento de esgoto à beira do rio Uruguai | Legenda acessível #PraCegoVer: Um boeiro de esgoto aberto perto do Rio Uruguai e desagua no próprio rio | Foto: Louise da Campo

“Nos domingos íamos com a família toda passar às margens do Rio Uruguai, sempre fui ligado ao rio. Antigamente a poluição era menor, mas com o acúmulo da população o rio foi ficando doente”, conta o médico Luiz Carlos Porto, 64 anos, que não conformado com a situação do rio Uruguai fez um mestrado em “Meio ambiente e desenvolvimento”, através de trabalhos realizados analisando a qualidade do Rio Uruguai percebeu o quão degradado o rio se encontra. “É absurda a quantidade de lixo no rio”, ressalta Porto.

Na região da fronteira oeste, em municípios como Itaqui, São Borja e Uruguaiana o Rio Uruguai não se encontra com um nível alto de poluição, devido ao baixo índice de industrialização. Os poluentes que acabam indo para o rio são geralmente caracterizados por matéria orgânica e alguns resíduos que se decompõem dos lixões e que chegam ao rio através das chuvas. Portanto o impacto desses efluentes na saúde não são tão graves quanto o impacto causado por metais pesados e poluentes com alto grau de toxidade.

Cólera, febre tifoide, leptospirose, infecções de pele, gastroenterites e amebíase. Essas são apenas algumas das doenças que um indivíduo pode contrair ao banhar-se ou ao beber água em um rio poluído. Os vírus, bactérias e demais parasitas que causam diversas doenças chegam ao rio geralmente através do esgoto doméstico, com exceção da leptospirose — bactéria que chega à água através da urina de ratos que possuem suas tocas à beira do rio.

A cultura das cidades que margeiam o rio Uruguai é usar esse espaço como um meio de recreação e lazer e quando o indivíduo tem esse contato direto com o rio inevitavelmente pode acabar ingerindo essa água. Através desse contato pode se desenvolver uma infecção na pele por fungos ou bactérias, “É uma série de acontecimentos que são desencadeados pela questão da poluição”, aponta o professor doutor em Ciências Biológicas, Pessano.

Segundo o Instituto Trata Brasil — organização especializada no setor de saneamento básico — apenas 39% dos esgotos do país são tratados. A falta do saneamento básico é uma das maiores implicações na saúde da população. Outra pesquisa realizada pelo Instituto intitulada “Esgotamento Sanitário Inadequado e Impactos na Saúde da População” no ano de 2015 mostrou que a questão do saneamento básico precário é o maior causador de internação por diarreia no Brasil atingindo principalmente crianças entre zero a cinco anos.

Para Organização Mundial de Saúde — OMS o saneamento básico precário é uma grande ameaça à saúde humana. Doenças que estão relacionadas a sistema de água e esgoto causam a morte de milhões de pessoas todos os anos, ainda segundo estudo da OMS em 2009, 88% das mortes por diarreia no mundo estão relacionadas a falta de saneamento básico. “Se eu conseguir trabalhar com saneamento básico em todas as cidades, nós teríamos aí uma redução significativa de doenças”, ressalta o biólogo Galvani.

Confira a seguir o mini documentário: “Um rio onde não se pode nadar”. O vídeo contém recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência visual e auditiva. Para tanto, você pode ativar as legendas no vídeo principal ou acompanhar o vídeo secundário com audiodescrição:

No Brasil existe a lei de saneamento básico de 2007 — número 11.445 — onde consta que toda cidade brasileira deve ter seu plano de saneamento básico. Porém, isso não acontece em todo o país, o Plano Nacional de Saneamento Básico tinha como propósito atender 90% do território brasileiro e tratar os esgotos até 2033, no entanto o Governo assumiu a incapacidade de alcançar essa meta, a justificativa é a dificuldade de administrar o problema. “A ideia da lei era fazer com que as cidades conseguissem minimizar os impactos desde sua fundação e assim fazer com que esse ambiente ficasse menos degradado”, ressalta o biólogo Bortoluzzi.

Lembranças de um tempo que não volta

O pescador Alberto Mendonça, passou uma grande parte de sua vida à beira do Rio Uruguai em São Borja, seu sustento vinha todo da pesca. Atualmente, Mendonça relata que é preciso viajar muito longe para conseguir pegar um peixe, “Eu pescava muito, agora que tá escasso o peixe. Arruinou tudo com a poluição, nem peixe dá pra comer mais, as pessoas ficam com medo de doença”, conta.

Com a poluição resta para os moradores ribeirinhos apenas observar o rio | Legenda acessível #PraCegoVer: Um casal está sentado à beira do Rio Uruguai, há muitas árvores |Foto: Louise da Campo

A lembrança mais marcante que o motorista Ivan dos Reis possui é da chamada “Prainha”, local onde moradores do município frequentavam com a família e amigos nos dias de calor, usando o rio como uma espécie de balneário, “Hoje tudo isso acabou, não da mais por causa da poluição”, relata.

“Antigamente tinha muitas árvores aqui na região do rio, as pessoas tomavam banho e não era poluído” Maderley Pereira, comerciante.

Maderley Pereira foi criada à beira do rio Uruguai em São Borja, há mais de 60 anos vive no local e acompanhou de perto as mudanças que o ambiente sofreu. Maderley conta que muitas pessoas vinham de outras cidades para banhar-se no rio e relembra a abundância de peixes na região.

Ao decorrer dos anos a degradação do Rio Uruguai, feita pelos próprios humanos, tornou-se um problema tão sério que impossibilitou que as novas gerações usufruam desse meio. E das peculiaridades do rio Uruguai lembradas por moradores antigos das regiões que margeiam o rio, a única coisa que restou foi admirar o pôr do sol à beira do rio. Pois nadar já não se pode mais.

Legenda acessível #PraCegoVer: Pôr do sol no Rio Uruguai, o céu está em tons de laranja e amarelo e o sol reflete na água estas cores |Foto: Luigi da Campo
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