A menina que odiava os homens

Danielle Corrêa
Nov 4 · 6 min read

É um clichê, mas como toda boa história esta também começa com uma séries de pequenas e inocentes decepções.

Da infância até o início da sua adolescência nenhum menino gostou dela. Nem é necessário dizer que isto não deveria ser relevante para uma jovem em tão tenra idade. Foram os motivos dados por eles eram demasiadamente dolorosos.

Era feia demais, magra demais, dentuça demais, tímida demais. E já tão cedo demonstrava apreço por aqueles que não demonstravam nada por ela. Era assim até com amizades. Uma necessidade profunda de conquistar aquilo que lhe era negado.

Os apelidos eram variados, podem imaginar. A criatividade das crianças parece realmente não ter limites. Suas fontes vinham do mundo animal, da flora carioca e do mais profundo desejo de apenas magoar.

Isso ela superou. Bullying não era algo que realmente afetava as pessoas naquela época. Pelo menos no caso dela. Porém os meninos… esses sim marcaram. Uma sucessão de rejeições, nãos, etc. Olhando em retrospecto, é até admirável a forma nunca desistiu de tentar.

Veio a fase mais fácil de todas. A triagem para ir perdendo a virgindade. De espírito não de corpo. Beijos, muitos beijos desde os 10 anos de idade com os mais diversos tipos de meninos. Era isso. Ninguém queria namorar. A graça residia nos números. Pensando bem, acho que nem ela queria algo sério ou não se permitia. Até que gostou desse ou daquele menino, suspirou, imaginou...

O primeiro namoradinho. Cara mais velho, bonito. Meio esquisito, mas ainda assim interessante. As coisas ainda estavam caminhando, quando o término chegou pelo Orkut. Uma pequena apunhalada. É doeu, mas que bom… Ele era meio esquisito, deixa assim.

A primeira paixão avassaladora. Outro cara mais velho. Tinha ela seus 11 ou 12 anos? Não importa. Esse tinha namorada, não queria terminar, mas declarava amor eterno. Era nova, mas não era idiota. Um amor tão forte quanto passageiro. Ele não quer? Ok, bola pra frente. Poderia ser tudo, menos a que ficaria por segundo por opção.

O terceiro merece uma letra. W. Maldito o seja. Sim, ele era mais velho. Não, não era bonito. Não era inteligente. Nem sequer era alto. Mas era W. E ela ficou perdidamente apaixonada por ele. De um jeito que perdia o sono, de um jeito que a fome passava. De um jeito que a fazia correr na janela, se esconder atrás da cortina para vê-lo passar. Ele não a quis e nunca deu um motivo. E isso destruiu seu coração.

Continuou nos números e com o balanço de beijos. Quero beijar este. E aquele. Era algo mecânico que fazia, pois todos os outros faziam. A vantagem dela para manter o caixa positivo? Mantinha os padrões bem baixos e a carência sempre em dia. Este é o grande problema de um coração quebrado, ele não se importa com o dos outros.

Aos 14 anos decidiu que queria finalizar a triagem. Era hora de perder a virgindade de vez . A vítima? Alguém ainda mais inocente que ela. V. era um rapaz doce, carinhoso, um pouco mais velho e desastrosamente romântico. Ele servia. Ela achava que gostava dele. E foi. Mais uma decisão pragmática e desdenhosa do que amor. Não sentiu nada. Ele achou que ela mentiu. Depois de 3 meses de namoro conheceu alguém melhor.

Ao ir embora, ela destruiu pela primeira vez o coração de alguém. Ela gostou da sensação de poder, da intangibilidade. Ela gostou de ter alguém em suas mão como se fosse marionete. Entendeu o roteiro, entendeu o seu papel e passou a interpretá-lo.

Com A. ela descobriu que era bonita de verdade, pois ele era alguém que não passava desapercebido. A. era outro romântico loucamente desastrado quase da mesma idade, mas não sabia que era bonito. Se tivesse chegado uns anos antes, A. você poderia ter tido alguma chance. Ela, obviamente enjoou. Havia entendido seu papel. Destruiu o segundo coração e a cena foi digna de Shakespeare. Trocou por J.

J. era lindo de doer. Escroto, rebelde, cínico. Gostava dele porque ele sabia que era bonito. Porque ele sabia que destruía corações. Nunca precisou se esforçar para ninguém gostar dele. Ela já havia entendido. Mas era frouxo e um pouco burro. Pediu um tempo na primeira dificuldade. Ela não dava um tempo, pois ela sabia qual era o seu papel. Era melhor terminar.

Aliás, ela tinha outro na manga. Obviamente. Alguém mais rebelde e escroto ainda. Porém terrivelmente inteligente. Era feio, mas aos 18 já fumava, tinha um carro velho, era misterioso. Era o tipo que sumia e aparecia às 3 da manhã com um buquê de rosas. Irresistível. O interesse aumentava quando a probabilidade de dar merda era gigantesca.

Nessa época, sexo era ferramenta de conquista e não de prazer. Era uma vantagem, uma moeda raríssima de troca em relação às outras. Ela sabia disso. Bastava apresentar a possibilidade para ver olhos das mais diversas cores e idades brilharem. Talvez, entendia até demais.

Foi trágico o término deste último. Chegou a ser expulsa de casa. E para voltar a condição era simples: terminar. Ok… já havia cansado das mentiras e megalomanias do imbecil.

Voltou para a contabilidade que apresentou saldo negativo nos meses posteriores. Ora, ora… um período de baixa no mercado. Tempo para estudar, para ler, rever os contatos e chorar de tédio. Quando ressurge L. Não era novidade. Era mais velho, era alto, era bonito, tinha uma moto e era perfeito para o momento. Namorou quase 2 anos. Um recorde. Porém já havia meses que contava os meses. Não foi fiel. Continuava o balanço por debaixo dos panos, claro, apenas esperando uma oportunidade melhor.

No dia que chegou com uma aliança de compromisso, ela terminou. L. não levou a sério. Achou que era mais um dos muitos outros términos, mas foi. Foi sério. Ela havia conhecido alguém e se apaixonado. Talvez de verdade. E toda a história com L. foi uma grande perda de tempo… ou um passatempo.

Ah… com C. foi uma aventura. Ela tinha 18 anos e ele só alguns meses a mais. Fizeram trilha, viajaram, acamparam, fumaram maconha, cozinharam, comeram sementes mágicas, passaram na faculdade, moraram juntos, voltaram para a casa dos seus pais e, em algum momento, ela mudou e tudo mudou na vida dela. C. não fazia mais sentido. Ele continuava ele. Mas ela queria ser outra pessoa. Chegou a maltratar C. um pouco e terminou.

De volta ao mundo dos balanços. Depois de quase 3 anos com C. — sim, um novo recorde —queria se divertir. A diversão não durou muito tempo. Conheceu J. Um francês entre alemães, italianos, americanos e espanhóis dentro de um grupo muito interessante de intercambistas. Lindo como uma estátua renascentista de mármore. Mais novo. Sotaque delicioso. Uma paixão doentia que chegou a arder no peito.

Com J. descobriu o prazer genuíno no sexo. Se antes batia ponto ou fazia apenas para agradar, agora aos 21 devorava J. Ele sentia a mesma coisa. Era recíproco, descontrolado, quase animal. Foi morar com ele. No entanto, ela já mais que entendia. Enquanto vivia o conto de fadas, em algum momento ele voltaria para sua cidade medieval destruindo.

Ela tinha contas para pagar, queria ser outra pessoa. Não podia se dar o luxo de correr atrás dele pelos confins da Europa. Sustentar um amor em euros enquanto lhe faltava reais. Sentiu medo. Antes de ver alguém destruir seu coração, ela mesma o estraçalhou. E estraçalhou o dele. Foi uma hecatombe de valores e crenças.

Buscou ser pragmática para sobreviver. Fez escolhas racionais, planos seguidos a risca. Metas. Sentiu o vazio mais pleno que jamais sentira. Havia interiorizado o ditado: “o certo pelo duvidoso”. Enquanto tudo caminhava bem na concretude da vida real, seu mundo interior se desmanchava. Tornou-se descrente, cética, niilista.

Escuta as juras de amor com ouvidos cansados como se já tivesse vivido uma vida inteira. Conhece todo tipo de homem, quase todas as disputas. Vê claramente as nuances da luta pelo poder, quem dita o ritmo da relação e sabe dizer com precisão o momento que a tocha olímpica vai de uma mão para a outra em um casal. As artimanhas. Reconhece de longe um olhar mentiroso, arrependido, apaixonado. Sabe exatamente quando a rotina toma conta e algumas dezenas de truques para sair dela. Sabe o que fazer para surpreender, irritar, aprofundar sentimentos ou dissipá-los. Sabe quando mentem para ela. Sabe quando fingem não saber do seu balanço.

Conhece as desculpas, o ápice da paixão, o início do fim. Sabe como fazer gozar 5 ou 15 minutos, a posição universalmente preferida, fingir um orgasmo, como inovar com uma série de roteiros que está cansada de usar, o poder o álcool e de meia dúzia de palavras inteligentes. Sabe como parecer diferente ou igual as outras, sabe parecer profunda sendo rasa. Sabe ser irresistível e insuportável quando necessário. Sabe ouvir as mais diversas asneiras e transparecer interesse.

Ela também sabia que sabia tudo isso para agradar um homem por um tempo determinado. O único poder que tinha era de decidir a duração da cena e de se divertir. As poucas decepções que teve após compreender seu papel foi quando alguns raros sortudos decidiram o tempo antes dela e fecharam as cortinas no meio do seu ato. Ferindo mais seu orgulho do que seu coração.

Ela só não sabia que cansaria de encenar. E que quando tentasse ser genuinamente ela ainda veria nos olhos dos homens a esperança — e exigência — de a ver cumprindo seu papel.

Danielle Corrêa

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Jovem de 25 anos que busca sabedoria e equilíbrio para não se perder nos caminhos tortuosos da vida.