Dois cajueiros

Uma rede armada entre os troncos de dois cajueiros. Quando criança, lembrava de correr ao redor da casa da fazenda de sua avó. O chão era vermelho, uma pedra polida de nome para ele desconhecido, mas que à época parecia preciosa. Perseguiu galinhas até ficar velho demais para perseguir galinhas. Mesmo depois disso, os dias no campo continuaram agradáveis.

Eram as noites que lhe consumiam. Apetites particulares que exigiam saciedade. Deitava se com qualquer um. Dizia que estava em busca de reboco para um buraco na parede. Que parede? “Uma parede dentro de mim”, suspirava. Sentia-se como uma casa inacabada, arruinada antes mesmo do dia da inauguração.

Às vezes escondia os tijolos desvelados com um lençol e enchia a casa de gente. Dias de festa alegravam sua decadência. Uma taça de vinho para ignorar as telhas quebradas, duas para esquecer a falta de encanamento no banheiro, três para se sentir em casa. Sentir-se em casa dentro de si mesmo: um dos benefícios do álcool.

O dia seguinte amanhecia chuvoso e ele deixava de ser um lar. Um raio impeidoso derrubava parte do teto e a ventania quebrava a janela da sala. Com o passar dos anos, não tinha mais uma pedra para delimitar seu terreno. Só restavam os dois cajueiros que ele havia plantado na companhia de quem já partira. Agora ele também estava prestes a partir e com ele partiriam seus cajueiros.