E no meio, a ponte

Toda vez que a ponte balança, eu fico com medo e rastejo de volta para o início. Lá tem um garoto que é como uma memória vívida, ele sofre de ansiedade e inúmeros vícios. Ele é viciado em comer, em matar tempo, em ignorar. Acima de tudo, ele é viciado em si mesmo. Sua ponta do penhasco é um lugar incômodo e confortável, é como estar anestesiado depois de uma cirurgia. Você não sente nada, mas sabe que tudo está meio fora do lugar.

O garoto é especialista em desconsiderar tudo que está errado ao seu redor, se recusaria a tirar uma espada da própria alma se fazê-lo fosse lhe causar muito desconforto. Autoindulgência é o combustível que mantém vivo e pode até parecer que ele se ama muito, mas é exatamente o contrário.

Quando eu tomo coragem, tento alcançar o outro lado da ponte. Avanço o máximo que me permito e então a ponte volta a balançar. O medo de cair é muito grande. Eu posso errar, mas não quero. Prefiro retroceder a continuar cambaleante. “Da próxima vez vai dar mais certo”, minto. “Eu vou começar do zero e as coisas vão ser perfeitas”. Mas o zero é literalmente inalcançável e eu já estou no vinte e um.

Do outro lado do penhasco reside um homem que eu não consigo compreender. Ele é como um objeto impossível, que muda completamente de acordo com a perspectiva. Olhando de um lado, ele parece comigo; de outro, parece com o garoto; de um terceiro, lembra meu pai. Eu não sei como ele é, não sei como ele vai ser e, honestamente, só espero que ele seja melhor que todos nós.

Estou entre o desinteresse e a dor do apego, entre a falsa sensação de independência e o reconhecimento de que sempre vou precisar de ajuda, entre o aconchego da omissão e a ardência constante da verdade. E quer saber? Não sei qual é o pior. Eu só espero aceitar que, agora que comecei a andar, preciso chegar a algum lugar.