Ontem faltavam 8 dias

O sexo da noite passada era sua vagina, seus pulmões respiravam mentiras, seu fígado era um bichinho mirrado, moribundo, pedindo ajuda, envolvido e sufocado por um intestino orgulhoso e, no fundo, preguiçoso, que digeria, mas nunca alimentava, só produzia merda.

Marta acorda, pega o celular. São 15h e faltam 7 dias. Num escritório pequeno na comercial da 303 norte, o diploma de psicologia de sua mãe ainda está pendurado da parede, é a única coisa que se destaca na tinta branco-ovo. Marta não tem diploma e não se atreveu a pendurar nada lá. Todos os seus pertences, ou o que sobrou deles, estão espalhados pelo chão. É uma zona de guerra, seus travesseiros são as trincheiras, seu colchenete o QG aliado. O mundo lá fora está tentando lhe derrotar e, como uma boa insurgente, ela ainda insiste em lutar.

Faz xixi, bota o maiô, se veste para sair. Transforma sua mochila num kit de sobrevivência, tranca a porta da única casa que lhe resta. No térreo, o porteiro nojento a lembra que sua mãe só pagou aquele mês de aluguel, pergunta se ela quer renovar, tá vencendo. Marta responde que conversa com ele quando chegar. Ele desconfia que ela não vai conversar, ela já está puta porque sabe que ele vai ficar encarando sua bunda enquanto ela se afastar.

Desce para o Minas, entristecida com a quentura do dia. Pensa que naquele minuto sua vida seria muito melhor se ao menos lhe restasse algo no crédito para pegar uma bike do Itaú. Mas esse cartão ela já estourou e o próximo tá perto de pipocar. Fudeu.

Entrou no clube, pulou na piscina, recuperou a esperança diária. Ela tinha que aproveitar, não lhe restavam tantas. A moça do balcão perguntou se ela queria renovar. “Poxa, moça, hoje não vai dar. Vou falar com minha mãe e depois te dou uma resposta!”. Ela não ia dar.

Encontrou Lúcia mais acima, no amarelinho dos pavilhões. Se perguntou há quanto tempo não ia numa aula. Quem liga, né? Pra quê se preocupar quando seu mundo tá tão perto de acabar. Comeram um salgado, mas dessa vez Lúcia pagou. “Desculpa, miga, esqueci meu cartão”. “Relaxa, Mar! Ainda bem que a festa é de graça, né?”.

É, foram se arrumar e acabaram sendo as primeiras do grupo a chegar. Quando entraram, não demorou pra Marta se engraçar. Outra moça, o nome ela achava que sabia, mas não lembrava. Trocaram uns olhares, se encontraram na metade do caminho. A outra menina fumava. Marta também, mas não tinha mais dinheiro pra sustentar o vício. O gosto lhe atiçou os sentidos. “Quer ir pra minha casa?”. “Vamo, ué, você já tá até com a mão dentro da minha calcinha”. E eu também preciso te dizer que não tenho mais onde morar.

Ela vim, ela vi, ela gozou. E depois dormiu. E fingiu novamente que não estava numa guerra contra o mundo. Uma que o mundo está vencendo. Quando acordou, olhou para a moça ao seu lado e concluiu que o senso de humor dela era sua melhor qualidade. Já Marta, era sua tendência ao escapismo seu pior defeito. Ah, mas como ela gostava de escapar. Inclusive escapou, depois de roubar um banho e uma banana da menina-que-conhecia-mas-não-lembrava-o-nome.

Que engraçado caminhar de volta pra casa depois de uma transa. É como se sua pele fosse transparente e as pessoas pudessem ver todos seus segredos como órgãos vitais. O sexo da noite passada era sua vagina, seus pulmões respiravam mentiras, seu fígado era um bichinho mirrado, moribundo, pedindo ajuda, envolvido e sufocado por um intestino orgulhoso e, no fundo, preguiçoso, que digeria, mas nunca alimentava, só produzia merda. No coração de Marta jaziam dois túmulos, o dela estava sem nome porque ela ainda não tinha morrido.

Voltou para casa, olhou de soslaio para o porteiro ao entrar, fingiu que ele não estava ali, mandou se fuder com o poder da mente e vomitou no banheiro do consultório de sua finada mãe. Fechou as cortinas, pegou o celular e contou o tempo passar. São 11h e faltam seis dias.