Revólver

Precisa de um revólver? Ofereceu a arma, segurando-a com o dedo indicador enfiado na argola do gatilho. Balançava pra lá e pra cá tal qual a chave de uma cripta. O movimento harmonizava com seus olhos desdenhosos de uma forma hipnotizadora.

Por que tá me oferecendo isso? Não bastava a lágrima que caia do olho, ainda precisava escutar disatino. É isso, tu quer que eu me mate?

Tô apenas dizendo, talvez seja mais fácil. Não aguento mais te ver choramingando nesse sofá, vira gente, acaba logo o serviço.

Que maldade! Por que tu é tão mal com minha tristeza? Fechei os olhos, fingi que era cego. Não aguentava mais aquela cara de juiz, de júri e de executor. Tu não entende nada, nem quer entender.

Maldade? Maldade é ter que rastejar que nem eu rastejo pra fazer parte do teu teatro. Chora por outro homem, finge que o mundo vai acabar. Me faz de vilão ou, pior, de figurante! Acaba logo com esse drama! Agora é Romeu e Julieta… só que ao contrário. Ou tu te mata, ou morro-me eu.