Bom, essa mística de que o budismo prega o desapego para com o mundo e as pessoas, o niilismo de que nada existe então tudo é vazio e todo problema é sonho ilusório, ou qualquer outra estória furada que envolva abandonar as coisas, tratar os outros como ignorantes e retirar-se para sempre na própria solidão, não passa de mais uma distorção brutal da mente, assim como fizeram com cristo e tudo mais.

Desaparecer em solidão na verdade é o que faz isto a que chamam de ego — que nada mais é que o interesse inconscientemente poderoso com os próprios pensamentos, comparações, memórias, avaliações, conceitos, projeções, essa tagarelice interna que parece, ao invés do silêncio, nossa voz mais profunda — e falo aqui da minha experiência direta e cotidiana com esse inferno, ñ to xingando ninguém.

Desapegar-se do mundo, dos outros, é o que acontece conforme a atenção que somos se fecha mais e mais e mais nesse interesse sutilmente grudento e poderoso à realidade dos pensamentos que aparecem e se dissolvem no espaço que somos. O desapego aí diz respeito a ver diretamente a natureza dos pensamentos, para assim desinteressar-se deles, aos poucos, e familiarizar a atenção para dentro dela mesma, que é puro silêncio luminoso.

O retiro aqui diz respeito a isto, retirar a atenção que somos do domínio total às exigências e opiniões do pensamento, familiarizar-se com esta retirada, enfraquecendo o vício de alimentar essa conversação interna, sem reprimi-la ou estimulá-la, apenas observando como é.

Acaba sendo algo muito científico, de verdade. Não tem nada de místico, ou de ser calmo, desapegado e desinteressado pelos outros — porque na verdade, o interesse extremo com os pensamentos é que deixa a gente desatencioso para com os outros, pq claro, estando nossa presença totalmente imersa na identificação com os pensamentos, como ela pode voltar-se para outra coisa? para uma outra pessoa? é algo bem intuitivo e extremamente necessário para esta loucura competitiva em que a gente está inserido.

O retiro aqui diz respeito à abrir-se para dentro do presente da vida e não se fechar obcecado nas comparações mentais de passado e de futuro. Veja que toda distorção que o ego faz, espelha ele mesmo. Observe. Não é nada difícil de sacar. Já que tem espelho para todo lado. Por ex, o ego diz que ignorância é burrice, que os outros são ignorantes e ele não, mas no contexto do buda, ignorância é o próprio ofício do ego, o vício de ignorar (de não ver) isto para quem os pensamentos aparecem, o hábito de desviar a nossa atenção da natureza descondicionada e silenciosa da mente que somos. O ego é esta névoa que obscurece a luz dos nossos olhos.

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