O dia em que passei a ver melhor

Fazia anos no dia seguinte. 29. E percebi que já não via como tinha visto a vida toda. As letras lá ao fundo encavalitavam-se e eu a semicerrar os olhos e a franzir a testa e... nada. Uma sopa de letras que não formavam nenhuma palavra que eu conhecesse.

Pela primeira vez, senti a falência do meu corpo.

Fazia anos no dia seguinte. 29. E soube ali que a vida ia acabar um dia. E que até lá a vida, cada dia que passasse, ia acabar um bocadinho comigo. Quando eu me distraísse da finitude, ela lá estaria para me recordar que não sou eterna. Acabaria com um bocadinho de mim, para me lembrar de ir viver tudo enquanto um hoje se seguisse a outro em forma de amanhã.

E no dia seguinte fiz 29 anos. O calendário a declarar que tinha passado mais um ano. E eu feliz com a vida que tinha chegado ali, mas a ver mal. Irreversivelmente a ver mal.

Essa noção de irreversível. De algo que se perde e não há ginásio, nem dieta, nem descanso, nem comprimido que faça recuperar. O ver tudo bem e claro ficou lá atrás. É passado. Memórias. E pergunto-me se soube apreciar o tão bem que eu via durante 28 anos.

Acho que sei a resposta.

Foi assim que fiz 29 anos. A ver mal. Com os olhos.

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