1990 — A Descoberta da América

Dedicado a Rene Decol

226E 83rd street, New York, 6 de novembro de 1990

Em 1990 aconteceu um terremoto na minha vida. Eu morava em São Paulo e passava meu ano indo e vindo todas as semanas do Rio de Janeiro, onde trabalhava para a rede Manchete de televisão. Era o roteirista de dois programas da rede Manchete, o infantil Clube da Criança e o musical Milk Shake, ambos apresentados pela Angélica. Em abril meu pai faleceu. Ele tinha 62 anos. Eu tinha 37, com um filho de 5 anos.

Apesar disso (ou por isso mesmo) decidi que faria minha primeira grande viagem internacional naquele mesmo ano de luto. Conhecia um pouco da América Latina (Argentina, Chile, Paraguai) e várias ilhas do Caribe. Mas desde muito criança queria conhecer os Estados Unidos especialmente por causa de toda a influência da cultura pop na minha cabeça. De tanto ver filmes e séries americanas eu me sentia como se já conhecesse o país. Especialmente New York.

Peguei o dinheiro que pude e planejei uma viagem low budget. Viajar direto para a Big Apple estava fora do meu alcance. Para o meu bolso, a opção foi viajar pela extinta Lineas Aereas Paraguayas. E com escala em Asunción!

No dia 16 de outubro de 1990, com o coração aos pulos, embarquei num já veterano Boeing-707 (prefixo ZC-CCG) como este:

Para um fanático por aviação, foi uma emoção à parte entrar no pioneiro 707, um museu em operação, o primeiro jato comercial de sucesso. Fizemos uma longa escala no aeroporto de Asuncion, onde não havia absolutamente nada a ser feito a não ser esperar o próximo vôo e ser assediado por vendedores ambulantes. Embarquei em outra relíquia da aviação (e não estou reclamando por isso!), um Douglas DC-8 da LAP prefixo ZC-CCH onde dormir era impraticável (por causa do balanço e do barulho) e o jantar era uma tragédia. Mas foi a minha última chance de conhecer um DC-8 por dentro.

No meio da madrugada o lendário jato pousou na pista do aeroporto internacional de Miami. Meu sonho americano começava a se realizar ali mesmo, antes do sol nascer.


17 outubro 1990

Pousei no aeroporto de Miami exatamente às 2:28. Aquela escala foi o primeiro contato que eu tive com uma sociedade afluente e organizada. E o primeiro pouso no “primeiro mundo” ninguém esquece. Ou não deveria esquecer. Passei o resto da madrugada vasculhando lojas de revistas e vitrines de lojas ainda fechadas.

O dia raiou no aeroporto. Comprei uma passagem no balcão e logo estava a bordo do Airbus 330 da American Airlines (prefixo NO68AA), que decolou exatamente às 08:09. Os atendentes de bordo surgiram com aventais negros e serviram com uma qualidade e uma generosidade que desde então sumiram da classe econômica de qualquer companhia aérea.

Às 10:35 do dia 17 de outubro pousei no aeroporto JFK. Não havia serviço de ônibus e a única opção era um táxi. Mesmo tendo ouvido muitos conselhos sobre a necessidade de absoluta segurança na chegada, fiz o que não devia. Um rapaz barbudo se aproximou e ofereceu um serviço alternativo de transporte mais barato que o táxi. Foi um precursor clandestino do Uber. O nome dele era Joni Russo, apenas um engenheiro de som querendo fazer um dinheiro extra. Sua atividade era fora da lei, mas o papo foi ótimo e ele me deu bons conselhos sobre a cidade que iria visitar. Foi Russo quem me levou pelas freeways que levavam à terra mística de Manhattan. O skyline se revelou aos poucos aos meus olhos cheios de ansiedade.


Rene Decol

Minha viagem de baixíssimo orçamento não teria acontecido sem uma ajuda fundamental. Conheci o Rene Decol durante minha passagem pela redação do jornal O Estado de São Paulo, onde ajudamos a fundar o Caderno 2. Era um cara diferente dos outros colegas — culto, não tinha “cara de brasileiro”. Nos tornamos amigos, unidos especialmente pela música. Ele era outro fanático pelo Frank Zappa e um cara com quem eu podia conversar longamente sobre jazz e música clássica. Fazia o possível para parecer um sujeito cool, blasé, distante e impessoal. Essa capa escondia um sujeito generoso, que acompanhou de perto a criação do meu filho, Icaro.

Em 1990 o Rene fazia um curso de pós-graduação sobre Demografia na Fordham University, no bairro do Bronx, ao norte de Manhattan. Dividiu um apartamento com uma amiga chamada Patricia e me convidou a passar o tempo que quisesse com eles. Não me cobraram absolutamente nada. Dormi durante quase vinte dias muito bem instalado na sala sem qualquer queixa ou atrito.

O apartamento de Rene e Patrícia ficava na borda de uma das regiões mais caras do planeta: o Upper East Side. A rua 83 já pertencia a uma região que começava a se degradar. Mas a gente estava a 5 quadras do Metropolitan Museum e do Central Park. Sem a oferta do Rene eu não teria condições de fazer essa viagem como fiz.

Assim que o motorista improvisado Joni Russo me deixou nessa calçada, passei no Waterworks Laudromat para pegar a chave. Subi os três andares e desabei num cochilo no sofá. Fui acordado com a chegada do Rene e da Patricia, que me receberam com festa, como se eu fosse um parente próximo.

Às 18 horas os dois me levaram para um primeiro passeio de boas vindas pelas redondezas. A Patricia me aceitou imediatamente e ficamos muito amigos pelo tempo que me hospedei naquele apartamento. Em comemoração à minha chegada, jantamos os três um suchi num restaurante próximo. Às 23 horas eu roncava feliz no sofá da sala.

O Rene tirou a manhã seguinte para me levar para uma primeira excursão pela ilha de Manhattan. New York era a partir daquela quinta feira a minha cidade. E eu seria seu cidadão afetivo para sempre.

Com a internet ainda inexistente, um computador não era nada sem os softwares vendidos em grandes lojas e supermercados. Fui direto para meu objeto de cobiça: uma das primeiras edições do Flight Simulator, da Microsoft. E o Rene comprou um programa clássico de qualquer computador naquela época: um jogo de xadrez Chessmaster. Os programas eram vendidos em disquetões de 5 1/4 polegadas com capacidade para 720 kB de memória.


The Boy From UNCLE

Na hora do almoço daquele 18 de outubro o Rene saiu para alguns compromissos. E eu fui cumprir uma missão.

Em 1964 eu tinha 11 anos de idade e devorava o que aparecia na TV: novelas, humorísticos, desenhos animados, musicais… Minha série favorita era O (“The Man From UNCLE”), um dos muitos produtos que vieram na onda James Bond.

A série mostrava dois agentes que trabalhavam para uma agencia (a UNCLE), que seria um braço secreto da ONU. Isso nunca foi confirmado nas quatro temporadas, mas cada início de episódio continha a mesma cena que levava um garoto impressionável como eu a acreditar que o boato era verdadeiro. A câmera mostrava primeiro a sede das Nações Unidas…

… e em seguida se movia para a direita, focando em um trecho difuso de ruas do East Side próximas ao edifício da ONU — as ruas paralelas que vão da 40 East até a 49. A cena então mostrava numa dessas ruas uma alfaiataria chamada Del Floria’s. Dois homens entravam por essa alfaiataria, como clientes comuns.

Na verdade, o moreno era o americano Napoleon Solo e o louro, Illya Kuryakin. Os agentes da UNCLE. E o Del Floria’s era a entrada secreta para a sede da organização. Aquela entrada do Del Floria’s foi durante minha adolescência a lâmpada de Aladim, a passagem para um mundo paralelo de fantasia. A série mais tarde determinou algumas mudanças na minha vida profissional.

Assim, logo no meu primeiro dia de New York minha missão foi refazer os passos imaginários de Solo e Kuryakin. Caminhei pela First Avenue observando as margens do East River até chegar ao edifício da ONU.

Em seguida atravessei a 1st e me entreguei a um passeio pelas minhas lembranças nas “ruas 40”, esperando encontrar a qualquer momento o Del Floria’s. Me perdi num passado onde a realidade se confundia com a ficção.

Cansado de andar compulsivamente por quarteirões e mais quarteirões, decidi dar um descanso. Entrei numa das imensas mega livrarias Barnes and Noble, pedi um café espresso. E encontrei o que não procurava: um dos últimos exemplares do único livro escrito sobre minha série favorita: The Man From UNCLE Book, escrito por Jon Heitland, que comecei a ler ali mesmo, num sofá da B&N. Um quarto de século depois, eu escreveria meu próprio livro a respeito.


O dia de virar digital

Sexta feira, 19 de outubro de 1990. Acordo às 10:30 e de novo conto com a valiosa companhia do Rene Decol para um dia de compras. Passei reto por lojas de roupas. (Eu me vestia terrivelmente mal na época). Minha cabeça estava numa grande revolução, que apenas começava: a era digital. O Rene me levou para o grande templo dessa nova era: a Tower Records.

Em 1990 todo mundo ainda comprava disco de vinil. Eu já tinha visto alguns CDs vendidos a preços absurdos em lojas de São Paulo, mas não me atrevi nem a chegar perto. Aquele disquinho prateado que prometia um “som puro” me parecia o caminho para a perdição financeira. Aquilo era tentador demais para um dependente por música como eu. Já tinha gasto dinheiro demais com minha coleção de vinil.

Naquela sexta feira entrei na Tower Records com uma dúvida séria na cabeça. Aquela história de CD ia dar certo? Ou seria apenas uma onda passageira, um fracasso de mercado como o sistema Betamax de vídeo?

Dezenas, centenas de clientes subiam e desciam por escadas rolantes, olhando as vastas estantes com milhares de CDs. Primeiro andar, rock e música pop. Segundo andar, soul, R&B, funk. Terceiro andar, jazz e blues. Quarto andar, clássicos. Minha vontade era levar todos os discos de todos os andares. (O que seria possível no milênio seguinte com os serviços de streming).

Aquele era, enfim, o momento de me transformar em digital. Pensei no meu pai, que me ensinou a amar música ouvindo discos de 78 rotações, e depois passou para o vinil. Ele adoraria aqueles disquinhos, tenho certeza disso. Mas não chegou a conhecer a grande transformação.

Meu primeiro CD foi Banned in the USA, um disco de rap altamente pornográfico ( e criativo) com o grupo de Miami 2 Live Crew. Por que esse disco? Pouco antes de viajar eu tinha feito um trabalho na rede Manchete de televisão, a adaptação para minissérie de O Diário de um Mago, o romance de Paulo Coelho. Como inspiração, meu parceiro Ricardo Soares trouxe uma gravação em fita cassete de Banned in the USA, que a gente ouvia sem parar no nosso escritório improvisado no Hotel Novo Mundo, Rio de Janeiro. Não era exatamente o disco apropriado para inspirar um roteiro de temática religiosa but what the fuck?

Levei também o Undead (do Ten Years After) e, se não me engano, o Led Zeppelin II. Ah, comprei também a trilha sonora de The Man From UNCLE, claro. Saí da Tower com meu primeiro pacote de CDs. Eles vinham na época embalados em grandes cartões de cartolina, para que ficassem mais difíceis de serem roubados. Agora eu precisava de algum lugar onde pudesse tocar os disquinhos.

Edgard Varèse

Almoçamos num restaurante macrobiótico e no início da tarde o Rene me levou até um edifício duplamente histórico — pelo menos para nós dois e mais um punhado de fanáticos. O prédio ficava no número 180 da Thompson Street. Ali tinha morado o compositor de vanguarda francês Edgar Varèse (1883–1965). Frank Zappa era fanático por Varese, e durante uma longa e tumultuada temporada em New York se hospedou naquele mesmo apartamento onde havia morado seu ídolo. Ficamos ali do lado de fora do número 180 querendo entrar. Aí o Rene decidiu tocar a campainha do apartamento para provar o velho ditado de quem não arrisca, não petisca. A pessoa que morava lá dentro atendeu. Eu olhei para o Rene, ele olhou para mim. O que dizer agora? “Somos dois brasileiros que você não conhece e queremos conhecer seu apartamento por causa de Varese e Zappa”? Saímos de fininho.

Em seguida, com o coração aos saltos entrei numa loja e comprei meu companheiro musical dos próximos anos: um Discman D-11 da Sony . É difícil para as novas gerações imaginar o impacto causado por um CD player portátil. Até ele, nossa opção para música portátil era andar com um walkman de fita cassete, com seu péssimo som e conhecidas dificuldades de operação. O Discman permitia levar discos inteiros com a gente e oferecia uma qualidade de som inédita. Ter esse objeto preto na mochila era um privilégio inédito. Em compensação…

O D-11 tinha o peso que aparenta ter. Era um tijolo. A gente ouvia uns 5 CDs e tinha que trocar as 4 pilhas alcalinas AA. E esses primeiros modelos de CD player ainda não tinham o conceito de buffer. Se a gente tivesse qualquer tipo de tranco (um buraco na rua, um choque de ombros na calçada), o laser desfocava do disco e a música era interrompida por intermináveis segundos. (Isso foi corrigido anos depois com o conceito de buffer). Mesmo assim, aquele D-11 foi um marco tecnológico que só seria substituído com o advento dos MP-3 players.

Naquela mesma loja comprei outro objeto de desejo. Graças (também) ao meu pai eu era um cultuador de rádio, e especialmente de receptores de ondas curtas. Sempre fiquei hipnotizado pela possibilidade de ouvir uma estação transmitindo de algum lugar do mundo. (O que se tornaria a suprema moleza na era da internet). Este Sony ICF-SW1 abandonava os velhos conceitos de rádio analógico para se transformar num mini computador, todo digitalizado com uma grande quantidade de controles e opções. E era pequeno mesmo — mais ou menos do tamanho de um maço de cigarros.

Vinha dentro de uma malinha que incluia carregador, fones, antena externa e manual de operações. Cada vez que eu chegava num hotel, abria a malinha e instalava todo esse equipamento, me sentia como… bem, me sentia como um agente da UNCLE.


Do alto das torres

Fotos: Dagomir Marquezi

Na segunda feira, 23 de outubro de 1990, peguei o metrô para o sul e conheci o paraíso novaiorquino da tecnologia, a mega super giga store J&R. Dois casarões de três andares cada, repletos de equipamento de som, imagem e computação. Não me lembro de ter comprado nada esse dia. Mas me lembro de sair à porta da J&R e ter uma vertigem.

Lá estavam, para além da Washington Square, as torres gêmeas do World Trade Center. Eu sinto tontura quando vejo uma construção dessas de baixo. (De cima também sinto vertigem, mas de baixo é ainda pior). Elas represetnavam o segundo edifício mais alto do mundo, na época. E já de longe pude constatar o que já tinha intuído de ver fotos: o World Trade Center era um conjunto arquitetônico sem graça, funcional demais, sem personalidade, sem uma marca própria a não ser a própria grandeza.

Caminhei até lá. Comprei o bilhete para a visita ao teto. Em nenhum momento foi uma visita relaxada. Um edifício daqueles (no caso, o bloco A) inspira temor e tensão. Naquela tarde de segunda feira tudo corria muito bem, as pessoas entravam e saíam do trabalho, os japoneses preparavam suas câmeras na longa fila. Mas e se acontecesse alguma coisa? Um incêndio, por exemplo? Acima de nós haviam milhares de pessoas. Como seria ouvir um alarme lá enquanto você trabalha, digamos. no 86o andar?

O elevador funcionava em duas etapas. Lá pelo andar 50, a gente era convidado a sair e fazer uma “baldeação”. E enfim a gente chegava no terraço, o topo, o teto da cidade mais importante do mundo. Eu me lembro especialmente de olhar para baixo e observar helicópteros e aviões menores voando lá em baixo, distantes, como se eu estivesse no alto do Olimpo de olho em meros mortais.

E o pensamento que eu não ousava mentalizar era: “Isso não vai dar certo”. Eu estava no 110o andar, a quatrocentos metros de altura. O lugar era aberto, e se tornou um ponto de atração para suicidas. Aquele monumento à funcionalidade era um alvo óbvio para qualquer terrorista com mania de grandeza. Três anos depois da minha visita, um psicopata a serviço do extremismo muçulmano tentou explodir a garagem de uma das torres de forma a que ela, como dominós, derrubasse a outra. Ele conseguiu provocar um estrago, mas a explosão não foi tão apocalíptica quanto ele desejava que fosse. Pouco menos de 11 anos depois, sádicos com a mesma causa completaram o serviço e alimentaram o pesadelo que minha mente havia esboçado em 1990.

Fotos: Dagomir Marquezi

All aboard the Yankee Clipper

Terça feira, 23 de outubro, senti que minha viagem estava patinando em New York. Eu precisava dar uma sacudida nos meus planos. Recheei uma mochila, me despedi do Rene e da Patricia e fui até a Penn Station.

Embarquei no Yankee Clipper da Amtrak, no corredor mais usado por passageiros de trem nos Estados Unidos (ligando Boston a Washington. Em 1990 só havia essa opção low-tech. Em 2000 entraria em operação nesse corredor o primeiro (e até agora único) trem de alta velocidade dos EUA, o Acela.

Às 15:20 o trem partiu rumo sudoeste. Ao sair da ilha de Manhattan, logo passavam pelas janelas do Clipper as imagens que comprovam que qualquer subúrbio industrial é irremediavelmente feio. A primeira parada foi em Philadelphia. Tivemos ainda uma rápida parada em Wilmington. Quando chegamos na estação de Baltimore, fomos avisados que o trem estava com um pequeno problema técnico e ia atrasar um pouco sua partida. Aproveitei a chance, saí até a plataforma, fingi que estava amarrando o tênis. E discretamente me ajoelhei no cimento. Eu estava na cidade onde havia nascido Frank Zappa. Prometi que voltaria lá.

Frank Zappa

Quando voltei à minha poltrona e o trem partiu, anotei no meu caderninho cerebral um plano para uma próxima viagem: circular pela California em uma peregrinação em homenagem a este grande gênio que me foi apresentado pelo amigo Roberto Navarro. Com Zappa eu repensei minha vida como criador e me inspirei para novos rumos do meu pensamento. Pois, como ele mesmo disse, “a mente é como um paraquedas: só funciona se estiver aberta”.

No começo da noite o Yankee Clipper chegou à suntuosa Union Station. Eu estava em Washington DC, a capital do país, o centro nervoso da política global. Meu orçamento me levou a um motel Econolodge nos subúrbios da cidade, a 45 dólares a diária.

No check in comprei meu ticket para um ônibus City Sighting na manhã seguinte. Não foi uma noite fácil. O motel era dividido em soturnos quartos estreitos, mas muito compridos. As paredes pareciam de papelão. No apartamento ao lado, um casal aparentemente bêbado brigava aos berros e quebrava coisas de vez em quando.

O corredor da civilização

No dia seguinte eu estava de pé antes das 7. O sol de Washington já estava de rachar. Vesti minha camiseta com a cara do Patolino e desci para uma lanchonete do outro lado da rua onde o motel servia seu breakfast.

Washington é uma das cidades onde existem uma das maiores populações negras dos Estados Unidos. E nos subúrbios essa porcentagem se aproxima dos 100 por cento. E lá estava eu, um branquelo porcelana circulando entre eles como um marciano. Pensei: e se tivesse um show do Troublefunk? O Troublefunk, uma das mais poderosas bandas de funk a go-go de todos os tempos é de Washington. E se tivesse show naquela noite? Teria coragem de penetrar num território all-black? Como em todos os lugares, provavelmente a maioria deles nem ligaria para o branquelo from Brazil. Mas sempre existe uma minoria de idiotas… De qualquer jeito, não havia show do Troublefunk.

Tomei meu breakfast lendo algumas revistas. Numa mesa próxima, sentaram-se dois casais de jovens negros. Os caras começaram a olhar para mim. Olhavam, apontavam, falavam entre eles. Acabado meu café, eu me dirigi para a porta da lanchonete passando pela mesa dos dois casais. Um dos rapazes me olhou com cara feia e apontou para mim. Preparei-me para um ato de hostilidade racial. Ele abriu um sorrisão branco e disse: “Nice shirt!” E foi com um sorriso e um “thanks” que eu saí lá junto com meu Daffy Duck.

Às oito chegou ônibus de excursão da Blue Line. Recebi meu folheto com a ampla programação, que passaria por todos os pontos principais da cidade. A primeira parada foi o Capitólio. A gente teria uns trinta minutos para uma rápida olhada antes que o ônibus partisse de novo.

Entrei no Capitólio, a sede do Congresso dos EUA. Depois de uma rápida revista na entrada, pude circular livremente. Caminhando pelo chão de mármore, cheguei a uma escada. Ela me deu acesso a uma espécie de balcão de onde era possível observar o orador ao microfone. Uns trinta metro abaixo de mim, falando ao microfone da tribuna, estava o senador Edward Kennedy.

Esqueci o ônibus da Blue Line. Preferi caminhar à vontade e gastar o tempo do meu jeito. Saí caminhando e dei de cara com um fotógrafo com um totem do então presidente George H Bush (pai do futuro presidente George W Bush). Paguei o cara, ele preparou o disparador da câmara. Aí eu posei ao lado do presidente fake e o fotógrafo ainda correu para colocar sua mão no meu ombro, dando mais realismo à cena. Ele me entregou a foto polaroid, agradeci e segui rumo à icônica perspectiva National Mall, onde um resumo da civilização terrestre está representada nos incríveis museus Smithsonian.


O museu das asas

Fotos: Dagomir Marquezi

O Smithsonian National Air and Space Museum de Washington é um sonho para qualquer fanático por aviação. E eu pensei seriamente em ser engenheiro aeronáutico antes de virar jornalista. Não me impressiono com carros, por mais caros e velozes que sejam. Mas um DC-3 como esse aí em cima me faz parar para um momento de admiração pela engenhosidade humana. Especialmente porque nunca tive a chance de viajar num deles.

O que encontramos no SNASM é tudo o que um fanático quer. Lá está o U2, o avião de espionagem que caiu na União Soviética no fim dos anos 1950 (e inspirou o filme Ponte de Espiões, dirigido por Steven Spielberg). Lá está o Messerschmidt ME-262, o primeiro avião a jato do mundo, a última esperança de Adolf Hitler para vencer a Segunda Guerra. O Lockheed F-104, um caça tão avançado para sua época que ficava fora do controle dos pilotos. E relíquias da Primeira Guerra Mundial como o Spad XVI, cuidadosamente preservados.

As imagens do Museu parecem um sonho para quem colecionava aeromodelos da Revell como eu. Somente lá podemos colocar no mesmo campo de visão pioneiros como o Spirit of St Louis (que fez a primeira travessia aérea do Atlântico em 1927) e o Bell X-1, o primeiro avião a quebrar a velocidade do som, vinte anos depois. Apenas duas décadas separam esses dois marcos que parecem separados por um século.

O Museu, como o próprio nome diz, também reúne relíquias da conquista do espaço. E expõe objetos de terror coletivo, como esses mísseis usados para transportar bombas nucleares. Não sei como eles conseguiram a peça soviética à esquerda. Esses totens da morte mantém o mundo à beira da destruição total há décadas. Por outro lado, garantiram que guerras fossem evitadas pela lógica da destruição mútua. De qualquer jeito, são objetos de pesadelos.

O Air and Space é apenas um dos muitos museus que se estendem pelo National Mall, onde está o famoso obelisco de Washington. Meu plano era ficar um tempo nesse museu e seguir para outros na avenida. Foi impossível. Fiquei lá circulando entre os aviões e foguetes quase até o sol se por. Ainda consegui dar um pulo no Smithsonian National Museum of Natural History. Mas ele já estava quase fechando.

Peguei um táxi e voltei para o Econolodge das paredes finas. Na manhã seguinte (quinta, 25 de outubro de 1990) eu voltei à Union Station e embarquei no trem Clipper, da Amtrak. Desembarquei em Baltimore, para conhecer a cidade natal de Frank Zappa. Mas a caminhada foi um fracasso. A estação ficava no centro business da cidade, e tudo o que eu consegui observar foi uma tediosa sucessão de edifícios comerciais. O próprio Zappa já tinha composto uma irônica (e bela) peça chamada “What’s New in Baltimore?”, inspirado pelo tédio provocado pela cidade.

Bateu uma fome e naquele tempo eu ainda comia peixe. Fui até o Inner Harbour, que havia sido uma região degradada, como tantas outras zonas portuárias pelo mundo (como Santos e o Rio de Janeiro). Ele então transformaram o Harbour numa região de grandes atrações turísticas e restaurantes de peixes e frutos do mar.

Depois do farto almoço retornei à estação de trem e segui o por do sol em direção a New York. Eu achei que tivesse tido um banquete de aviões na capital do país. Mas o melhor estava por vir — na própria ilha de Manhattan.


Southampton

Sexta feira, 26 de outubro, foi um dia para relaxar em New York sem fazer nenhum grande programa. À noite eu teria uma possibilidade: o grande escritor Stephen King ia participar de uma noite de autógrafos em uma das megastores da cidade. Era minha chance de, talvez, quem sabe, entrar numa longa fila, tentar pegar um autógrafo e, glória máxima, tirar uma foto com o mestre. Desisti do programa quando o Rene Decol chegou com tickets do Beacon Theater para mim e para a Patricia. Fomos assistir um show do blues man pop Robert Cray. Foi fraco. O cara não é nenhum gigante do blues. Mas eu não podia negar uma gentileza dessas do Rene. Se não tivesse ido ao Beacon conseguiria a foto e o autógrafo do Stephen King? Jamais saberei.

Sábado, 27, amanheceu outro ensolarado dia de outono em New York. O Rene estava inspirado para programas a três. Fomos até a esquina e alugamos um carro branco. Seguimos, o Rene a Patricia e eu sem muito destino. Com o Rene na direção, saímos de Manhattan pela Brooklyn Bridge, atravessamos o bairro do Brooklyn, passamos perto do aeroporto JFK e cruzamos Hempstead.

Seguimos rumo nordeste pela Long Island. Até um certo ponto é uma praia de subúrbio, cafona e maltratada. Mas chega um momento em que se torna o reino dos aristocratas de Manhattan, dos ricos de sangue azul, lugares onde se cruzava Norah Ephron, Carly Simon e os Kennedy. É o reino dos Hampton, vilas simples de alta renda com os nomes de Southampton, East Hapton, West Hampton e Northampton.

Já conhecia essa região por muito filmes. Especialmente comédias românticas. É uma território do “velho” dinheiro, fortunas feitas a partir do século 19 com a aristocracia financeira da cidade. Não é um lugar para “dinheiro novo” — grosseiros bilionários russos, nerds vendedores de start ups ou mega traficantes de drogas. Chegamos a Southampton, que me surpreendeu pela simplicidade.

A noite se aproximava e a gente tinha que devolver o carro. Foi um momento de unir os três brasileiros num agradecimento silencioso pela chance de estar lá, naquele lugar, naquele perfeito sunset de outono à beira do Agawam Lake.

Na volta, o Rene me passou o carro. Foi minha primeira chance de dirigir um carro automático, fora do Brasil. Não fiz nenhuma loucura, mas me entusiasmei demais. Quando percebitinha um carro da polícia atrás de mim.

Encostei. O guarda me pediu a habilitação. Eu garanti a ele (e era verdade) que não percebi que tinha passado da velocidade permitida e talvez tivesse feito alguma confusão entre quilômetros e milhas no velocímetro. O guarda cortou logo meu papo. “OK, você é um turista, está impressionado pela paisagem. Dessa vez vou deixar passar. Mas que isso não se repita mais”.

O guarda se foi, mas mesmo quando voltei para o Brasil esse patrulheiro continuou a agir no meu subconsciente. “Não repita mais isso”. Eu me tornei um motorista exemplar, extremamente cuidadoso. E tive a consciência da falta que faz no Brasil um guarda de trânsito, que persiga e puna quem comete infrações, como eu cometi em Long Island.

Continuei dirigindo de volta à ponte do Brooklyn, já congestionada. Manhattan estava engarrafada com o movimento do sabadão, mas até o trânsito ali tinha o charme do coração do mundo. Live in New York, it’s Saturday night!


Imagens de um domingo no Central Park

28 de outubro de 1990.


USS Intrepid Halloween

31 de outubro é Halloween. Não me lembro como fui parar no USS Intrepid. Mas aquela tarde conseguiu ser ainda mais excitante que minha visita ao Smithsonian National Air and Space Museum. Poucos turistas brasileiros que vão tantas vezes a New York conhecem o Intrepid. Fica no extremo leste de Manhattan, no bairro de Hell’s Kitchen, celebrizado pela série Demolidor.

O Intrepid Sea, Air & Space Museum foi criado ao redor do USS Intrepid, um porta aviões aposentado. Essa foto por satélite é mais recente mostra coisas que não existiam quando eu fiz minha primeira visita, como o Concorde. Mas eu pude circular à vontade pelo USS Intrepid e pelo super claustrofóbico submarino Growler, onde um manequim vestido de marinheiro permanece com o dedo indicados sobre o botão de disparo dos mísseis equipados com ogivas nucleares. Que já não estão mais lá, claro…

No Museu Aero Espacial de Washington os aviões em geral estão pendurados no teto ou cercados por cordões de isolamento. No Intrepid, é possível chegar muito próximo dos aparelhos, e até “assumir o comando” na cabine de comando do porta aviões:

Fotos: (c) Dagomir Marquezi

The Bronx

Sexta feira, dia 2 de novembro de 1990. O Rene estava de folga, a Patrícia também e fomos os três até a estação de metrô pegar a linha para o Bronx.

Era uma aventura para mim, mas a rotina para o Rene, que estudava no bairro. Desde criança aprendi que “Bronx” e “Harlem” eram territórios proibidos aos brancos. “Não se atreva a aparecer nesses lugares”, me disseram muitas vezes. A impressão era de um velho filme de Tarzan, com “nativos” nos atacando com lanças e nos levando para serem devorados em algum caldeirão sobre uma fogueira.

Foi uma tranquila viagem de metrô por locais cada vez mais pobres de Manhattan. Mas o Bronx em si foi uma surpresa especial. Não esperava um bairro tão arborizado, tão convidativo. Fomos diretos para o Bronx Zoo, um dos mais festejados do mundo, espalhado em um amplo parque conjugado (como em São Paulo) com o Jardim Botânico da cidade. Lá, não sei por que, registramos nossa única foto juntos, os três — Rene, eu e Patricia.

É bom lembrar que em 1990 tirar fotografias era uma atividade paga e cara. A gente comprava filmes, que depois precisavam ser revelados. Então cada foto precisava ser pensada em termos de custo benefício. É uma realidade que as novas gerações nem podem imaginar.

O Zoo do Bronx era realmente especial, com suas amplas áreas verdes, com o grande espaço para os animais, etc. Mas zoo é zoo, um presídio para animais. Fiquei um bom tempo observando o recinto dos gorilas (com sua complexa estrutura familiar disposta num placar). Mas a imagem que mais me marcou foi a de uma pantera negra em estado terminal de stress, explodindo de raiva, ameaçando saltar numa parede de acrílico.

No fim da tarde tivemos outro espetáculo de outono, cercados de verde naquela área de lazer que não possui, claro, uma fração do prestígio e do glamour do Central Park.


Bye bye, NYC…

Fotos: Dagomir Marquezi

O fim de semana seguinte seria bem tranquilo e convencional. Aproveitei para visitar os últimos museus que faltavam — o MOMA e o City Museum. Aproximava-se o momento de partir. Era a chance para as últimas fotos.

Metropolitan Museum

Dia 5 de novembro comprei minha passagem para a segunda etapa da viagem. À noite fomos os três até um restaurante chinês para uma despedida emotiva. O biscoito da sorte da Patrícia trazia uma mensagem mais ou menos assim: “Aproveite bem essa oportunidade de estar entre verdadeiros amigos”.

Terça, 6 de novembro, foi dia de eleição legislativa nos EUA. Fui de ônibus até o aeroporto La Guardia.

Embarquei no Boeing 757 da Eastern, prefixo N503EA. Jurei a mim mesmo que a próxima visita a New York não iria demorar muito. E parti.


Hello Orlando

Eu fui comunista na idade certa: dos 12 aos 26 anos. Entre minhas tarefas pessoais como militante, estava a de “denunciar o imperialismo cultural americano”. Fui leitor do livro Para Leer al Pato Donald, escrito por Ariel Dorfman e Armand Mattelart. Escrevi o roteiro de uma história em quadrinhos de “denúncia” chamada Os Porões de Patrópolis.

Doze anos depois eu estava livre desse presídio ideológico. E fiz questão de passar por Orlando para purgar de vez esse ranço e me divertir muito no processo. Como naturalmente continuava numa viagem low budget, me hospedei num modesto Gateway Inn. Acordava cedo e pegava o ônibus que me levava até os parques. Voltava no início da noite, também de busão.

No dia seguinte não comecei pela Disney, mas pela Universal. Foi o que todo mundo sabe: um passeio por memórias cinematográficas. Tudo muito fake, mas quem se importa?

No dia seguinte, 8 de novembro, estreei na Disney World pelo Epcot Center. Sexta feira, dia 9, fui ao parque Disney/MGM no mesmo estilo do Universal. A grande atração era a reencenação de uma cena de Indiana Jones. No dia 10 não fiz nada. Só descansei assistindo um monte de televisão. Não é preciso lembrar que em 1990 não existia TV por assinatura no Brasil. Então surfar por canais americanos era um programa delicioso para um cérebro faminto de cultura pop como o meu. Assisti um monte de soap operas, trechos de séries, noticiários e especialmente os late night shows. Fiquei completamente viciado no programa de Dave Letterman. Aquilo era um banquete para quem trabalhava em TV como eu.

No domingo, dia 11, fui até o Sea World. Obviamente sem a consciência que tenho hoje sobre o tratamento recebido pelos animais para se tornarem atrações de circo. Vi o show da orca Shamu, alimentei arraias na boca e toquei uns pobres golfinhos acumulados num tanque. Hoje, não faria nada disso.

Segunda e terça, dias 12 e 13 de novembro foram os dias de ir fundo na terra de papai Walt Disney com duas visitas ao coração do complexo, o Magic Kingdom. Experimentei a terrível Space Mountain, uma montanha russa que fica no escuro nas partes mais emocionantes. Corri de kart no Raceway, levei sustos light na Hauted House.

Não tenho vergonha de confessar: aos 37 anos o marmanjão aqui derramou lágrimas ao visitar a casa de Mickey Mouse. Alguns amigos diriam que eu havia sido apanhado na ratoeira do imperialismo ianque. Eu não ligava mais para o que esses amigos diziam. (Para os quais o muro de Berlim continua erguido e forrado de arame farpado). Me lembrei da minha infância, quando o programa Disneyland era a maior atração infantil da TV brasileira, com um padrão de qualidade que deixava qualquer outro programa no chinelo. As lágrimas caíram pelas horas de magia e informação que vivi nessa época de poucos recursos. E por todos os gibis do Pato Donald que já havia lido.

No Magic Kingdom tive — como qualquer cidadão do mundo — minha primeira experiência com um sistema de transporte que se tornaria referência para o futuro: o mono rail que ligava as principais atrações do parque. Só a voz do locutor repetindo frases como “We are now approaching Adventureland” me faziam sorrir de antecipação pela diversão que estava por acontecer.

Fiz tudo que podia ser feito, incluindo o kitch passeio por um rio de feras mecânicas no Jungle Cruise. O fato de estar sozinho só ajudou nesse mergulho nas minhas memórias afetivas. Virei um crianção num parque onde ninguém controlaria meus sentimentos. Foi uma luta difícil, mas eu tinha conquistado o direito a ser livre.

Quarta feira, 14 de novembro, acabou minha primeira viagem aos Estados Unidos. Um aviãozinho SF-340 me levou até Miami onde à noite embarquei no Boeing 707 CZ-CCE da LAP para uma incrivelmente complexa operação de retorno. Primeiro segui até Asuncion, onde um onibus nos levou para passar algumas horas de espera num hotel ocupado basicamente por brasileiros. De lá, peguei outro avião para o Rio para só então chegar a São Paulo e ao reencontro com minha família.

Essa viagem me serviu para reconhecer o óbvio. Desde criança os Estados Unidos foram minha referência cultural. De lá veio a maioria dos filmes que eu assisti, as séries, os desenhos animados, as histórias em quadrinhos. De lá vieram o blues, o jazz, o rock, o funk. Qual o sentido de odiar um país que me deu tanto? E que me recebeu tão bem?

Epílogo

Universal Studios — Orlando

Quando escrevo agora, quase 16 anos se passaram dessa viagem. Logo em 1992 voltei para os EUA e tive uma experiência mais profunda viajando o estado da California de norte a sul num Mustang vermelho. Fiz novas viagens para New York e para a Florida. Conheci New Orleans e o Texas. Visitei Seattle e fiz duas escalas em Chicago. Depois me dediquei melhor a conhecer e explorar a Europa.

Nunca mais vi a Patrícia. O Rene acabou o curso na Fordham, voltou ao Brasil e nossos encontros se tornaram irregulares. Mas jamais deixei de lembrar minha gratidão pela oportunidade que ele me deu em 1990. Conversamos sobre essa viagem em nosso último encontro em setembro de 2015. Almoçamos num restaurante vegetariano do bairro de Pinheiros, em São Paulo. Falamos dos assuntos de sempre: jornalismo, mulheres e muita música. Ele estava dando um curso sobre a história da música clássica e tivemos um excelente diálogo sobre meu compositor favorito, Joseph Haydn. Ali estava o único sujeito que eu conheci na minha vida com quem eu pude conversar sobre a vida e a obra de Haydn. Terminamos o almoço prometendo um reencontro em breve, dessa vez com nossas mulheres.

E até agora estou chocado com sua morte repentina no dia 25 de novembro, apenas dois meses depois desse almoço no Barão Geraldo. Termino com seu obituário publicado no jornal Folha de São Paulo:

RENÉ DANIEL DECOL (1958–2015)
Sociólogo, demógrafo e jornalista de bom humor
GUILHERME MAGALHÃES
DE SÃO PAULO 30/11/2015 02h00
Certa vez, ao fazer uma entrevista para uma reportagem sobre depressão, o jornalista René Daniel Decol impressionou sua fonte, a psiquiatra Vera Tess. “Ele chegou e disse que tinha lido três livros sobre depressão, já estava sabendo mais do que eu”, brinca ela, que mais tarde tornou-se sua grande amiga.
Essa era, de fato, uma marca registrada de René, sujeito intelectual, “de cultura profunda”. Era um habitué da antiga Livraria Belas-Artes, do amigo José Luiz Goldfarb. “Intelectual de bom humor e pimentinha nos comentários”, lembra ele.
Aos 11 anos, já editava um jornal, conta Goldfarb, que frequentou com René o movimento juvenil judaico. Formado em ciências sociais pela USP, em 1982, fez mestrado nos EUA em sociologia e doutorado na Unicamp em demografia. Com seus estudos sobre o crescimento da população mundial, “poderia ter feito uma carreira na ONU”, diz o irmão Jorge.
Não que tenha feito pouco no jornalismo. Foi repórter e editor no jornal “O Estado de S. Paulo”, onde se destacou na cobertura cultural, no final da década de 80. Passou ainda pelo “Jornal da Tarde” e pelas revistas “IstoÉ” e “Época Negócios”.
Há cerca de oito anos, deu o pontapé nos estudos que revelaram o trabalho de Aracy Guimarães Rosa como “o anjo de Hamburgo”. Durante a Segunda Guerra, ela salvara judeus do Holocausto ao emitir vistos e passaportes falsos.
Morreu no dia 25, aos 57 anos, após um câncer de pâncreas fulminante — descrito também como inacreditável pelos amigos. Deixa a mãe, o irmão e a namorada.

2015: a volta do agente da UNCLE

Arte: Saulo Ribas

25 anos se passaram desde minha caminhada em frente ao edifício das Nações Unidas em busca do Del Floria’s. O livro de Jon Heitland continuou sendo o único escrito exclusivamente sobre a série. A versão impressa estava esgotada e não havia uma versão digital. Decidi escrever meu próprio livro sobre esta série clássica.

Open Channel D: the Man From UNCLE Affair foi escrito em inglês com a colaboração do meu amigo Claudio Poles. O livro está à venda no mercado global apenas em formato digital pela Amazon. Procurei cuidar mais da mitologia do que dos detalhes de produção (o que Jon Heitland já tinha feito com muita competência em seu livro). Em Open Channel D eu também escrevi um guia de episódios muito mais detalhado, além de levantar informações inéditas sobre o universo da série.

Você pode encontrar Open Channel D: The Man From UNCLE Affair clicando aqui.


Última versão: Dagomir Marquezi — São Paulo — 28 março 2016–01:47
Show your support

Clapping shows how much you appreciated Dagomir Marquezi’s story.