Lula e as primeiras movimentações para 2018: o que diz o Datafolha

Apesar de liderar as pesquisas a dois anos das Eleições, ex-Presidente é apenas mais uma vítima do impacto da crise política na opinião pública

Em discurso inflamado após a condução coercitiva, Lula se lançou extraoficialmente como candidato para 2018: impacto discreto nas pesquisas de opinião deve preocupar o PT (Foto: Istoé)

A pesquisa Datafolha divulgada no último sábado foi recebida com muita alegria pelos apoiadores do ex-Presidente Lula. Por outro lado, os antipetistas reagiram com bastante preocupação ou, em alguns casos, com desdém (o que é apenas um jeito diferente de demonstrar a mesma preocupação). O levantamento aponta que, mais de dois anos antes das Eleições Presidenciais, Lula lidera um eventual cenário com Marina Silva e Aécio Neves. Na verdade, os três estão em empate técnico dentro da margem de erro, mas enquanto o petista ascendeu em relação ao último levantamento, o tucano vem em queda livre, o que se repete nos cenários com Geraldo Alckmin e José Serra.


Pesquisas eleitorais realizadas com essa antecedência demandam, obviamente, uma análise mais cautelosa. Na verdade, esses levantamentos mostram algumas tendências momentâneas de popularidade e, por isso mesmo, têm como maior utilidade servir de base para que os marqueteiros definam suas primeiras estratégias quando a corrida eleitoral de fato começar. É justamente por isso que a preocupação dos antipetistas até se justifica, ao contrário da euforia daqueles que acreditam que os últimos acontecimentos fortaleceram a imagem do ex-Presidente.

Antes de mais nada, é preciso avaliar bem a linha do tempo da crise política e seu impacto nos levantamentos do Datafolha. Em dezembro, quando as coisas estavam bem mais calmas do que estão hoje, Aécio tinha 27% contra 20% de Lula e 19% de Marina. Em fevereiro, o único que oscilou foi o tucano, que caiu 3 pontos percentuais. Ou seja: desde o início, o eleitor recebeu de maneira negativa a atuação do PSDB como líder da oposição nesse conturbado 2016. À medida que Lula e Marina não herdaram os seus votos, é possível deduzir que Aécio decepcionou o eleitorado por se posicionar de maneira bastante discreta em um momento tão importante.

Mas é na pesquisa de março que fica mais fácil perceber porque a situação de Lula não é tão boa quanto parece. O ex-Presidente recebeu a visita da Polícia Federal na tal condução coercitiva no dia 4 de março, exatamente uma semana depois do levantamento citado no parágrafo anterior. No dia 16, o juiz Sérgio Moro divulgou as interceptações telefônicas envolvendo Lula. Dia 17 e 18, o Datafolha foi às ruas e o resultado foi o seguinte: Marina assumiu o primeiro lugar com 21%, Aécio manteve sua tendência de queda e foi a 19%, enquanto Lula chegou a 17%. Mais que isso: a rejeição à Lula cresceu de 49% para 57%. Torna-se evidente, portanto, que o discurso inflamado de Luiz Inácio Lula da Silva após a condução coercitiva teve um impacto extremamente negativo para o eleitor. A jararaca, em suma, pode não ter morrido, mas tomou mais uma vassourada.

Portanto, quando vemos que Lula tem 21% das intenções de voto neste levantamento de abril, não devemos considerar que ele “subiu 4%”, assim como seus 53% de rejeição não representam exatamente uma queda de 4%. O que aconteceu, na verdade, foi que Lula recuperou o que ele havia perdido (ou parte do que havia perdido no caso da rejeição) na semana mais tensa da história recente da República. É um fenômeno que tem o seu lado positivo para o PT, pois sugere um “giro 360 graus” provocado pelo juiz Sérgio Moro — tudo mudou, mas voltou ao mesmo lugar. Por outro lado, é extremamente alarmante para os petistas que o “lançamento extraoficial” da campanha de Lula para 2018 não tenha modificado em nada sua avaliação. Se havia a previsão de que o “Lula candidato” conquistasse de imediato o eleitor, isso não aconteceu, visto que sua intenção de voto é igual à do fim de 2015. Obviamente não é algo definitivo e só as pesquisas seguintes podem indicar uma tendência nesse sentido, mas é um sinal amarelo.

O problema maior para o PT é que sempre que uma pesquisa indica um empate técnico, deve-se ficar de olho em dois números. O primeiro é o de indecisos, que são 5% (número surpreendentemente baixo para uma pesquisa tão prematura). O segundo, é o de rejeição. Esse índice indica quais candidatos tendem a ganhar mais votos desses indecisos e, principalmente, quais teriam mais facilidade para herdar os votos dos outros candidatos em um eventual 2º turno. Por isso, Lula sairia, nesse momento, em desvantagem. Seus 53% de rejeição são dois terços maior que os 33% de Aécio Neves, o segundo mais rejeitado. Seu potencial de crescimento, portanto, é menor que o de seus principais concorrentes.


Mas se a pesquisa não é boa para o PT, é boa para quem? Essa é a pergunta mais difícil de responder. Marina Silva, a mais afastada de toda essa confusão, reproduz esse afastamento num gráfico que vai praticamente em linha reta: 19% em dezembro e fevereiro, 21% em março e 19% em abril. Esse afastamento faz com que ele não se comprometa com o eleitorado, mas também não lhe permite aproveitar os votos deixados pelos concorrentes. Marina, portanto, mantém o eleitorado fiel que conquistou desde 2010. Uns vem, outros vão, mas esses 20% ela não perde. Muito hoje, em abril de 2016, pouco na hora da votação.

O caso de Aécio é ainda mais alarmante para o PSDB. Depois de cair de 27% em dezembro para 24% em fevereiro e 19% em março, o tucano chegou agora a 17%. A sua rejeição também cresceu bastante, de 23% em fevereiro para 33% agora (aumento de quase 50%). Como os cenários em que estão inseridos Alckmin e Serra também apresentam resultados parecidos, é possível concluir que o problema não é só do Senador mineiro, mas sim do partido. E isso é bem mais grave porque não se resolve escolhendo A ou B como candidato. Se quiser disputar uma Eleição com Lula, o PSDB vai precisar mudar radicalmente sua postura. O discurso de “defensor do povo brasileiro”, em contraste com a discreta atuação efetiva no processo de impeachment, está fazendo o partido sair como o grande perdedor da história.

Aécio discursa em evento pró-impeachment; diferença entre discurso e prática incomoda eleitor e provoca queda nas pesquisas (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

O efeito Bolsonaro

Em dezembro, Marina, Lula e Aécio somavam 66% dos votos. Em fevereiro esse índice caiu para 63%, chegando a 57% em março e abril. Ou seja, em questão de quatro meses os três principais candidatos perderam, somados, 9% das intenções de voto. É muita coisa. Torna-se intuitivo perguntar, portanto, para onde estão indo esses votos. A resposta parece um pouco alarmante, mas, por outro lado, tem uma explicação que ameniza um pouco os dados.

À medida que Marina Silva não pode mais ser chamada de “novidade” após ter perdido duas Eleições, o público que se afasta de PT e PSDB tem buscado sua opção em duas figuras polêmicas e contraditórias. Uma delas é Ciro Gomes, que desde o início despontou como “quarta força” e, nesse tempo todo, cresceu apenas de 6% para 7%. A outra, sim, cresceu e muito. Mais que isso, dobrou suas intenções de voto. Trata-se do deputado Jair Bolsonaro, que de 4% em dezembro passou para 8% em abril. Um país onde 8% dos eleitores declaram voto em Bolsonaro é um país com problemas sérios, mas a situação é um pouco menos grave do que parece.

O “efeito Bolsonaro” na verdade surge do conhecimento superficial que o eleitorado tem dele. Ao vê-lo por dois minutos em um vídeo no Facebook, o eleitor compra com mais facilidade a ideia de que ele é a salvação para o Brasil. Por conta disso, e também por ser de um partido inexpressivo, ele não tem condições de manter essa votação (muito menos de aumentá-la em uma campanha). Tem um eleitorado pequeno, com pouco potencial de crescimento e, principalmente, extremamente vulnerável a um ataque (por menor que seja) dos favoritos. E essa é uma boa notícia para Aécio, que pode recuperar os votos que perdeu para uma pseudoextremadireita que está em um romance sem futuro com Jair Bolsonaro.

Ciro Gomes chegou ao PDT para se estabelecer como quarta força na corrida para 2018 (Foto: Divulgação/PDT)

Fica claro, portanto, que a crise provocou um descontentamento do eleitor com toda a classe política e não apenas com partido ou candidato A ou B. É isso que torna a Eleição de 2018, desde já, curiosa e imprevisível. Se em 2002, 2006, 2010 e 2014 o discurso do PT tinha uma ótima aceitação e era a oposição quem tinha que correr atrás de uma postura para combater o partido, em 2018 vai todo mundo sair do zero.

A partir do momento em que consideramos que numa Eleição não ganha o melhor candidato, mas sim aquele que conta a melhor história, os marqueteiros e as estratégias de campanha devem ser mais uma vez decisivos. Deve vencer quem conseguir contar a melhor história sobre essa crise que talvez ainda não terá acabado. E isso, claro, ainda dependerá do que acontecer daqui para frente, especialmente no que se refere ao processo de impeachment, em seu sucesso ou fracasso e nas reações de seus apoiadores e detratores a partir desse resultado. Por isso mesmo, os partidos que quiserem ter um bom resultado nas próximas Eleições precisarão largar suas análises internas, enviesadas e apaixonadas, e olhar com mais carinho para o recado passado pelas ruas. Depois, não vai adiantar reclamar.

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