Sobre cacos e retalhos

Como não sentir falta do que nunca se teve? Como não se sentir vazio por causa de algo que nunca te preencheu?
Tenho repetido essas perguntas intermináveis vezes na esperança de que, em algum momento, eu tenha respostas plausíveis. Ou quem sabe, a falta se vá e o vazio se preencha. 
Mas não é tão fácil assim. Nunca foi. Chorei por amores inventados e, como forma de consolo, compus novas paixões. Entreguei pequenas partes de mim a desconhecidos, na espera de que pudesse tê-los por inteiro. 
Me perdi em meu próprio vazio e, sem saber como me encontrar, esperei em silêncio que alguém pudesse me resgatar, mas cada vez que alguém se aproximava, eu mergulha mais fundo em minha solidão. 
Como dói a angústia de desejar algo e não saber o que ele é! Como tortura a tristeza de ficar sem palavras diante do desejo de viver aquilo que desconheço… 
O anseio é real, mas o medo domina, sufoca e destrói toda e qualquer possibilidade. Aos poucos, vou me distanciando de tudo e todos e, submersa em meio a um mar de sentimentos, espero impaciente por algo que faça sentido. 
E sinto muito, mas não sinto por inteiro. Cada lágrima derramada não foi por um amor perdido, mas por estar perdida, por estar em cacos. Como posso ser apenas uma parcela daquilo que posso ser? 
Queria ter feito mais. Ter dito o que sentia. Ter demonstrado carinho. Ter ligado de madrugada para dizer que descobri que não gosto da forma como aquele ursinho na estante me observa enquanto durmo. 
Queria ter abraçado aquela menina que, aos prantos, me disse que sua dor era insuportável. Ter pago um almoço para aquele menino no sinal. Ter dito para a senhora no ônibus que ela tem um belo sorriso. 
Queria ter perdoado aqueles que me ofenderam e já não estão mais aqui. Ter dito eu te amo mais uma vez antes de partir. Queria ter espalhado gratidão. 
E, em meio ao meu mar de arrependimentos, sufocada por meus próprios sentimentos, reconheço que queria uma mão que me puxasse, um abraço que me acalmasse e um coração que me abrigasse. 
E, presa em minha própria lucidez, reconheço que poderia ter feito mais. Talvez eu só precise de uma dose de mim mesma. Quem sabe essa parcela do sou, seja o suficiente para juntar os cacos que eu mesma criei. 
A força e a coragem estão perdidas em algum lugar, aqui dentro de mim, basta procurá-las. Quem sabe eu perceba que não preciso de alguém para me resgatar, afinal, sou protagonista de minha própria história. 
Talvez assim, no caminho, dona de meu próprio nariz, liberta de mim e do medo, sentindo muito e por inteiro, sendo completamente preenchida por quem eu sou; eu encontre alguém que me transborde.