Nem tudo é sobre você

Enquanto passo de mãos dadas com alguém ele berra meu nome. Aceno bastante desconcertada. Ele me chama e vou até lá sozinha.

  • Ia mesmo fingir que não me conhece?
  • Não tinha te visto.
  • Tinha, sim.
  • Não tinha, não. Tudo bem?
  • Não, né? Você visualiza minhas mensagens e não responde.
  • Ah, é que
  • Não inventa desculpas. Eu me sentindo um lixo pelo que aconteceu da última vez, tentando falar com você de todas as formas possíveis e você me aparece com outro cara.
  • Você só me mandou mensagens no whatsapp.
  • Você preferia uma faixa na frente do seu prédio?
  • Para. Foram três ou quatro mensagens.
  • Que você nem respondeu. E agora aparece aí nos nossos rolês com outro cara.
  • Olha, nem tudo é sobre você.
  • Como sobre mim?
  • Não estou com outro cara para te provocar. Não vim aqui achando que te encontraria. Não deixei de responder suas mensagens para te irritar. Não fingi que não te vi. Para de se achar tão importante na minha vida.
  • Não é o que você me dizia.
  • Você nunca acreditou.
  • Quando foi que você decidiu isso?
  • Isso o quê?
  • Sobre a gente?
  • Quando você nasceu. E depois quando eu nasci. Desde então, em nenhum momento você disse “a gente”. E quando eu falei você riu “da gente” e vomitou todo um discurso sobre amor livre . Se “a gente” não existe eu nunca precisei tomar decisão alguma.
  • Eu estava a fim de você.
  • Eu amava você. E agora preciso ir.

E fui.

Nan Goldin (NY, 1979)