Sobre selfs, drags, travestismo

A gente acostuma, quem sabe um dia, acostuma, que afinal a vida seja o erguer e desmoronar identidades, e talvez até se divirta com isso como uma maravilhosa Rogéria. Hoje as maquiagens são à prova d’água, as roupas são como tatuagens. Tudo parece ter uma incompreensível capa de permanência. Em fins de semana difíceis, em que maratonando Rupaul Drag Race, me ocorreram algumas visualizações. Naquele desfile infindável de beldades, com rapazes que se transformam em mulheres deslumbrantes. As duas versões masculina e feminina são exploradas ao longo do programa. Sempre aparece alguma com nome bem divertido como, sei lá, Suzu Chuchu, em seguida take do candidato sem maquiagem falando do seu personagem “Suzu é uma bailarina louca que fugiu do hospício”, “ela dá risada alta, ela conversa rodopiando”. Em muitos momentos, ele relatam trajetórias dramáticas, dilemas com seus pais, maridos, esposas ou filhos. Eu me imaginava numa sessão padrão de terapia, tendo que falar de mim mesma e fazendo a mesma coisa. “Tem essa pessoa que só veste calça jeans e camisa social” “então” “ela é muito introvertida e tem dificuldade em falar dos sentimentos” “teve esse e aquele sonho e desistiu”. Porque no fundo, é o mesmo mecanismo em que forjamos nossa própria personalidade e decretamos somos assim, temos essa história. Os realities funcionam como um novo teatro grego, temos a chance de representarmos ali os sentimentos mais fugidios e sutis de forma grotesca e catártica. Então todos nós somos tipo drags, só que levando muito a sério nossa montação. Esquecendo que outras formas de pensar e sentir são possíveis. E não é porque usamos “máscaras como rostos ou rostos como máscaras” — não sei qual definição seria melhor ou ambas — que não há espaço para a verdade. O espaço é a verdade.

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