A bolha da improdutividade criada pelo conceito de lugar de fala.

Este texto não tem de maneira alguma o intuito de desqualificar a necessidade do protagonismo e da participação ativa de grupos oprimidos nos mais diversos tipos de militância. Devemos fazer a nossa voz enquanto grupo oprimido ser ouvida. Mas nós não estaríamos privando o resto da sociedade da nossa própria desconstrução?

Dentro da militância, um dos termos que mais se fala sobre é o lugar de fala. Para quem não sabe, o conceito de local de fala, basicamente diz que somente quem está inserido dentro de um determinado grupo oprimido socialmente pode discutir sobre a opressão em questão. Partindo dessa definição, pretendo propor à seguir não só o questionamento do conceito de lugar de fala mas também a deturpação do seu significado.

Todo ser humano tem uma opinião, mesmo que sem embasamento, sobre todo tipo de assunto. Com a militância e demais movimentos sociais não seria diferente. É nessa “opinião sobre tudo” que mora o perigo. Sabemos muito bem que as opiniões da massa são baseadas no senso comum propagado pela mídia e demais instituições que compõem o Estado, que por sua vez são controladas por uma classe dominante e privilegiada socio-economicamente. A militância aparece nesse contexto social como grupos de pessoas oprimidas por essa classe dominante e exercem o papel de lutar contra desigualdades sociais. Mas para essa luta ser efetiva e surtir algum efeito é imprescindível a desconstrução do senso comum num nível social. É justamente aí que a militância tem falhado.

Foi criada uma bolha de conforto e improdutividade com a questão do lugar de fala. O conhecimento e a desconstrução de preconceitos são coisas que devem ser propagadas de todas as formas possíveis mas estão ficando aprisionadas dentro dos grupos de militância porque simplesmente não há diálogo com pessoas que não estão inseridas nos grupos oprimidos.

Não estou dizendo que nós oprimidos devemos amar os nossos opressores. Estou dizendo que nós como pessoas que tomaram consciência da(s) opressão(ões) que sofremos temos o dever de propagar esse conhecimento para fora da militância. Criou-se uma zona de conforto, a militância se tornou uma bolha onde ali se cria o debate e ali mesmo morre o debate.

Levar a desconstrução de preconceitos para fora dessa bolha não é fácil, no entanto, não é impossível. Vamos analisar como nós mesmos entramos nesse processo de desconstrução. Não foi através da leitura de textos e debate de ideias? É dessa forma que aprendemos e é dessa forma que devemos fazer nosso conhecimento fluir para os demais grupos sociais nos quais não estamos inseridos. Estourem a bolha e criem a consciência de que todos tem o direito de participar dos debates sobre minorias sociais sem roubar o protagonismo dos grupos oprimidos. É possível ensinar e só quando começarmos a praticar isso assiduamente que poderemos transformar pouco a pouco nossos círculos sociais, e o mais importante: expandi-los.

Conhecimento estático se torna improdutivo e inútil. Não adianta nada sair da zona de conforto da ignorância para entrar na zona de conforto do círculo de amigos desconstruídos.