Cultura Skinhead: apropriada e deturpada

Skinheads negros norte-americanos. 1966 Revista LIFE

O termo skinhead constantemente é associado a grupos neonazistas, nacionalistas e de extrema direita. Os meios midiáticos tem papel fundamental na legitimação dessa ideia quando noticia alguns casos de violência que esses grupos cometem. O que não se fala é sobre a origem da cultura Skinhead e como ela foi apropriada e deturpada por esses grupos de extrema direita.

A cultura skinhead — pasmem — é de origem negra e jamaicana. À partir da mistura da música negra norte americana e músicas jamaicanas foi criado o SKA. Os jovens que aderiam ao estilo eram chamados de Rude Boys. O estilo dos Rude Boys não era bem visto pela sociedade, eles eram marginalizados e lutavam constantemente contra a violência policial. O modo de vestir dos Rude Boys influenciaria diretamente o estilo skinhead.

O fato de a Jamaica ter sido colônia inglesa influenciou diretamente na difusão e na apropriação da cultura skinhead pela Europa. Muitos rude boys migraram para a Inglaterra e o estilo desses jovens jamaicanos logo se misturou com o estilo dos Mods ingleses. É justamente dessa mistura que se origina a cultura skinhead.

Nascidos na classe trabalhadora e dos bairros suburbanos, os skinheads começaram a ganhar notoriedade por se juntarem a torcidas de futebol — os hooligans — e por se oporem aos hippies, que segundo eles, eram jovens mimados de classe média.

Com a chegada dos anos 70 o movimento punk ganha notoriedade e fica sob grande sensacionalismo midiático. O punk veio como um movimento cultural que demonstrava a insatisfação da juventude menos favorecida socio-economicamente. Sob um contexto social de crises econômicas, partidos nacionalistas começam a ganhar espaço entre a classe trabalhadora branca, pregando atos violentos contra imigrantes com a justificativa de que essas pessoas estariam roubando os empregos dos ingleses. É justamente por causa desse contexto que surgem os nazi-punks e os skinheads fascistas.

Skinheads fascistas se apropriaram dos cabelos raspados, botas e suspensórios dos skins tradicionais e começaram a pregar uma política nacionalista e violenta nos subúrbios ingleses. Não demorou muito para que a mídia começasse a mostrar esses skins fascistas como se fossem o único tipo de skinhead existente.

Skins tradicionais se opuseram a essa apropriação criando novas vertentes como os Redskins e SHARPs(Skinheads Against Racial Prejudice- Skinheads contra o preconceito racial). Estes últimos se denominavam apolíticos, o que entrava em desacordo com outros skinheads que logo criaram uma vertente skinhead anarquista e comunista denominada RASH(Red and Anarchist Skinheads-Skinheads comunistas e anarquistas).

Infelizmente, a apropriação da cultura skinhead por fascistas se espalhou por diversos países e não demoraria muito pra chegar ao Brasil. O número de skinheads anti-fascistas acabou se tornando cada vez menor.

É no mínimo irônico que brancos fascistas tenham se apropriado da cultura skinhead, deturpado todo seu significado de resistência e transformado em símbolo de combate contra negros e outras minorias sociais. Nós negros temos que propagar cada vez mais informações sobre nossas origens culturais e nos afirmar como os grandes produtores culturais que somos para evitar que fascistas continuem nos agredindo de todas as formas. Negros, conheçam suas raízes.

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