O Covarde e o Urso a Derrotar (versão 1)

Dalila Teixeira

Eu sou uma pessoa ordinária. Assim como os números ordinários, que têm as mesmas características entre si, eu sou comum a todos os outros. Mas, diferentemente dos números, em mim não tem nada de ordenado.

Não pretendo me alongar aqui, na introdução. Aqui, não há nada a ser escrito. O que eu sou é digno de poucas linhas.

Emanuel Rocha Alves, 20 anos, mulato, graduando em Matemática. Cabelos e olhos escuros. Alto, devo ter um metro e oitenta, com peso proporcional. Nerd. Não, eu não uso óculos. Bem simples.

E a minha vida deveria ter sido assim, simples e ordinária. Afinal, quem seria o idiota que convidaria uma pessoa como eu a se unir a uma aventura?


Devo admitir que eu fiquei parado nessa linha por um bom tempo. Dizem que o passo mais difícil em toda história é começá-la, e eu devo fazer isso apresentando a vocês a pessoa que tornou tudo isso possível. Mas não é tão simples descrevê-lo.

A primeira impressão que tive dele, a primeira palavra que me surgiu na mente quando o vi, foi “decrépito”. Um velho meio careca, o que um colega meu apelidou de “aeroporto de mosquito”, com o resto do cabelo preso numa trança que ia até o meio das costas. Não usava barba, acentuando a magreza do seu corpo e rosto, sendo esse idêntico à uma uva passa, de tão enrugado. Além disso, ainda parecia ser ranzinza: a boca ficava sempre virada pra baixo e, junto com aquelas sobrancelhas pesadas, ele parecia estar sempre te olhando com desaprovação.

Se ele não estivesse dentro um terno bem cortado, poderia se passar por um mendigo. Mas, caracterizado desse jeito, dava uma sensação de respeito e poder, o que me fez pensar a segunda frase sobre ele: “quem esse cara pensa que é pra me olhar desse jeito?”.

Sinto-me feliz de um jeito meio solitário escrevendo isso. Feliz por ele estar morto agora e não poder ler o que estou escrevendo dele. Mas, apesar da severidade, ele foi um grande amigo e o maior dos mentores.

Conheci-o na faculdade, pois ele era professor de Física V. Como se não bastasse eu detestar a matéria, ela ainda era lecionada por um cara arrogante — vide o terno que ele usava — , então não fiz muita questão de frequentar as aulas ou de me dar bem. Eu tinha esperança de que no próximo semestre outro professor fosse escalado para essa matéria. Minhas notas baixas e infrequência não deixaram uma impressão boa no velho, fator decisivo para ele me tratar da forma que tratou pelo resto da vida.

Eu sei que você deve estar curioso para saber o nome dele. As pessoas costumam ter essa obsessão em nomear as coisas. Mas eu prefiro deixar que ele mesmo se apresente.

O conheci no início do semestre, e a turma ainda não havia tido aula com a maioria dos professores. Eu estava conversando com um amigo, sentado de costas para a porta, e só senti a corrente de ar quando ela se abriu, permitindo que o velho passasse. Virei-me para ver quem havia entrado e imediatamente pensei na palavra “decrépito”. Quando o olhar dele caiu sobre mim, quase como se pudesse ler o que eu pensava, foi que a segunda frase surgiu em minha mente.

O velho colocou uma pasta preta na mesa e se sentou. A sala estava quieta, provavelmente ainda em choque por causa do terno dele. Nenhum professor ou aluno se vestia daquele jeito. Se você quiser fazer algum tipo de comparação, saiba que 30% da sala estava de chinelo e os outros 70%, de tênis. Ele ficou nos encarando por alguns segundos.

“Meu nome é Francisco Ivanov”, ele disse, com um leve sotaque que não consegui identificar, e continuou o monólogo listando todos os seus enfadonhos títulos acadêmicos em física, e foram tantos que só entendi que ele era um astrônomo. Apresentou o cronograma de estudos, o qual não me dei o trabalho de copiar, e listou os livros que seriam utilizados no semestre, um deles escrito por ele mesmo. “Quanta prepotência”, pensei, na época.

Eu não sabia o motivo, mas aquele esqueleto humano me deixava nervoso. Tentava me convencer de que era apenas a matéria horrível que me fazia fugir, mas havia algo no olhar dele que me desconcertava. Era um olhar sinistro e avaliador que ele reservava só pra mim. Eu tive medo daquele olhar. Fugi dele, me escondi dele.

Mal comecei a escrever e você já enxergou o motivo do título do livro, não é verdade? Sim, eu sou um covarde. Não adianta tentar negar isso. Aquela não foi a primeira e nem a última vez que fugi das coisas que eu temia.

Foi só no fim do semestre que eu descobri o motivo daquilo tudo.

Eu estava em uma sala vazia, me escondendo novamente, enquanto a última prova do semestre de Física V era aplicada. Aproveitava aquele tempo para estudar para a prova que teria no horário seguinte, torcendo para que no próximo semestre Francisco saísse da faculdade, ou que acontecesse qualquer coisa que o afastasse de mim. Pensando nisso, distraidamente, resolvi comprar um lanche na cantina. Peguei meu celular sem me dar ao trabalho de olhar a hora, pois achava que ele ainda estava aplicando a prova, abri a porta da sala — e dei de cara com ele no corredor. Meu estômago despencou um andar. Ele me encarou.

“Emanuel, não é?”, ele perguntou. Como era possível que se lembrasse do meu nome? Fazia meses que eu havia parado de frequentar as aulas!

Não houve tempo para responder.

“Eu gostaria de falar com você. Me acompanhe, por favor.”

Juro, naquele momento, eu queria sair correndo. A única coisa que me impediu foi a vergonha. Eu era um covarde, mas jamais deixaria isso transparecer de forma tão óbvia.

Então, o segui.

Dalila Teixeira

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tem algo em mim que não sei bem o que. mas machuca.

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