Cotidiano de uma família feliz

Acho que a família nunca esteve tão em voga quanto hoje.

Nunca se valorizou tanto a família, principalmente o modelo de família defendido. Alguns defendem aquele modelo arcaico e ultrapassado e o utilizam como plataforma política; outros defendem aquele que é obviamente mais razoável: uma família pode ser o que os integrantes dela quiserem e foda-se. Eu, você, dois filhos e um cachorro, eu e um cachorro, você e dois filhos… É tudo família, caralho.

O que não se discute, no entanto, é a relação da família. Essa discussão de modelo arcaico x modelo moderno não faz sentido nenhum, já que o único argumento que o modelo arcaico tem para embasá-lo é o de que a religião da pessoa defende isso — e que, por isso, todo mundo deve ser regido pelas leis da sua religião. Coerente.

Voltando à questão da relação da família. A partir de agora você tem duas opções: ou você fecha essa aba e vai ler toda a obra de Bauman ou você segue lendo esse texto (independente da sua escolha, caso você ainda esteja no colégio, lembre-se de citar Bauman na sua redação do ENEM. Sério.)

Um tempo para pensar.

Tá, você me escolheu em detrimento de Zygmunt Bauman. ERRRRROU (ler com a voz do pensador contemporâneo Fausto Silva).

A grande questão que queria abordar era: independente do número de homens, mulheres e cachorros da sua família, concentre-se no modo com o qual vocês se relacionam. Eu, por exemplo, tenho uma família “tradicional” com um relacionamento completamente moderno (o que, no caso, é uma bosta).

Outro dia meu tio-avô por parte de pai morreu. Minha reação: quase que indiferença. E não, eu não sou um monstro frio e calculista, só acontece que meu pai não o considerava uma pessoa que valesse a pena, então eu nunca tive contato com ele. Outro dia um primo por parte de mãe morreu. A reação foi a mesma e pelo mesmo motivo (é, meu pai também não curte muito a família da minha mãe).

Mas será que nenhuma parte da minha família vale a pena? Não, há uma parte que vale. E com essa eu mantenho muito contato. Só que pelo Whatsapp. Pra que almoços de família quando se tem o grupo da família? Pra que ouvir a piada do pavê quando seu tio já descobriu os memes?

A grande questão é que eu realmente não me incomodo com isso. Minha mãe, criada em um ambiente de plena interação familiar, se incomoda. Diz que eu não tenho essa noção de família. E, de fato, não tenho. Laços de sangue não me dizem quase nada. Eu tenho uma conexão muito estreita com minha mãe, meu pai e meus amigos mais próximos. Nunca tive um primo amigo, nunca tive um tio que chamasse de “dindo”. Minha madrinha? Meu pai não gosta dela.

Não sei até que ponto isso é ruim. Mas também não sei até que ponto é bom chorar mais com a morte do Marley em Marley & Eu (qual foi, isso não é um spoiler, todo mundo sabe disso) do que com a de um tio de maneira trágica. Você só pode realmente valorar algo que você tem. Mas, olhando pelo lado bom, dá pra pegar aquela frase do livro “O Caçador de Pipas” (que também me fez chorar mais do que a morte de familiares):

“Sempre dói mais ter algo e perdê-lo do que não ter aquilo desde o começo.”

Bom, talvez eu tenha me tornado mais frio do que deveria. E isso não é por causa da quantidade de homens, mulheres e cachorros da minha família — mas sim pelo modo pelo qual ela se relaciona. Talvez esteja na hora de olhar a família por outro prisma.