O quanto o pop diz sobre nós

Pretensão comercial é a maior inimiga da arte.

É impossível culpar alguém por isso — a “culpa” é de todo um sistema, mas não entremos nesse mérito. É perfeitamente razoável que artistas optem por obras com menos conteúdo e com maior potencial de vendas. As pessoas reagem a incentivos e, hoje em dia, os incentivos advém do mercado.

Não à toa, no que se refere à música, se vê cada vez menos artistas que realmente querem dizer alguma coisa. Isso porque são poucos os que conseguem conciliar letras com significados relevantes com sucesso comercial. Já se foi a época de canções subversivas ou profundas e que visavam mais do que um recorde de views no YouTube ou de downloads no Spotify.

Entretanto, hoje, as canções rasas são as que dizem mais sobre o mundo.

Vivemos em um mundo raso. Um mundo de sentimentos efêmeros e relações distanciadas. Um mundo em que não faz sentido se encontrar se temos Whatsapp, não faz sentido tentar fazer amigos se temos Facebook e não faz sentido flertar se temos Tinder.

Portanto, no mundo atual, talvez uma música da Katy Perry o retrate melhor do que uma do Rise Against. Em um mundo onde a política se resume a discussões direita x esquerda no Facebook, talvez canções como as de Chico Buarque na época da ditadura não digam nada a ninguém, ao passo que todos os sertanejos universitários passem mensagens realmente relevantes nos dias atuais.

Se o mainstream acaba com a arte? De forma alguma. A arte costuma representar o mundo e a indústria fonográfica atual talvez seja a que melhor faça isso. E, a partir de um ciclo vicioso, alimenta ainda mais toda essa cultura atual.

Os artistas são os menos culpados. São apenas reflexo do que vivemos.