Pessoas

Aquele sorriso era pra você


Você começa a trabalhar em uma empresa grande, com milhares de funcionários e prestadores de serviços e então se sente em um ambiente onde todos têm algum tipo de sintonia social entre si, como se fosse natural sair cumprimentando cada pessoa pela qual você passa até chegar à sua sala de trabalho: recepcionistas, seguranças, faxineiros, funcionários dos mais diversos departamentos, todo mundo. Seria legal.

Nos primeiros dias você tenta fazer isso, então solta um Oi para a primeira pessoa que vê, assim que a vê, antes mesmo de perceber que a pessoa em questão jamais considerou olhar para os seus olhos durante todo o intervalo de 2 segundos que se passaram enquanto você e ela estavam a uma distância segura um do outro para soltar um Oi por educação. Fui ignorado, paciência. Seria pior se eu tivesse uma relação pré-estabelecida com essa pessoa, algo como ter participado de uma reunião com ela ou tê-la ajudado em uma tarefa do trabalho outro dia mesmo.

Olha: aquele cara que eu ajudei outro dia mesmo. Vou dar um Oi.

— Oi.
— …
— (nem me viu)

Esse povo daqui é meio desligado.

Nem tudo está perdido, algumas pessoas são bem decentes e respondem aos Ois. Mas aí você resolve adotar uma nova tática: olhar para a pessoa até que ela olhe para você, mantendo o olhar tempo suficiente para que você possa soltar seu Oi com a convicção de que será correspondido ao menos com um acenar de cabeça. Você testa sua nova tática de autodefesa social e moral e então se dá conta de que 95% das pessoas não dá a mínima para quem vem na direção contrária do corredor. Dane-se.

Agora você também não dá mais a mínima para as pessoas que cruzam seu caminho até sua sala de trabalho cheia de pessoas que te cumprimentam todos os dias com infinitas variações de Ois, que vão desde um Fala, grande até um inusitado e distraído Falou, tchau (que era pra ser um Oi, acredite). Para 95% das pessoas que estão fora dessa sala você faz o mesmo esforço que elas fazem para não olhar nos olhos e ser obrigado a soltar um Oi. Olhe para o lado, olhe para o relógio, para o celular, para a TV na parede, finja que precisa de algo que está no seu bolso (e não se esqueça de olhar para o bolso enquanto enfia a mão nele) ou que seu cadarço precisa ser verificado a fim de saber se está desamarrado… não olhe nos olhos. Essas pessoas mal-educadas merecem o seu descaso.

Ei, nunca vi essa pessoa antes. Vou olhar deliberadamente para ela, mas não soltarei um Oi porque ela não vai responder mesmo. Então, aos 1.9 segundos do intervalo onde vocês estavam a uma distância segura um do outro para soltar um Oi por educação, você percebe que a pessoa sorriu… Tarde demais. Você já se tornou um deles.