Todo Amor Que Não Houve Nessa Vida

Hoje eu sonhei que estávamos deitados juntos na sua cama, nus, enquanto você cantava baixinho “Todo Amor que Houver Nessa Vida” no meu ouvido. Tudo foi estranho. Primeiro, estranhei você cantando Cazuza porque, vamos combinar, não é muito sua cara. Mas o mais estranho mesmo foi que estávamos calmos. Enquanto sua boca sussurrava “eu quero a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida”, eu acordava com estranhamento.

Nunca fomos tranquilos, fomos construídos com base em ansiedade. Tudo o que tivemos foi feito de euforia. E sabe o problema dos amores que causam angústia? Todos. Eu acordei do sonho pensando “e se a gente fosse leve daquele jeito?”. Mas sou eu que gosto de leveza, você gosta de ser uma bagunça. Essa tentativa de encontrar calmaria em meio à confusão só machucou. No fim, fomos apenas duas pessoas que de um jeito muito torto e cheio de complexidades gostariam de estar juntas. Mas a vida e nossa intensidade não deixaram.

Lembrei de um poema que escrevi que era mais ou menos assim:

Eu vou continuar tentando
Dando murro em ponta de faca
Até que você me tenha inteira
Ou até que você me despedace

Prendi o choro e deitei com seu cheiro pelo meu corpo todo. Despedaçada. Levantei juntando cada parte solta e seguindo em frente. Vamos aprender a viver com o “e se” porque não temos sabor de fruta mordida, temos gosto de ressaca. Desgraça.