SEXUALIDADE E IDENTIDADE NA INFÂNCIA, ESTÁGIO & ILUSÃO PARENTAL

Dandriel Henrique
Sep 2, 2018 · 5 min read

Das surpresas que trespassam a gente nesse peculiar trajeto que chamamos de vida, esse ano comecei um estágio que eu curto bastante. Trabalhar com crianças pode soar como um terror para um ou outro que conheço, mas para mim foi uma constante curiosidade, afinal quase sempre me dou bem com Mini-Pessoas.

Nesse alvoroço político que vivemos, podemos observar, mais uma vez, vindo a tona a questão do debate envolvendo sexualidade em crianças/jovens e como trabalhar isso. Resolvi vir aqui então compartilhar uma reflexão que vem permeando meus pensamentos desde certo tempo atrás.

Crianças tem sexualidade (Uso “crianças” aqui no sentido de indivíduos pré-púberes). Provavelmente não do jeito que vem na sua cabeça quando escuta/lê esse termo, mas ela existe. Aspectos sutis, CLARO… Nada comparado ao que vai acontecer no decorrer da adolescência. Aliás, deixo claro que não sou a pessoa mais experiente do mundo em nada, mas nesse pouco tempo trabalhando com Mini-Pessoas esse foi um fator que me assustou um tanto (quando percebi às primeiras vezes). E não vamos cair em ideias errôneas, não me refiro a nenhum “princípio de homossexualidade”, a maior parte dessas pequenas e raras situações sutis e momentâneas são entre Mini-Pessoas de sexos binários distintos.

Mais visivelmente ainda, consequentemente muitas vezes mais “repreendida” (talvez não agora, mas no futuro), as expressões de suas identidades vão ficando cada vez mais visíveis, ao menos para aqueles que se propõem a olhar para elas.

O “afeminado” ou a “criança viada” não surgem ao se assistir uma novela, ver um filme, jogar um jogo ou ver um casal na rua. Por mais que seja super comum as pessoas acharem que as Mini-Pessoas são “tábulas rasas”, vou aqui fazer um pedido: Papai, Mamãe, Familiar, Responsável… Sabe aquela Mini-Pessoa a qual você sempre fica ressaltando a inteligência e suas capacidades? Não a menospreze! Ela pode ser “Mini”, mas é tão “Pessoa” quanto você. Com muito menos experiências, ÓBVIO! Ainda sim, um ser complexo, fluxo de suas experiências, heranças genéticas e mais um monte de coisas que ainda nem sabemos.

Não entendo muito de Focault, pelo menos não hoje, mas acho que talvez ele já nos faça refletir sobre o apagamento da sexualidade das crianças… Ou melhor, a tentativa… A expressão, a identidade e a sexualidade vão “aflorando” em diferentes idades dependendo dos mais diversos fatores. Fingir que isso não acontece, ignorar ou repreender tua Mini-Pessoa só atrapalha o desenvolvimento dela e põe para debaixo do tapete algo que um dia terá de ser resolvido.

Cabe aos responsáveis também explicar que há um tempo certo da vida para tudo… Ou, ao menos, um tempo mais indicado. Não é por saber de algo ou ter pequenos traços de sua sexualidade ou expressões aflorando (aos poucos) que você aí não vá impor limites para tua Mini-Pessoa, né? Assim como impõem-se diversos outros limites. Faz parte da educação. Senta e conversa. Isso já vai resolver, se for feito desde cedo, as mais diversas problemáticas da vida dessa criança (nos mais diversos assuntos).

Você impedir teu filho de “saber da existência” de outros tipos de casais além do composto pelo Papai e pela Mamãe dele (ou, MUITAS vezes, só a Mamãe) não vai fazer ele deixar de gostar de meninos, se assim for para ele ser. No máximo ele não vai poder se auto intitular “gay”, por não conhecer o rótulo, mas ele vai continuar curtindo quem ele curte. Enfim, essa situação (hipotética) é só um exemplo.

Não adianta se iludir… Algo que minha Mãe me ensinou desde cedo é que “Não criamos nossos filhos para nós mesmos, criamos para o mundo!”. Numa sociedade onde os pais querem cada vez mais “imprimir” seus pensamentos, ideais e expectativas sobre suas Mini-Pessoas, penso eu aqui na minha própria ignorância que essa frase deveria ser propagada aos sete ventos.

Aliás… Cuidado com o que vocês “imprimem” nas suas Mini-Pessoas… Minhas unhas causaram e causam reações adversas n’algumas. Nada do tipo que você esteja fantasiando na sua cabeça, bem capaz das suas Mini-Pessoas serem bem mais espertas do que você pensa rs’ Um “Daaan, por que você pinta suas unhas?” ou “Ô Dan, por que você tem unha de meninas?” ou “Tio Dan, por que você gosta/usa de coisas de meninas?” pode quase sempre ser solucionado com um “Ora? Porque eu gosto.” e pronto. Aliás, se eu dissesse que as crianças que mais “broncam” comigo são as que advém de situações mais “problemáticas” vocês se surpreenderiam? Das coisas que eu duvido muito firme está a ideia de que alguém seria naturalmente preconceituoso.

O povo se complica demais. Não esqueço de um relato de uma vovó que escutei num desses Japeri’s da vida. A neta (aparentemente uma Mini-Pessoa) havia visto uma cena numa novela onde duas mulheres se beijavam e questionou a vó sobre. A idosa lhe disse que o beijo acontece por elas serem amigas… Logo após a própria avó trouxe a tona de problemática de que isso só complicou a situação. A neta possivelmente passará então a achar que beijar na boca é um hábito entre amigas… Um simples: “Elas duas se gostam”, seguida pela constatação de que as vezes homens gostam de homens e mulheres de mulheres, e que não há nenhum problema nisso, teria esclarecido e satisfeito a curiosidade da Mini-Pessoa. Mais uma vez, como disse antes, converse, explique que existem coisas, assim como há seus tempos.

Nem adianta querer vir com aquele papo de que “Na minha época não tinha isso”. O que acontecia era que o preconceito, que ainda é grande hoje, já foi muito maior e acabava “””apagando””” o assunto. Num olhar mais amplo podemos observar, de modo até difícil de datar, a existência de indivíduos que relacionavam-se com indivíduos de mesmo sexo ou que executavam funções e portavam-se de modo diferente daquele da maioria dos indivíduos de seu sexo nas mais diversas sociedades e tempos distintos.

Se você ainda tá preocupado em como tua Mini-Pessoa vai se identificar, se vestir ou quem vai beijar no futuro, faça um favor para a humanidade e concentre-se em gastar um tempo com a Mini-Pessoa em si. Converse. Dê educação. Troque uma ideia sobre o dia. Ajude num dever de casa. Ajude tua Mini-Pessoa a enfrentar o mundo, por favor, não dificulte mais ainda. A escola que era para ser um ambiente seguro já não é. Torne tua família um antro de amor.

Amor.

Na dúvida do que fazer? Propague esse sentimento

Tá aí algo que sempre faz bem proliferar.

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