Homens feministas
“Homem feminista” é o assunto que veio à tona com mais força recentemente nos grupos de militância devido a um post no Facebook. Embora concorde com muitas explicações que foram colocadas, inclusive por outras mulheres em comentários posteriores, ainda não entendi porque X + Y = Z, ou melhor, porque a aproximação, diálogo e as transformações necessárias fazem do homem um feminista.
Embora não eu acredite que nenhuma feminista seja obrigada, eu apoio o feminismo que dialoga. Gosto de um feminismo que se aproxima. Acredito no feminismo que transforma a sociedade, o que obviamente inclui os homens. Se eles são protagonistas da opressão e, a priori, os privilegiados do mecanismo machista e misógino - mesmo que eles nem saibam disso - claro que eles devem aprender, mudar, se desconstruir, provocar certas mudanças que só podem partir de si mesmos.
Abrir mão de privilégios e reconhecer a opressão que a mulher sofre é um ótimo caminho. Participar do empoderamento da mulher, abrindo os espaços que foram historicamente negados a ela, é uma necessidade para que a igualdade seja alcançada.
Mas se o feminismo é a luta pela equidade entre gêneros, não faz sentido para mim, apesar de apoiar todos os tópicos acima, dizer que um homem que se propõe a participar dessas mudanças seja feminista. O homem não é aquele que luta pela igualdade. Ele é aquele que abre mão de sua posição privilegiada para dar espaço a quem não tem privilégio - nesse caso, mulheres. Ele é agente passivo.
“Mas porque não pode ser feminista?”
Ao >meu< ver, não é uma questão de proibição. É uma contradição de discurso, só isso. Ao cantar uma música, você não se torna cantor. Você é simplesmente alguém que eventualmente canta (essa analogia ainda será usada em textos futuros). Ao dançar, você não se torna dançarino, mas alguém que eventualmente dança. Quem defende o “homem feminista” está buscando um diálogo com eles, aproximação para uma potencial transformação. Ora, se quem chama para o diálogo é a mulher, se quem traz as pautas é a mulher, se quem está gritando pelas necessidades de mudança é a mulher, se a cantora nesse caso é a mulher… o homem é quem eventualmente canta a canção quando precisa para trazer as mudanças que ele pode trazer. Isso não faz dele o cantor.
Também se fala que o homem é vítima do machismo, que ele sofre e é oprimido pelo o sistema machista. Alguns homens são atingidos por fagulhas de competição entre eles, rivalidades, muitas vezes são humilhados por não serem “machos” o suficiente. Mas vejam bem, não é o feminismo que deve lutar contra isso. Sério. O feminismo luta pela igualdade entre gêneros. Isso não significa que não podemos apoiar uma causa de homens contra as consequências do machismo que alguns deles sofrem, mas percebam que se tratam de pautas diferentes, que não deveriam se misturar em um único movimento.
Mulheres, se quiserem, podem apoiar esses homens que são atingidos por não serem considerados “machos” o suficiente, mas elas serão alias nessa luta, porque isso é algo a ser resolvido entre eles. Pode haver diálogo? Claro, maravilha que haja. Mas que ninguém se sinta pressionada a isso, que ninguém venha dizer que ela está errada se não o fizer. Ou seja, o que temos nesse cenário é uma interseccionalidade. Cada um protagonize as suas lutas, e quem for de apoiar, apoie.
Outro argumento que homens estão usando para se declararam feministas, é o da empatia - amplamente usado pela militância de modo geral. “Nós não passamos o mesmo que vocês, mulheres, passam, mas temos empatia”. Eu não quero me estender muito nisso hoje, talvez em um post futuro, mas a empatia não é um poder mutante (só a Megan do Excalibur tem esse poder) de realmente sentir o que as pessoas sentem, ou se colocar no lugar delas. Nós podemos imaginar, supor, e para isso, o único meio é ouvir o outro. E é muito mais fácil, após ouvir ou presenciar uma cena de opressão, termos empatia quando se trata de algo pelo qual já passamos. Ou seja, um homem não vai “sentir” o que as mulheres sentem, por mais empatia que tenham.
Eu poderia mencionar os problemas que já são enfrentados sempre, por exemplo, homem querendo protagonizar o movimento. Mas é difícil falar sobre isso quando as pessoas já estão deslegitimando o conceito de lugar de fala, algo importante para que mais pessoas tenham voz ativa.
Sim, o machismo afeta a todos. Mas:
- Alguns gostam de ser afetados porque o machismo lhes traz vantagens
- Não é o feminismo que se compromete a resolver todos os problemas que os homens causam, inclusive para si mesmos.
Finalizando, nesses poucos dias de debate eu já vi homem cagando regra no feminismo de mulheres que tentaram ser didáticas com eles. Até que pessoas nada bem intencionadas, como certos apresentadores de TV e YouTubers comecem a aproveitar a situação para causar mais estrago do que já fazem, acho que o discurso de aproximação e diálogo poderia mudar um pouco.