Programa “Beija Saco” do Pânico reproduz transfobia em forma de “humor”

Eu acho que é pra rir.

Afinal, tanta gente está achando engraçado. Estão rindo. Não sei do quê, mas se eles estão rindo, deve ser engraçado mesmo. Estão rindo de mim por algum motivo, eles estão certos.

Era assim que eu me sentia e pensava na maioria das vezes, quase todos os dias que ia à escola ou saía na rua, porque quase sempre que alguém ria eu já sabia que eu era a piada. É só uma brincadeira, o mundo vai ficar muito chato se não pudermos rir dos outros, principalmente quando “os outros” são uma pequena minoria que fica encolhida sem reação alguma.

Cada vez mais encolhida, até desaparecer por completo. O que é ainda mais engraçado.

Eu era a piada e encolhi até desaparecer.

Vamos rir. O programa que tem o nome de ‪#‎BeijaSaco‬ (que sacada genial, rê, rê) é de humor. E quem mais oferece uma oportunidade a essas garotas trans, que poderiam estar na prostituição? Ao invés de vender o corpo nas ruas, elas só tem que beijar um cara e bancar as palhaças para a sociedade.

Obrigada, Pânico; obrigada, Band.

“Ah, não, mas estamos rindo o Gui Santana, porque ele vai ter q beijar todas.”

Agora sim, entendi a graça, vamos rir do Gui Santana e de todos os homens cis heteros que ficarem com uma trans ou travesti nas ruas, nas baladas, seja onde for. Motivo de piada mesmo. Imagina, ser enganado dessa forma? Assumir compromisso com trans então, é motivo de entrar em livrinho de piadas, daqueles do tipo Ari Toledo, que você compra em aeroporto.

Vamos rir, porque as coisas estão bem melhores. De prostitutas, mulheres trans tem uma nova perspectiva de trabalho na sociedade: palhaças. Mas não são palhaças protagonistas, são meras coadjuvantes pra transformar em piada a figura principal, o homem cis hétero que, coitado, precisa descobrir quem é a “mulher de verdade”.

Vou tentar rir porque ser palhaça já é normal pra mim. Melhor do que apanhar na rua — se bem que isso também já era normal na minha infância. Então acho que tanto faz.

Vamos rir e essas minorias ficam cada vez mais encolhidas, até desaparecer por completo. Até que possamos continuar matando sem que ninguém se importe.

Ninguém se importa.

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