Are you ready, boots?

Sempre fui magrinha e acabei sendo a herdeira natural de uma vasta coleção de roupas que não funcionavam mais para as minhas amigas. O resultado sempre foi um armário meio sem personalidade onde pode-se vestir qualquer pessoa, em qualquer estilo, como num passe de mágica.

Eclética-geminiana-ar-agitada que sou, nunca transformei o fato em um problema. Se eu sou uma camaleoa, se renasço a cada dia com uma motivação diferente, nada de errado em ter um armário reflexo da colcha de retalhos que efetivamente me constitui. Certo?

Hoje me arrumei logo cedo com uma camisa vinda de outro armário. Era elegante, coisa fina, de marca, quase não foi usada. Tem carinha de camisa social mas com corte feminino. Uma graça.

Você me olhou, fez cara torta (literalmente, você entorta a boca quando está contrariado, sabia?) e calou. Perguntei o que era ao que ouvi de pronto “você não gosta que a gente diga”.

“O que filho? Agora fala”

“Você não gosta que a gente dê palpite nas suas roupas”

“Você pode dar uma opinião, não pode é ser invasivo. Cada um se veste da forma que acha adequado. O que está te incomodando? Achou feia?”

“Não. É bonita. Só não parece com você.”

Me olhei no espelho novamente. Não, não era eu.

Precisei de mais de 30 anos e uma boca torta de quem me observa com atenção para perceber que existe um mundo dentro de todos os meus mundos. Tá mais do que na hora de comprar minhas próprias roupas.

Are you ready, boots? Start walkin’!

Tks, M. Pela delicadeza de reforçar minha personalidade perante o mundo. Eu não conseguiria sem você.

Amor, Mãe.

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