Mia

Alguém apressado arrancou a Mia da nossa vida. Não teve tempo nem de tirá-la do meio fio… saiu arrancando e pronto!

Talvez ela estivesse no lugar errado, na hora errada. Ou foi apenas um baita vacilo. Putz! Ambas as hipóteses são difíceis de encarar porque não combinam com a natureza dessa gata extraordinária.

Me lembro de quando nos vimos pela primeira vez. Cruzamos os olhares, separados por uma gaiola itinerante montada para a adoção de gatos e cachorros. Conexão imediata, dessas que a cabeça não entende no momento. A Mia virou a gata da minha namorada (com trocadilho e tudo), guardiã do ainda pequeno Theodoro e companheira de todos nós. Lá foi ela se incorporando no novo lar, se aninhando com meus três filhos, conquistando cada um. Gata livre e astuta. Criou seu espaço na nossa vida, ao mesmo tempo em que fomos aprendendo também a fazer parte da sua… com suas idas e vindas, chamegos e curiosidades. Sua expertise de gata abandonada, porém amável, aguçava ainda mais os sentidos. Sabia se virar com resiliência, mesmo quando as malas apareciam na sala (e a gente sumia de cena).

A Mia gostava de sair, felina que era. Mas, sempre ficava perto da nossa casa. Era precavida, afinal, na natureza é assim: jacaré bobeou virou bolsa.

Já no mundo civilizado da nossa rua o limite de velocidade é de 20 km/h. Deve ter sido determinado por algum cálculo de especialistas, validado por meio de simulações daquelas que espatifam bonecos em câmera lenta. Mas, nada disso deve importar porque passam muitos homens e mulheres voando por aqui a uns 80 km ou mais! Não há limites para eles. As placas de aviso e lombadas são para os outros. Para os menos importantes? Talvez… a sociedade que criamos está cheia de incongruências mesmo.

Há pouco tempo caminhei por uma trilha com um pajé (xeromõi) para conhecer um pouco da educação Guarani em uma aldeia dentro da cidade de São Paulo (disponibilizo o vídeo realizado aqui). Me chamou a atenção as relações que cada um na tribo consegue estabelecer entre o tempo dedicado às atividades necessárias para o grupo como um todo, suas próprias atividades e os ciclos do tempo da natureza (épocas para caçar, pescar, colher, criar, etc). Não é um mundo perfeito. Mas, ainda que estejam todos sujeitos às mesmas forças individualistas, consumismo e diversas inseguranças sobre o futuro, há ali uma percepção essencialmente coletiva das responsabilidades sendo constantemente trabalhada.

Frequentemente, os Juruás (não indígenas) abandonam seus cães e gatos perto da aldeia Tekoa Pyau na base do pico do Jaraguá porque sabem que lá serão cuidados! Como será que percebem isso?

Consciência corporal, percepção espacial, instinto? Isso é coisa para animais como gatos ou gente mais primitiva que vive no mato. Aqui na cidade, acostumadas a viver em bolhas de proteção, as pessoas não tem tempo para isso. A impressão que dá é que não estão dentro de seus corpos… talvez estejam em outra parte da cidade ou injetando suas vidas em outras máquinas “mais importantes” enquanto seus corpos é que trombam uns com os outros para agarrar embalagens chamativas nas prateleiras dos supermercados. Precisam ser forçados a se submeter às regras como vagas especiais ou um caixa preferencial porque voluntariamente não dariam passagem para ninguém. Por isso há regras também que dificultam o abandono de animais (atropelados ou não…) mas, no final das contas não faz muita diferença porque basta transferir a responsabilidade para os outros.

Essa é a conduta de quem paga impostos, tem lá seus planos de saúde e previdência privada para trafegar involucrados em carrões, bem seguros pelo vidro fumé e a cancela dos condomínios. Aceleram mais ainda pela ilusão de poder controlar o próprio tempo, sem que ninguém tenha nada a ver com isso.

A eficiência no torque deve dar uma vontade irresistível de sair “esmerilhando” pelo asfalto! Sensação de liberdade retorcida por uma máquina que decepa, esfola, arranca vidas, atrapalha a respiração de crianças e idosos. Como poderiam vislumbrar tanta liberdade que um gato tem para mostrar? Como apreciar um bem que não se compra, nem se ganha? São homens máquina movidos pela própria arrogância até sofrerem algum tranco forte, algo que faça mais ruído do que um simples animal no caminho.

Acordei com a campainha. O aviso do óbito veio pelo vigia da rua.

É perturbador encontrar pela manhã a nossa gata atropelada. Sua vida escorreu pelo meio fio para não desviar ninguém. A de quem morreu sem estar na contramão, nem atrapalhar o tráfego como aquele previsto na construção da música.

Uma liberdade que não “miou” na madrugada, deixará muitas saudades aqui em casa. Mia.

MIA — Janeiro de 2012 / Setembro de 2014
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