A mídia internacional e o posicionamento europeu na Guerra da Síria

A análise recente dos principais jornais do mundo sugere dúvidas, oportunismo político, e nos ensina mais de uma lição

Os atentados de Paris do dia 13 de Novembro fizeram com que cenário bélico mundial se mostrasse de maneira muito mais expressiva na imprensa. Se bem é certo a Europa já se preparava para tal conjuntura com a chegada massiva de milhões de refugiados e os posteriores bombardeios na Síria por parte da França em Outubro –que, por sua vez, já se encontrava em estado de alerta máxima desde Janeiro– também é certo que, como consequência, despertou-se nos europeus um sentido de solidariedade e defesa a partir do qual o conflito ganhou, novamente, notoriedade e interesse.

Criar uma narrativa de urgência no imaginário popular em base a eventos catastróficos que beneficie aos governos ou jogue com o sentimento da população parece ser tarefa fácil. Qualquer um acreditaria, por exemplo, que a França está reagindo legitimamente aos ataques que aconteceram em seu território e que, ademais, deveria fazê-lo –ignorando que a campanha francesa em apoio aos EUA na Síria já havia começado, ou que seu parlamento aprovou os bombardeiros contra o Estado Islâmico logo após aos ataques à revista Charlie Hebdo e ao supermercado kosher, no começo deste ano.

Em tempos de comunicação híper-veloz a memória é fraca. É difícil manter uma cronologia dos fatos a menos que se esteja muito interessado, e é quase impossível que os sentimentos de solidariedade e vingança se consolidem no grande público por mais de uma semana. Isto complica enormemente o trabalho da imprensa: em meio à precariedade de informação surgem também os pedidos de apoio popular à guerra, e a exigência de posicionamento dos governos.

Nos últimos dias, foi exatamente isso o que vimos no intenso, e não menos controverso, fluxo de notícias. Vejamos:

1. “Esta é uma guerra de ideias”

Assim afirmava um artigo do jornal britânico The Guardian do dia 15 de Novembro, bem como este artigo do francês Le Figaro (“A guerra se ganhará também nas mentes”) no dia 18. A retórica central –nada original, por certo– é que certas sociedades orientais “ainda vivem na Idade Média”.

Não há dúvidas que se comparamos as sociedades ocidentais com algumas sociedades muçulmanas encontramos discrepâncias de valores, não só em termos de organização política ou de direitos sociais. Porém, na comparação podemos encontrar parecidos indesejáveis, como as pretensões “universalistas” do islamismo radical e também da cultura ocidental globalizada.

Nestes discursos, ademais, existem outros “valores” que ficam aparentemente encobertos e que fazem parte do leque “moral” do Ocidente, como a parafernália bélica que garante seus interesses geopolíticos, econômicos e estratégicos motivados pela quinta-essência do capitalismo, o lucro.

Em uma “guerra de ideias” estabelecem-se debates e nosso único arsenal é a consistência lógica dos nossos argumentos. O fácil apelo emocional pela “democracia” pretende esquecer que o que a Europa, Russia e EUA fazem na Síria é nada “democrático” e querer justificá-lo deste modo é, portanto, falaz.

2. “Não se pode esperar”

Esse é o título do editorial do El País do dia 25 de Novembro de 2015. Aqui, o jornal pede que o governo do Presidente Mariano Rajoy explique seus planos em relação à empreitada francesa. É interessante constatar que, no dia anterior, Iñaki Gabilondo, respeitado jornalista espanhol, diz em sua coluna (“Devemos atuar militarmente contra Daesh?”), que apesar de ter sido contra à participação espanhola na guerra do Iraque em 2004, agora apoia a intervenção, pois a Espanha encontra-se diante de uma grande ameaça. Ressalta, para os que sentíamos falta da sua sensatez, que o conflito deveria ser resolvido entre os muçulmanos.

Uma ideia parecida encontra-se no artigo de John Carlin (“Por que não podemos nos entender todos bem?”) onde questiona o papel da esquerda no debate sobre o conflito. Aqui, chama-se os governos ao ataque pelo perigo iminente. Diz também que o posicionamento ideológico é indiferente quando o terrorista está na nossa frente a ponto de matar-nos.

A narrativa de urgência pode parecer suspeita para um jornal de tradição crítica com o Governo como o El País. A Espanha, no entanto, encontra-se em período pré-eleitoral. Qualquer movimento brusco poderia prejudicar a candidatura do Partido Popular às eleições presidenciais do dia 20 de Dezembro. O Governo responde que não será o El País que determinará a sua posição e nega pedido formal de intervenção por parte da França.

Vemos aqui um El País, jornal de centro-esquerda, tomando uma postura totalmente pró-guerra, enquanto seu concorrente ideológico, El Mundo, adota uma perspectiva muito mais moderada. Quem diria!

3. Debate e soluções

Enquanto os franceses se concentram em discutir a restrição das liberdades que acarreta um Estado de Exceção, alguns jornalistas tentam buscar soluções ou argumentos que ajudem a decidir o destino do conflito e os posicionamentos dos governos.

Vemos o caso do artigo do John Bolton para The New York Times (“Para derrotar o Estado Islâmico: Criar um Estado Sunita”, 25/11/15) onde se sugere abandonar as fronteiras criadas após a Primeira Guerra Mundial e apoiar a criação de um Estado Sunita em detrimento da Democracia.

Outro exemplo é o artigo de John Carlin no El País (“Bombardear ou não bombardear?”, 27/11/15), onde aponta os prós e contras da intervenção britânica no conflito, já que a polêmica está no Parlamento.

4. A informação ainda é precária

Apesar de que a mídia peça o apoio incondicional da cidadania e exija resposta aos governos, exibe ao mesmo tempo de forma confusa o contexto geral da guerra na Síria. O que sabemos? Não muito. O papel de cada nação na conjuntura é, obviamente, muito opaco. Exemplos:

A Turquia faz fronteira com a Síria e é rota de milhões de refugiados. Sabe-se que o Governo turco é islamista e se beneficia do petróleo que o Estado Islâmico vende.

Além disso, acaba de atacar um avião russo dizendo que seu espaço aéreo foi invadido por 17 segundos. Comenta-se também, que o Estado Islâmico lucrou com tráfego de refugiados que passa pela Turquia mas que, de maneira contraditória, repudia aos mesmos por não serem verdadeiros muçulmanos.

A presença do Estado Islâmico para a Turquia também é interessante pelo conflito com o Curdistão, repressão por parte dos turcos que até hoje se arrasta na história da região. Sabemos que são os curdos os que combatem o EI por lá.

Nos últimos dias, alguns jornalistas foram presos na Turquia por espionagem após denunciarem a colaboração do governo com os yihadistas. A Turquia é aliada dos EUA e da Europa e tem um papel central na crise dos refugiados.

A Arábia Saudita é wahhabista, uma corrente sunita que se caracteriza pelas suas pretensões universais e a implantação da Sharia. Se distingue de outros grupos pela sua radicalidade e gera conflitos internos na comunidade muçulmana, já que castiga-se a ofensa religiosa –ao que consideram o “verdadeiro” comportamento religioso- com pena de morte.

Esse movimento, aparentemente, não só inspirou ideologicamente ao Estado Islâmico como o financiou. Neste sentido, o papel saudita é duvidoso, tendo em conta que a Arábia Saudita tem bons sócios europeus, entre eles a Espanha, da qual compra armas.

Os Estados Unidos são os líderes da coalizão ocidental e tratam de minimizar, segundo dizem nesta entrevista coletiva publicada pelo Departamento de Defesa, os “danos colaterais”. Países como a França ou a Dinamarca atacam alvos já escolhidos no processo de bombardeio estabelecido pelos americanos.

Determinaram também que o petróleo que vende o Estado Islâmico é considerado “ilegal” quando é transportado em caminhões, e avisam aos civis com 45 minutos de antecedência dos bombardeios. Afirmam que mantém contato diário com os russos, mas somente para entrar em acordo a respeito do espaço aéreo.

A Rússia, que já teve seu conflito com o Império Otomano no final do século XIX, apoia o governo de Bashar Al-Assad, alauíta, grupo minoritário e laico em seu país. Implacável com a ameaça turca, além de tomar medidas econômicas contra a Turquia, Rússia acaba de transportar a Síria um equipamento defesa capaz de proteger em diferentes níveis espaço aéreo. Depois da queda o avião no Sinaí e do caça derrubado pelos turcos, os russos estão investindo pesado.

A família de Bashar Al-Assad governa a Síria desde a década de 70. Sua esposa, Asma Al-Assad, é analista do Deutsche Bank e do JP Morgan. A Síria, apesar do conflito militar com o Líbano, tem o apoio do Irã e do Iraque. Entrou em guerra civil em 2011, na Primavera Árabe, por reagir violentamente contra manifestantes. Desde então, o Ocidente pede a sua saída do governo.

Tendo em conta que as fronteiras da zona –rica em petróleo– são decorrentes do desmantelamento do Império Otomano e surgiram de acordos anglo-franceses após a Primeira Guerra Mundial, não é de surpreender a constante presença ocidental na zona.

No entanto, a controversa intervenção de alguns países colocam em evidência todo um sistema de acordos e alianças que talvez somente recorrendo à história poderíamos chegar a entender. Como vimos, a informação da imprensa é fragmentária e impulsa interesses regionais.

Sendo assim, temos mais perguntas que respostas. Qual o verdadeiro papel da França neste conflito? Que interesses tem a Espanha e o Reino Unido? É certo que o Estado Islâmico surgiu do poder adquirido pelo controle das armas dadas aos “rebeldes” na Primavera Árabe? Ou quem sabe surgiram da retirada das tropas americanas do Iraque por parte de Obama? Seriam os mesmos que criaram o conflito no norte do Malí em 2013, com a tentativa de independência do Azawad, e mais de vinte nações envolvidas militarmente? Será que o Estado Islâmico, que é bom para uns e ruim para outros, foi um projeto Ocidental que deu errado? Ou será que, dentro da comunidade muçulmana sunita, está dando certo?

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