Mulher na política? Sim. Mulher onde ela quiser.

“Revolução em Dagenham”, de Nigel Cole

Os escândalos de assédios sexuais em empresas de tecnologia (como o caso com a Uber e o mais recente, com Dave McClure, que terminou em sua demissão) me chamaram a atenção para falar sobre esse cenário: a mulher no trabalho.

É primitivo, mas ainda existe sim a expressão “Ah, mas esse ambiente é muito masculino, não é?”. Meus queridos, essa expressão não deveria existir em pleno 2017, sabe. Mas infelizmente existe.

Quando eu decidi trabalhar com política, o cenário era claro: predominantemente masculino. Secretárias (poucas) mulheres, chefes homens. E eu cheguei para ser coordenadora da comunicação da minha primeira campanha. O quanto é difícil uma mulher conseguir respeito em ambientes como esse? Você precisa comprovar sua competência muito mais do que os homens para que seu trabalho seja valorizado. E mesmo assim, por muitas vezes, ele não é valorizado o suficiente.

Nos primeiros dias, poucos me conheciam, poucos me respeitavam. Era preciso ter o chefe homem ao meu lado para que minha voz fosse escutada e mais do que isso, que minhas tarefas fossem seguidas. Me disseram pra eu me vestir mais seriamente, pra eu usar óculos de grau que me envelhecia, ou pra eu simplesmente deixar de ordenar e pedir para que um homem fizesse por mim. Comentários inaceitáveis.

Um dos comportamentos que mais me incomodavam era o fato de eu ser chamada de menina. O João, o José, o Carlos, o Pedro tinham nome. Eu não. Eu era a menina da comunicação. ‘’Oi menina’’, diziam. ‘’Sabe a menina da comunicação?’’. Até que um dia, depois de engolir por muito tempo essa diminuição, eu reagi: “É Danielle, não menina. Não o chamo de menino. Tenho nome e sou mulher. E coordeno a comunicação”. Lógico que não acabou de imediato essa mania louca de chamar mulheres por um substantivo comum. Continuava algum mocinha, menina, garota, etc. Mas se impor é importante para começar a mudança.

Atitudes machistas são constantes, e as principais delas são quase impercebíveis: a constante interrupção de falas, falta de atenção à ideias propostas por mulheres e até explicações óbvias de um determinado assunto.

Durante as reuniões empresariais é comum que os homens falem mais e interrompam as mulheres com mais frequência. Viram o que fizeram as assistentes mulheres que trabalhavam com o ex presidente dos EUA, Barack Obama? Juntas, elas criaram uma estratégia: quando uma mulher está falando, as outras ficam atentas para que nenhum homem as interrompa ou proponha ideias já levantadas anteriormente. Quando isso acontecer, diga que não terminou sua linha de raciocínio. Faz a diferença.

Ficar horas ouvindo explicações sobre um tema que você já sabe, já que trabalha na área, é outro modo comum de machismo. O famoso mansplaining. É importante dizer que você conhece aquele tema. Mostre que você domina o assunto e sabe bem do que está falando.

Com o tempo, as coisas foram evoluindo. Consegui mudar (algumas) pessoas que trabalhavam junto a mim. Pois bem, se continuo aqui é porque consegui mostrar minha competência no assunto e provei que mulher pode trabalhar com política sim. E pode chefiar na política. E pode coordenar. Mulher pode muito mais, mulher pode o que ela quiser.

Homens, compreendam: mulher não é um objeto decorativo, não é um objeto sexual, não é um objeto e ponto. O respeito à nós começa em casa e se estende ao ambiente de trabalho, seja ele qual for. Não chame uma mulher de ‘’menina’’ nesse ambiente, ou de preferência, em nenhum outro. Isso nos rebaixa. Não insinue que ela não tem competência, que está naquele cargo por qualquer outro motivo. Isso é assédio moral. Não confunda as coisas. Nós mulheres conquistamos nosso espaço e ainda há muito para conquistarmos. Podemos ser engenheiras, motoristas, cobradoras, designers, programadoras, CEO, CCO, consultoras políticas e o que mais nós quisermos ser.

E agora falando de mulher para mulher, sigamos unidas! Não rebaixe ou julgue a outra. Sororidade é o que precisamos para nos manter fortes e conquistar cada vez mais espaço nesse mundo que ainda — pasmem — é machista.