Deus e o Diabo (não tem lugar) nas Olimpíadas

Neymar é vítima do “mimimi” de um mundo cada vez mais chato

Que mundo chato é esse mundo moderno.

Depois de conquistar a primeira medalha de ouro, “menino” Neymar ostentou sua velha conhecida faixa de “100% Jesus”. Nada mais natural — o rapaz é evangélico desde criança. Como muitos homens antes dele, o cara quer louvar sua divindade. É natural do homem a gratidão manifestada em atitude religiosa. É um elemento comum a todas as culturas do mundo.

Mas o mundo moderno é um ponto fora da curva. Daqui há séculos, se lembrarem de nós, seremos estudados como a “Era do Mimimi”. Tomara que não lembrem.

Aparentemente o Comitê Olímpico Internacional (COI) proíbe manifestação religiosa na cerimônia de entrega de medalha. O COI vai mandar uma carta de reclamação à delegação brasileira pelo ocorrido. Sim, você leu bem: o COI vai dar uma bronca por causa da faixa do Neymar! E qual o problema nisso?

Os Jogos Olímpicos trazem em si uma proposta de união dos povos. Colaboração internacional. Fraternidade. Culturas diferentes convivendo lado a lado. Não passa pela cabeça dos membros do COI que impedir um homem de louvar seja lá o que ele acredita por uma vitória empobrece isso? Que é uma violência a um crente?

Pessoas têm crenças. A religião, principalmente, molda a vida de um homem. Esses atletas são quem são (e conquistam o que conquistam) por causa do elemento religioso neles. Ainda que isso se manifeste numa ausência de credo. E a medalha é dele. Ele conquistou e ele quer agradecer a sua divindade. O suor e o esforço são dele para ele ofertar isso a quem quiser.

Não há como dissociar Neymar de sua fé

Vou mais longe: limitar as manifestações religiosas no jogos Olímpicos fere a sua proposta. Não dá para fomentar uma fraternidade entre os povos se você quer forçar a barra e coibir gestos públicos de fé. Não seria autêntico. Eu não posso conhecer verdadeiramente o cara do Cazaquistão se não sei no que ele crê. Quem ele é. E não poderei ter um pouco de boa vontade com ele sem conhecê-lo verdadeiramente.

Não dá para simplesmente botar diferentes povos num grande cercadinho e falar “brinquem direito”. A paz verdadeira é construída em meio ao conflito de crenças. Não maquiando isso.

Não dá para haver paz entre os povos se quisermos eliminar as diferenças

Mas o mundo moderno — cujo o COI é humilde secretário — tem essa visão simplista do homem. Tenta relegar o elemento religioso ao foro íntimo. Na verdade, tenta esconder o elemento religioso, porque tem medo dele. É talvez o elemento mais complexo do homem. Talvez o mais significativo dele. Configura seus valores. Molda sua personalidade. Dita seus hábitos. Alimenta suas paixões e ânsias. Diz ao homem pelo que viver e pelo que morrer.

Muito problemático. Fonte de muitos conflitos. Não combina com a modernidade laica (na verdade, laicista). É um mundo que quer ordenar tudo “na marra”. Tira as burcas e esconde os crucifixos. Daria muito trabalho tentar dialogar, entender e agregar. Olha como o país origem da modernidade, a França, está tendo problemas com o Islã. Olha como os comentaristas da mídia se enrolam com o Estado Islâmico. O grupo terrorista tem “Islâmico” no nome dele, mas a mídia não consegue associar a óbvia relação do terrorismo com a religião islâmica. Porque isso implicaria em um esforço para tentar entender o islão. Dá trabalho. Dá medo.

A modernidade tem medo de qualquer coisa maior que ela. Aí vê no atleta com uma faixa “100% Jesus” um problema “do mesmo tipo” que o do terrorista que tá se lixando para os direitos humanos e mata infiéis. E normalmente pune o primeiro, que é mais inofensivo.

Consequência disso: é uma sociedade neurótica que quer controlar o elemento religioso na base da lei. Essa frescura do COI em impedir o cara de manifestar religiosidade ao ser campeão é sintoma da mesma doença que proíbe por lei o “burkini” na França (ou seja — proíbe na prática as muçulmanas de irem à praia). A mesma França — sempre ela! — que proíbe uso de burca e crucifixo em escolas públicas. É o controle social do elemento religioso. Não é por acaso que o auge da modernidade coincide com o apogeu de Estados Totalitários. Sempre ateístas. Sempre criando “igrejas” estatais. Sempre perseguindo religiões organizadas.

Mas não há como a sociedade controlar o elemento religioso do homem. Até porque é esse elemento que molda muitas vezes a cultura da mesma sociedade. Vem antes dela. Molda-a. Um exemplo irônico disso é lembrarmos a origem dos jogos Olímpicos. Por que eles foram criados mesmo?

Para louvar a Zeus.

Os caras criam um evento para louvar a Zeus e nego quer proibir manifestação religiosa nele!