A transferência das relações tradicionais de trabalho para formas alternativas de se trabalhar e ganhar dinheiro

Criadores de conteúdo usando ferramentas novas mas aplicando modelos velhos

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Recentemente eu decidi me inscrever no patreon. Sim, agora você pode investir em minhas ideias! :) E estudando como a plataforma funciona, eu fiz algumas constatações que me deixaram intrigada.

Como funciona

Crowdfunding ou financiamento coletivo, é:

Você investe dinheiro em algum projeto para que o idealizador consiga transformar a ideia ou o protótipo em algo que possa efetivamente ser comercializado. No crowdfunding você financia a criação de um produto final. Em troca do seu investimento, o responsável pelo projeto te dá alguns brindes: se for um livro, por exemplo:

  • você pode receber um livro autografado;
  • receber o livro antes de ele ser comercializado ao grande público;
  • poder conversar com o autor por videochamada e conhecer mais de perto as ideias do seu autor favorito, etc..

Sites conhecidos de crowdfunding são: kickstarter, vaquinha e indiegogo.

Essas premiações são organizadas de acordo com o valor doado pelo investidor. Quanto mais você doa, melhor o brinde. Vamos pensar assim: um valor pequeno, valor médio e um valor alto. Se você doa um valor pequeno você recebe um brinde como agradecimento pelo seu investimento, se um valor médio você recebe alguma interação com o autor e se um valor alto você recebe a interação com o autor e mais um produto customizado. É um mero exemplo. Essas premiações são coerentes quando pensamos em financiamento coletivo pois nele há um valor total a ser obtido e um prazo para a obtenção desse valor, pois o autor quer que sua ideia ou protótipo saia, finalmente, do papel. Então nada mais justo que um incentivo para que as pessoas doem e para que elas doem valores altos.

Patreon e apoia.se são plataformas diferentes, chamadas de financiamento recorrente, onde quem está lá tem objetivos diferentes:

Esses sites permitem que pessoas apoiem o trabalho de outras pessoas pagando um valor que pode ser mensal ou por criação de conteúdo. Basicamente o que você faz nessas plataformas é investir num projeto que já está sendo produzido, disponibilizado ou comercializado. Você financia a manutenção do projeto, por exemplo: os custos de hospedagem, pagamento dos profissionais envolvidos, aquisição de materiais novos, custos pessoais, etc..

Em financiamento recorrente, você quer que alguém invista em sua ideia continuamente. Não existe a expectativa de haver um fim. O que você realmente quer e precisa é fidelizar seu público para que ele continue investindo no que você já faz. Ou seja, oferecer premiações ou recompensas não faz sentido algum.

Para que você entenda onde quero chegar, vou listar algumas das premiações que eu vi para determinados valores nas plataformas de financiamento recorrente:

  • $5, direito a participar de um grupo exclusivo no Facebook;
  • $5, acesso ao roteiro;
  • $5, wallpapers;
  • $1, participar dos streams no Patreon;
  • $10, escolher o tema do vídeo a cada 6 meses;
  • $10, áudio exclusivo;
  • $20, participar de um hangout ao vivo com outros membros;
  • $50, jogar jogos da steam com a pessoa em questão;
  • $50, divulgação do canal no canal da pessoa em questão;
  • $50, adesivos;
  • $100, escolher o review de um livro (a pessoa lê e faz um review do livro);

Meu ponto é: Você vem fazendo um trabalho tem um tempo, decide se dedicar integralmente a esse trabalho e precisa de dinheiro para se manter. Nesse período que o seu trabalho era tratado quase que como um hobby, ninguém opinava na sua forma de produzir, ninguém te pressurizava sobre a quantidade de conteúdo a ser produzido e nem sobre o prazo para entregar o seu trabalho. Seu trabalho fluía pois era zero pressão.

A qualidade da sua produção tem melhorado cada vez mais porque você adquiriu habilidade e porque organizou o tempo que irá dedicar ao trabalho de acordo com a sua rotina e suas obrigações.

Aí você cria premiações no financiamento recorrente que te dão uma infinidade de obrigações e de relação de pressurização com o seu investidor. O seu hobby agora é praticamente um trabalho tradicional e você tem um “vínculo empregatício” com o seu investidor não muito diferente dos vínculos tradicionais de trabalho.

Você precisa dar satisfação, você tem prazo para entregar trabalho, constantemente você precisa interagir com os seus apoiadores e até livros que eles decidem que você leia, você deve ler.

E foi você quem redigiu todas essas recompensas.


Por isso eu fiquei tão surpresa quando vi criadores no patreon copiando a abordagem do crowfunding e colando na plataforma. Se você quer dar sequencia ao trabalho que você já vem fazendo, você quer continuar da forma mais confortável o possível.

As pessoas não estão apenas pegando a abordagem do crowdfunding e reproduzindo no financiamento recorrente, elas também estão transferindo a relação patrão x funcionário para meios alternativos de se ganhar dinheiro.

Hoje felizmente muitos dos meus textos tem bastante aprovação. E isso só é possível porque eu não tenho ninguém opinando sobre como eu devo escrever os meus textos.

Se alguém começar a opinar ou a “participar ativamente” do meu processo de criação, a qualidade do meu trabalho vai cair. Por que vai cair? Porque eu trabalho bem sozinha. Foi assim que eu escolhi trabalhar. Eu não quero alguém dando palpite nos meus rascunhos, me dizendo quantos textos eu devo publicar semanalmente e sobre quais temas eu devo tratar. Se eu quisesse esse tipo de relação, eu não estaria no Medium, tampouco no Patreon, eu estaria escrevendo textos tradicionais em uma empresa bastante tradicional com relações patrão x funcionário bastante tradicionais. (que conste, eu já trabalhei assim)

Também me intriga quando as recompensas envolvem a interação com o autor do projeto. Ué, mas precisa pagar para interagir? Eu posso gostar da ideia da pessoa mas não necessariamente da pessoa ou gostar da pessoa, querer interagir com ela e não ter dinheiro para isso. Financiamento recorrente, geralmente, se trata de ideias que se transformam em conteúdo e você vai restringir o que há de mais urgente para você, criador: a interação com pessoas. Pessoas inspiram novas ideias.

Além disso, eu também vejo que esses autores estão reproduzindo o que já vem sendo feito por outras pessoas nas mídias tradicionais, que é o caso do meeting and greating, por exemplo.

Isso, ao meu ver, é pegar toda uma ferramenta nova para ganhar dinheiro, interagir com pessoas, produzir conteúdo, trabalhar e inserir um modelo velho e obsoleto de relação de trabalho, recompensa por doação e interação com os apoiadores.

As ferramentas — medium, patreon, kickstarter, youtube, soundcloud — são novas, mas os modelos que estão sendo reproduzidos são os mesmos que já vem sendo reproduzidos e que já se mostraram ineficientes para muitos casos.

A conclusão que eu quero chegar com esse texto é: não tente reproduzir as premiações do financiamento coletivo no financiamento recorrente. Não tente redigir recompensas que mais lembram as interações patrão x funcionário. Se você está atuando num meio alternativo de se produzir conteúdo e ganhar dinheiro, tenha ideias alternativas, dê recompensas alternativas, pense fora da caixa.

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Criatividade não funciona com pressão e não funciona com desconforto ou obrigação.

Dê valor ao seu trabalho. Não queira nivelar por baixo e nem queira construir uma relação onde os seus leitores/seguidores/apoiadores têm o direito de te cobrar e de minar sua criatividade.


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