Mais um ano…

Imagem: Pixabay / skeeze

Mais um ano se passou, e com ele, as mesmas promessas quantitativas apareceram. Que promessas são essas? São promessas em se ter mais, tirar melhores notas, ter mais amigos, alcançar mais pessoas nas redes sociais, conseguir um número maior de interações, bater recordes, superar — em números — para depois comparar e dependendo da situação, ser o melhor ou o pior. Eu vi - e por muito tempo fui uma dessas pessoas - muita gente desejando números maiores para 2017. E eu, dessa vez, fui na contramão. Pra mim, em 2017, eu desejo um ano bem medíocre. Medíocre significa mediano, mas o que é mediano? Oras, o que não está nem abaixo do aceitável e nem acima.

Indo mais a fundo, o que é medíocre? Medíocre é o mediano aos olhos dos outros. No final do ano, as pessoas gostam de recordar seus números. “Eu tirei 9 em matéria tal”, “Eu fechei o semestre da faculdade com percentual de rendimento de 8,5”, “Eu consegui dormir apenas 6h por dia”, “Eu fiz 282 amigos novos no Facebook”, “segundo o site tal, eu interagi com 12.580 pessoas em todas as redes sociais” (é possível estimar quantas pessoas você interagiu nas redes sociais, ao longo do ano? haha), “eu perdi 15kg nesse ano”. Isso é o que as pessoas costumam recordar e publicar em suas redes sociais quando o ano está acabando. E na perspectiva delas, isso é o melhor que elas podem fazer. Mas quer saber, na minha perspectiva, limitar-se a esse tipo de dado inverte a situação, as medíocres são elas, na verdade. Por quê? Simples: 365 dias se passaram, e a única coisa que você se recordou do seu ano e valorizou foi um número. Ainda que você tenha emagrecido, por exemplo, você está mais feliz com um número (-15kg) do que com a transformação que ocorreu na sua mente, nos seus hábitos, no seu emocional. Será que aconteceu alguma transformação efetivamente ou, de fato, a única coisa que a pessoa pode se apegar é a um numero?

Compreendem onde eu quero chegar? A pessoa investe em si o ano todo, para no final, usar um número como medida avaliativa de si mesma. Mas tratando-se de si, existem outros parâmetros avaliativos.

Você pode recordar situações. Uma situação que aconteceu no começo do ano e que se repetiu, de certa forma, no final do ano. Como você reagiu a essa situação? Você se comportou exatamente da mesma forma? Se sim, volte duas casas e recomece o jogo. rs Esse é apenas um exemplo, e seguindo esse raciocínio, percebemos que há várias formas de avaliar se melhoramos como seres humanos ao longo do ano. Deixe os números de lado. Números não dizem absolutamente nada sobre você. Quer alguns exemplos? Você tirou 9 na matéria tal? Que bacana, sabia que quem passou o ano inteiro colando dos amigos também pode ter tirado 9? Você conseguiu, ao longo do ano, 15 mil likes na sua página? Parabéns. Sabia que quem pagou por serviços que inflam o número de seguidores ou de likes conseguiu muito mais do que 15 mil likes? Você perdeu 15kg com a sua dieta nova? Sabia que uma anoréxica pode ter conseguido perder 35kg em 2016, e agora provavelmente está pesando 44kg? Cruel, né? E o mais cruel, ao meu ver, é que seja quem obteve números de forma legítima e quem os obteve de modo desonesto, sente-se igualmente satisfeito.

Números: ou você os têm, ou você não os têm. O meio utilizado para chegar até eles não interessa muito quando você apenas valoriza números.

Voltando a minha definição de medíocre: eu havia chamado essas pessoas que valorizam números de medíocres. E acho mesmo, pois se apegar a números como método autoavaliativo quando existem tantos outros, só pode ser mediocridade. Entretanto, algo que me chamou atenção, em 2015, foi quando um amigo firmemente me disse:
- Daniela, eu quero ter uma vida medíocre.
Eu acho que fiz uma cara sem graça por algum tempo, isso porque eu conversava pelo whatsapp, e depois parei de responder pra refletir sobre aquela afirmação. E sabe o que eu percebi a meu respeito? Como, naquele momento, eu temia a mediocridade. E é por isso que nesse final de ano eu desejei o que, aparentemente, as pessoas mais temem: a mediocridade. Pelo que eu vi na minha timeline, as pessoas ambicionam sempre (aos parâmetros delas) o excepcional, o fantástico, o inalcançável ou o muito próximo do inalcançável. E por que temer o medíocre? Muito provavelmente você, apesar de se achar excepcional, é só mais uma pessoa mediana, de conhecimento mediano, de vida mediana, de salário mediano, com notas medianas e, por mais que possa achar que suas ambições sejam excepcionais, talvez até elas sejam medianas.

Entende que, no final das contas, desejar para si o medíocre não difere muito do que ocorre de fato? Hoje, quando eu penso em medíocre, eu não penso em algo que não me agrade, que não me satisfaça, que não atenda as minhas necessidades, eu só penso em outras formas de me avaliar: não mais por números, mas por sentimentos, por recordações, por hábitos que eu construí e consolidei ao longo do ano. E isso, pra muitos, não tem valor algum. Quantos amigos, quantitativamente, eu fiz em 2016? Amigos mesmo, eu não sei, mas o que esses amigos me proporcionaram de autoconhecimento, de momentos que eu parei de conversar brevemente pra por a mão no queixo e pensar, de momentos que tive minhas crenças e meus valores questionados e de vezes que tive o apoio incondicional deles para dar sequência a uma ideia, essas situações que passei com eles não se quantifica e não se mede em números. Este tipo de acontecimento eu apenas sinto. Esse tipo de situação ninguém compara. Situações assim são situações que nós queremos guardar conosco, a gente não ostenta “olha, meu amigo me apoia mais que o seu”, “meu amigo me sugere mais livros e filmes que o seu”, “eu tenho a amizade dessa pessoa há 6 anos, portanto minha amizade é melhor que a sua”. Ninguém, felizmente, faz esse tipo de comparação. Essas situações ainda são situações que as pessoas contentam-se em sentir, sem precisar expor pra todos e comparar. E o mesmo vale para aprendizado. As pessoas podem comparar o número de livros que leram, mas as pessoas não comparam o conhecimento que adquiriram dos livros. As pessoas podem comparar as notas que tiraram na faculdade, mas não comparam o conhecimento que obtiveram dos estudos.

Então com esse texto eu faço duas propostas, propostas que eu fiz a mim: A primeira é perder o medo da palavra “medíocre”. Ser mediano não é um defeito, não significa que você se esforçou pouco, que você foi um preguiçoso, que dormiu mais do que deveria, que passou noites dormindo quando, na verdade, tinha que ter dado o seu sangue àquele projeto. Ser mediano não significa nada disso. Ser mediano significa assumir o que de fato nós já somos. E quando você realmente for excepcional, você será excepcional sem esforço adicional. A habilidade excepcional, o conhecimento excepcional, surge quando nós já não nos damos mais conta do trecho do conhecimento em que estamos. Enquanto você avalia em qual espectro do conhecimento ou da habilidade você está, você é mediano, quando você não tem mais acapacidade de avaliar, é porque, se você ainda não é, está muito próximo de se tornar excepcional em algo. A segunda proposta que faço é: esqueça os números. Procure outros parâmetros de autoavaliação. Nós só podemos nos comparar, e consequentemente nos tornar muito infelizes por isso, quando colocamos números na situação. “Ele tem 1,85m e eu tenho 1,70”, “ela pesa 65kg e eu peso 70kg”, “ele tirou 10 e eu tirei 8,5”, “ela leu 45 livros esse ano e eu li 10”. São os números que nos permitem fazer comparações infelizes. Então simplesmente ignore os números. Procure outras formas de se autoavaliar.

Uma nota pra quem discordar da minha sugestão: eu sou favorável ao uso de números como parâmetro de autoavaliação. Eu mesma me comparo com números. “ano passado eu li 7 livros, esse ano eu li 13”. Isto é uma comparação, e claro, há casos que fazem todo o sentido utilizarmos a comparação, livros são um exemplo, você pode perceber sua evolução na leitura. Agora, comparar o número de amigos que você tinha no Facebook em 2015 e que você passou a ter em 2016… hm.. que diferença isso faz, afinal? Ainda é um número vazio, que tem a finalidade maior de envaidecer e não de melhorar algo em você como ser humano. Outro exemplo: você pode comparar quantos km andou ao longo do ano. Isto pode te indicar o quanto você tem se mexido e o quão empenhado em sua vida fitness você está; agora, comparar quantas kcal/dia você comia no início do ano e quantas comia no final do ano…. não! Esta **pode ser e muito provavelmente será** uma comparação infeliz.

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