O que fazer quando você cai em queda livre?

Os eventos na vida me parecem compostos por altos e baixos. Às vezes vivemos momentos de ascensão que nos despertam até certa descrença. “Será que eu sou merecedor de tudo isso?”, “Será que isso realmente está acontecendo comigo?”, “Tá tudo dando muito certo, quando é que vai começar a dar tudo errado?”. Às vezes vivemos momentos estáveis, já adquirimos algumas boas experiências e tudo o que está bom permanece em ordem e tudo parece bastante previsível, gera algum conforto e alguma sensação de segurança. Mas por vezes tudo parece decidir desabar. É a fase do declínio. Quedas não são iguais: você pode cair e se deparar com o chão duro ou você pode cair em queda livre, numa queda sem fim aparente.
Eu também já cai algumas tantas vezes. Algumas vezes de cara no chão, outras eu fui pra queda livre mesmo, só parei de cair quando eu cheguei no meu fundo do poço. E cair na vida é como cair da bicicleta: se aprende. Você vai desequilibrar da bicicleta e cair; você vai ser golpeado numa luta e vai cair; você vai enfrentar um momento de declínio na sua vida, então aprenda a cair.
O quanto você está disposto a cair?
Qualquer situação de aparente declínio em sua vida precisa ser enfrentada com a seguinte questão: o quanto eu estou disposto a cair?
Quanto mais fundo você for, mais difícil será sair do buraco, mais energia será consumida para você se reerguer e maior será a sensação de que a sua vida precisará ser reconstruída.
Cair pode não ser opcional, mas o quão fundo você quer chegar é.
Identifique que tipo de queda você está enfrentando
Queda é um termo muito vago, você também pode chamar de desestabilização. Cair implica em levantar, desestabilizar implica em retomar o equilíbrio. São termos que dizem muito sobre a forma que enxergamos as adversidades da vida.
Toda adversidade exige um ponto específico de atuação. Força emocional, determinação e disciplina, persistência, foco, equilíbrio, etc..
Quando caímos, caímos porque a adversidade pegou em um ponto fraco nosso. Se estou em uma situação que exige equilíbrio emocional e eu não tenho equilíbrio, é evidente que irei desestabilizar e dependendo do quão instável emocionalmente eu seja, eu posso cair em queda livre.
Então perceba que tipo de força a situação exige de você e porque você ainda não desenvolveu essa força.
Em que você pode se segurar nesse momento?
Se a situação bate em um ponto fraco seu, esperar que você se apoie em si é pedir demais, então você precisa se apoiar em algo que possa te sustentar e assim você conseguirá resolver o infortúnio. Em que você pode se segurar nesse momento?
As últimas piores situações que eu passei, eu me apoiei na leitura, na música, em projetos meus e nos meus estudos (algumas vezes eu também me apoiei no álcool e no biscoito recheado, mas eu não recomendo que você se apoie em objetos tão instáveis e efêmeros). Eu penso que devemos aprender a nos apoiar em coisas que ninguém pode nos tirar. Podem até arrancar da minha mão o livro que estou lendo, mas o que o livro me transferiu de conhecimento e sabedoria, ninguém arranca. Não tente se apoiar em objetos que podem ser facilmente retirados de você e que te fornecem um alívio momentâneo. Pense em apoio como algo que te estrutura por dentro, que te fortalece para uma próxima.
Em quem você pode se segurar nesse momento?
E claro, pessoas. Quem está do seu lado nesse momento? Quem está lá por você? Eu gosto da frase “Estar lá por você” porque o “lá” é um lugar cheio de pessoas maravilhosas dispostas a ajudarem. Quem está te apoiando? Quem está te revitalizando? Quem te escuta sem julgar? Com quem você se sente confortável para confidenciar suas dores e seus pensamentos? Quem são as pessoas que permitem que você seja autêntico? — sem ter que pensar demais para falar, sem melindres e sem medo de ofender ou ser ofendido.
Identifique quem são as pessoas que te fornecem apoio e quem está lá o tempo todo. Não se apegue aos instáveis: aqueles que ora estão, ora não. Identificada essas pessoas, se aproxime delas e extraia a força necessária para seguir em frente.
Como a situação pode te beneficiar?
Fatalidades nos evidenciam grandes falhas em nosso comportamento, valores, hábitos, pensamentos, sentimentos, etc, etc.. É nas fatalidades que percebemos como nossa rotina, emprego, amizades, expectativas para a vida e tudo o mais estão equivocados.
Ninguém sofre para sempre. As dores passam e com elas ficam os aprendizados. Enxergue além da dor. Ter uma situação apontando para uma fraqueza sua pode te beneficiar de que forma? Quando tudo passar, em que você será mais forte? Que hábitos e comportamentos você irá se empenhar em mudar e transformar?
Que lição de vida você espera obter?
Lição de vida é algo muito simples: o que se aprende após o ocorrido? O que eu pretendo fazer e não fazer a partir desse evento? O que você espera e não espera da vida de agora em diante?
Se enxergamos as calamidades apenas como ocorrências que confundem o rumo natural da vida, a vida se torna um pouco mais difícil. Calamidades podem ser tratadas como uma oportunidade de crescimento. É claro que enxergar crescimento na calamidade vai depender muito da calamidade. Será que é possível enxergar uma oportunidade de crescimento na guerra? Ou em outras situações catastróficas?
Do que você pode se desfazer durante a queda?
Se você cai com a mão cheia de coisas, é mais difícil se segurar em algo no meio da queda. E se alguém te estende a mão? Como você agarra a mão da pessoa com a sua mão cheia? Ou então, se pensarmos em desestabilização e retomada de equilíbrio, como podemos nos equilibrar quando estamos segurando uma infinidade de pertences? É muito mais difícil.
Se você tem a expectativa de enfrentar uma atribulação do modo mais breve possível, se desfaça de tudo aquilo que não vai contribuir na hora que você conseguir se segurar em algo.
Um exemplo meu: semestre passado eu estava mal, eu não podia trancar a vida para continuar a faculdade, mas podia trancar a faculdade para continuar a vida. Foi o que eu fiz. Eu fiquei receosa com a decisão, mas depois de duas semanas longe da faculdade e sem as cobranças de prova, estudo, etc, eu senti como eu pude relaxar e me dedicar um pouco mais a mim. Eu finalmente me recuperei. E voltei pra faculdade esse semestre.
Do que você pode se desfazer após a queda?
Turbulências nos tiram da zona de conforto e nos dão a sensação de que estamos recomeçando do zero. Essa sensação de “eu não tenho um ponto de apoio” nos deixa mais corajosos para transformarmos as nossas vidas. Quando o sofrimento cessar, o que de errado na sua vida você poderá se desfazer? Às vezes temos relações com pessoas que nos drenam, às vezes o estilo de vida que criamos não nos faz bem, enfim, descubra algo que você pode se desfazer, que você constatou que não precisa mais e que, na verdade, nunca precisou.
Gerenciar muitos sistemas, muitas personas, muitos status, títulos, prêmios e rótulos é exaustivo. Às vezes você doa tanto da sua atenção ao supérfluo que quando o que realmente importa aparece, você está exausto. Se dedique ao que realmente importa.
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Se fortaleça
Quando você enxergar que o caos se reorganizou e que você já consegue navegar no meio dessa nova ordem, tire um tempo para criar e fortalecer a habilidade que a aflição te exigiu e que, naquele momento, você não tinha. Perceba outras fraquezas suas que surgiram e tire um tempo para descobrir como se tornar uma pessoa mais forte.
Você não consegue prever qual e quando será o próximo aborrecimento e nem se o próximo exigirá a mesma habilidade, mas você poderá desfrutar da companhia de uma versão sua muito melhor.
