Publique o livro de sua vida e seja você o leitor

Talvez você também goste de escrever: seja algo que você efetivamente publique com algum compromisso ou alguns textos aleatórios e descompromissados. Ou então, você pode gostar de escrever mas não tem a pretensão de publicar em lugar algum. Queira você tornar os seus textos públicos ou não, eu defendo que você deveria publicar um livro. Se desde 2010 você tivesse se empenhado em escrever diariamente, você já teria publicado 7 livros de no mínimo 365 páginas. Sem custos, sem pressão e com grande satisfação.


Num texto anterior eu comentei sobre o que eu chamo de ‘caderno de emoção’ que é onde eu anoto o que vier na mente e no coração. Eu também utilizo o caderno para me conhecer melhor: descobrir e redefinir meus valores, visualizar minhas metas nas mais diversas áreas e o que fazer para alcançá-las, trazer ao consciente meus hábitos e mudar os hábitos que não me agradam. E nesse texto quero me aprofundar sobre o assunto.

Há tempos que eu me comprometi a pegar todos os meus cadernos de emoção e lê-los. Dias atrás eu finalmente o fiz. E eu percebi algumas coisas:

  • Eu comecei a escrever em 2004, não foi uma tarefa sequencial. Passei alguns anos sem escrever, mas ainda assim meus textos me passam com clareza minha transformação. Eu entrei na adolescência, saí, entrei na juventude, saí e hoje estou na fase adulta. Todas estas fases estão presentes nos meus livros: minha relação conflitante com os sentimentos e até o meu desejo em não ter sentimento algum, meu primeiro esforço para sair da depressão, minha primeira busca pelo equilíbrio emocional and so on…
  • O mais intrigante é que ao ler um escrito meu de 13 anos atrás (13 anos!!!!!!) eu sinto como se eu estivesse lendo um texto de outra pessoa. Nesse tempo todo, a Daniela de 13 anos atrás não existe mais. Eu só sei que ela existiu porque ela sou eu e pelas memórias que eu tenho. Em 2004 eu escrevia muita poesia e letras de música, e quando eu as leio eu lembro em que cômodo da casa eu estava, o que eu sentia enquanto escrevia, o que eu desejava e o que me motivou a escrever.
  • Ler você mesmo, acompanhar sua vontade genuína por evolução (nos seus parâmetros de evolução), compreender seus erros e acertos é intenso. Eu leio poucas paginas do meu livro por dia porque é intenso, me desconcerta por completo. Se eu fico 40 minutos lendo, eu devo passar umas 2h refletindo a respeito do que li.

Além da minha experiência, vou enumerar alguns motivos para você publicar os livros de sua vida.

Como começar?

Sabe o tal do diário? Querido diário… A ideia é muito parecida com um diário: você escreve para você e não compartilha com ninguém. Escreva o que achar pertinente: conflitos, lembranças boas, inquietações, sentimentos que você não compreende, momentos que você quer eternizar no seu caderno, etc. Um exemplo meu: eu estava dormindo muito mal. Eu comecei a anotar a hora que eu ia deitar, a hora que eu acordava e como me sentia ao longo do dia: humor, fome, o que eu comia e porque eu comia, se eu sentia sono a tarde, como eu me sentia a noite, etc..

É assustador perceber como nossa impressão sobre nós mesmos nunca é tão boa. Você tem uma ideia sobre si e está sempre convicto daquela ideia, até que lê o que você escreveu e percebe que o que ocorreu de fato é completamente diferente da impressão que você tinha. Eu acreditava plenamente que eu dormia bem e que poucas horas de sono não me causavam problema algum, até que eu vi escrito e tinha sido escrito por mim. Quando você enxerga, você compreende onde está o erro e como pode consertá-lo.

No início pode ser difícil, pois sempre ocorre a pergunta: mas eu escrevo o quê? Então, é exatamente o que você quiser. Você leu um livro e ficou inspirado para escrever algo mas não quer publicar em lugar nenhum, anote no seu caderno. Você teve insônia e está incomodado por não conseguir dormir, reclame no seu caderno. Seu caderno será seu ombro amigo e sua lata de lixo.

Escreva um por ano

Separe um caderno em branco com folhas o suficiente para um ano inteiro. A melhor forma de organizar os cadernos é por ano. Ao menos pra mim é muito confuso quando em um caderno tem texto de 2004 e 2013. Se o caderno que você separou para o ano todo acabou, compre outro e continue nesse novo caderno. As folhas que sobrarem você pode arrancar, encadernar e fazer um caderno novo para o ano seguinte.

Você descobre seus padrões

Talvez semanas atrás você tenha tido uma atitude inusitada ou tomado uma decisão inédita e não compreendeu bem o motivo. No livro da sua vida de algum ano anterior é provável que você encontre uma anotação sua querendo conquistar algo ou tendo o mesmo padrão de atitude ou decisão. Você pode perceber que inconscientemente se moveu para conquistar o que queria ou pode apenas se dar conta que sua atitude não foi tão inédita quanto imaginava. Conhecer nossos padrões é conhecer o funcionamento do nosso inconsciente.

A primeira vez é mais difícil

Se você nunca escreveu para você, é provável que você tenha alguma dificuldade em começar. É estranho. Você tem um papel que você sabe que só você irá ler, uma caneta e um turbilhão de ideias, sentimentos, memórias e demais aflições querendo sair. Começa por onde? Põe data? E demais dúvidas tendem a surgir.

Você pode começar por onde achar melhor. Inclusive pode começar escrevendo que essa é a primeira página do seu livro ou do seu caderno de emoções e você não faz ideia alguma de por onde começar. Ou você pode começar anotando como espera que essa atividade ajude você a se tornar uma pessoa melhor ao final de um ano e o que você quer mudar para ser uma pessoa melhor. A data é sempre muito importante, algumas vezes eu anoto até a hora, mas não é comum. Descubra o que é pertinente para você para ser anotado.

No inicio, anote diariamente

É importante tornar a atividade uma parte de sua rotina. Enquanto ela não estiver bem consolidada, é importante praticar diariamente. Eu escrevo tem tanto tempo que já virou automático. Eu preciso anotar meus pensamentos e emoções. Virou uma necessidade. Quando não estou com o meu caderno por perto eu anoto no gmail e deixo como rascunho. Você pode fazer isso também: quando quiser anotar algo mas estiver sem o seu caderno, utilize algum aplicativo ou pegue uma folha e uma caneta e comece a escrever.

Você vê a solução na sua frente

Você se bate com um conflito seu e não enxerga uma saída. Faz uma anotação se lamentando da vida e de como o mundo é injusto. Uma semana depois você lê novamente o seu escrito e PÁ, a solução aparece na sua mente. E às vezes acontece coisa muito melhor: soluções para outros problemas seus começam a aparecer também.

Enxergar solução para problemas pessoais é igual exercício: quanto mais pratica em encontrar soluções e sair das situações de conflito, mais habilidoso você se torna.

Para que você escreve?

É importante que você construa o hábito de escrever pautado pelas soluções. Se você adquire o hábito de escrever para amaldiçoar o mundo e os seus problemas, escrever só vai contribuir para você afundar em mágoas. Você precisa escrever porque deseja sinceramente sair daquela situação — caso você esteja escrevendo sobre problemas.

E se você escreve sobre seus sucessos, é importante que você se paute pelo desejo de que boas situações sejam cada vez mais recorrentes em sua vida.

Escrever modifica as engrenagens do cérebro

O cérebro é uma máquina de repetições. E escrever auxilia para que as repetições boas sejam adquiridas e reforçadas. Por isso enfatizo: se sobre problemas, escreva pensando em encontrar soluções ou em superar a situação caso não haja uma solução; se sobre sucessos, escreva de modo a cultivar as boas situações de sua vida.

Parece conselho de coach, né? Eu sei, eu também torço o nariz para conselho de coach, mas eu não posso negar que essa tarefa ajuda o cérebro a mudar sua chave de pessimista para otimista.

Segundo os autores Chip e Dan Heath, o cérebro realmente tende a se apegar mais as situações ruins do que as boas. A mente humana valoriza mais os defeitos do que as qualidades, ainda que as qualidade estejam presentes em maior quantidade. Ou seja, mais um motivo para você escrever no seu caderno de emoções: combater o defeito natural da mente humana de se apegar a situações negativas.

Um script para a sua vida

Eu chamo de caderno de emoções porque geralmente utilizo meu caderno para externar minhas emoções, mas também o uso para fazer um roteiro sobre minha vida. Há tempos que eu venho falando sobre “a pessoa que eu quero ser”. E quem eu quero ser? Como a pessoa que eu quero ser se comporta, pensa, sente e interage com o mundo? Tudo isso pode ser inserido no seu caderno da vida. Sim, o seu caderno pode ser um espaço para você fazer um rascunho, um ensaio sobre a sua vida daqui alguns anos.

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Com a onda dos coachs, o ser humano passou a ser tratado igual empresa: planos, metas, ambições, etc, etc, mas podemos voltar ao velho discurso de ensaio e rascunho. Como você quer agir amanhã em determinada situação? Que tal fazer um rascunho sobre suas ações de amanhã? Que tal começar agora?


Enfim, tudo cabe no seu caderno de emoções. E eu mais do que reforço que você deve começar a escrever para você mesmo. Essa atitude também reforça a sua relação consigo mesmo. O quão confortável você sente consigo mesmo? O quão sincero consigo você costuma ser? Você consegue dizer a si mesmo o que sente o que pensa? Você é o seu melhor amigo? Você pode exercitar sua amizade consigo mesmo escrevendo no seu caderno de emoções.