Quem inspira quem te inspira?

Daniela Amadeu
Jul 28, 2017 · 5 min read
Pixabay / DariuszSankowski

No Medium há uma discussão indireta entre autores sobre a quantidade de livros por ano que deveríamos ler. Alguns defendem que devemos ler 200 livros por ano, outros afirmam que se lêssemos 10 livros por ano, contanto que fossem clássicos, valeria muito mais do que ler 100 livros rasos e com conteúdos diluídos.

Eu estou desde fevereiro ou março para fazer esse post: Quem inspira quem te inspira? E acompanhando essa discussão sobre quantos livros os autores acham que eu devo ler, eu consegui a conexão necessária para prosseguir com o post.


Os autores querem vender

Quem escreve textos discutindo quantos livros você deve ler pertence a um nicho e dentro desse nicho, quer vender suas ideias. Para que esses autores consigam evidência — dentre tantos outros abordando o mesmo assunto — é preciso dramatizar o tema tratado. Um post defendendo que você deveria ler 30 livros por ano? Não chama a atenção. Mas um post falando que você deveria ler 200 livros por ano, hm, isso chama bastante a atenção.

Tem muitos autores aqui no Medium que eu gosto muito, leio quase que religiosamente, mas minha desconfiança sempre fala mais alto na hora de tomar as palavras deles — e até mesmo os atos que eles supostamente põe em prática — como verdade.


10 clássicos ou 100 livros rasos?

Tudo o que os livros atuais abordam é uma compreensão bastante aguada acerca do que os clássicos já tratavam décadas e séculos atrás.

Pegue um clássico e o transforme em 10 novos livros, para que isso seja possível, é preciso diluir o conteúdo.

Dos últimos livros que eu li, eu percebo que todos citam algum autor muito antigo, basicamente os últimos livros que eu li tiveram os clássicos como fonte de inspiração. Vou citar alguns, caso seja do interesse de alguém:

Timothy Ferriss se inspira nos estoicos;

Susan Cain cita Jung em seu livro sobre introversão;

Mark Manson se inspirou na vida de Bukowski para escrever The Subtle Art of Not Giving a Fuck;

Alfie Kohn cita Peter Kropotkin;

Susan Cain, Alfie Kohn e Elaine N Aron citam Jerome Kagan;

Erwin Schrodinger cita Espinosa e Kant em seu livro O que é a vida? — até os gênios necessitam de inspiração.

Ninguém se constrói sozinho, todos precisam de uma inspiração.

Os livros atuais de business, autoajuda, motivacionais e mais essa leva toda de categorias literárias modernas foram inspirados nos precursores da época. Eu percebo como meu interesse nos livros está muito conectado, pois se for ver minha lista de livros lidos e para ler, quase todos os autores citam algum autor que é referência num determinado assunto.

Um exemplo que eu achei bastante interessante: em algum momento do ano passado eu adicionei no ‘para ler’ alguns livros do Peter Kropotkin e esse ano, lendo Alfie Kohn — No Contest The Case Against Competition, eu percebi que ele faz citação ao autor. Ou seja, eu não estou lendo diretamente o autor, mas lendo alguém que o leu, que teve o mesmo interesse que eu pelo assunto.

Eu li outros três livros que citam Jerome Kagan, então em minha percepção é como se, em vez de eu ter lido três livros, eu tivesse lido apenas um. Talvez se eu pegar um livro do Kagan, ele vai abordar os mesmos assuntos que os outros três abordaram.


Esse ano eu me comprometi a ler 30 livros. Mas agora, após toda essa reflexão que se caracteriza no texto acima, eu tenho pensado: vale mesmo ler 30 livros? Porque, pense comigo: leia 30 clássicos em um ano e veja o efeito que esses livros terão sobre sua mente, valores e comportamento. Agora, leia 30 livros atuais e veja se o impacto e se o efeito serão os mesmos. Aliás, alguém consegue ler 30 clássicos em um ano?

Eu acho muito difícil ler 30 clássicos em um ano. Explico: clássicos são difíceis de serem compreendidos. Clássicos exigem um tempo de reflexão. Clássico não é aquele livro que você lê em um único dia. Se você lê um clássico em um dia, eu me pergunto honestamente se você consegue digerir todo aquele conteúdo profundo e inquietante em um único dia. Se você conseguir, eu já me adianto e peço desculpas pelo julgamento precipitado.

Eu tenho dificuldade em digerir um capítulo em um único dia. Às vezes, após terminar um livro, eu não consigo de imediato começar um novo porque eu preciso passar alguns dias refletindo acerca daquele livro. Livros instalam softwares novos na mente e removem softwares obsoletos. Quando eu termino um livro, eu passo a operar de um novo modo, então até eu me acostumar a ser uma nova eu, toma tempo. Eu leio para ser uma pessoa melhor, por isso preciso de tempo para digerir tudo o que leio.


Voltando ao assunto:

E os livros rasos falham nisso. Por que há essa cultura de “leia 100 livros por ano”? Porque os livros atuais são de fácil digestão. Os livros atuais são o carboidrato refinado. Os clássicos são aquele contrafilé bem gorduroso que te sacia por 6 a 8 horas.

Mas nem tudo se resume a criticas, fique em paz. Eu só conheci os clássicos e me interessei por eles por causa dos livros diluídos que li. E acredito que o mesmo tenha acontecido com muitos outros leitores. Que bom que os livros atuais citam os clássicos abertamente, que bom que os autores falam claramente: “foi o autor do clássico tal que me inspirou a redigir esse livro.” Graças a essa referência que podemos nos interessar pelos clássicos. E os livros modernos tem seu benefício: a linguagem deles é atualizada, é de fácil compreensão. Às vezes pode ser melhor entender um clássico sob a perspectiva atualizada de um novo autor.

Ler 100 ou ler 10: eis a questão.

Nem todos os clássicos são de fácil compreensão, portanto talvez seja melhor permanecer nos livros que foram inspirados pelos clássicos e compreender o tema tratado do que se apegar ao clássico e ficar sem entender. Como resultado sua quantidade final de livros lidos será maior, já que é muito comum um mesmo clássico inspirar vários outros autores.

Mas invista seu tempo lendo os clássicos, pois o que um autor diz sobre um clássico é completamente diferente do que sua compreensão dirá sobre o clássico lido.

Clássicos causam desconforto

Eu sou uma grande fã da sensação de desconforto. Clássicos incomodam, clássicos me fazem ver que minha concentração não é tão boa quando o conteúdo exige a minha mais profunda concentração, clássicos me fazem reavaliar meu inglês e meu português. Clássicos me causam desconforto emocional e psicológico. Clássicos instalam novos softwares em minha mente.

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Livros atuais fazem isso também, com menor frequência e com menos impacto.

Invista nos clássicos. Invista no desconforto e no aprendizado. E, principalmente, procure se inteirar sobre quem inspira quem te inspira.

No final, você vai se orgulhar mais da pessoa que você se tornou graças aos livros que leu do que da quantidade de livros que leu.

Daniela Amadeu

Written by

Autora do e-book Descobri que tenho transtorno bipolar. E agora? Baixe já: https://bit.ly/2EFRqUI

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