Eu fui sozinha em um evento de TI

Os últimos dias foram cheios. Muito cheios! Nas últimas duas semanas, participei de pelo menos 6 encontros na área de tecnologia (entre eventos, workshops e meetups). Isso é uma conquista pra mim que, por muito tempo, me abstive dessas reuniões para não ter que lidar com situações constrangedoras (para não dizer coisa pior) que muitas vezes nós mulheres estamos sujeitas nestes ambientes.

Não vou escrever sobre todas essas experiências aqui. Talvez algumas delas rendam outras histórias… Hoje eu quero compartilhar uma em especial: a primeira vez que eu fui em um evento de tecnologia desacompanhada.

Definitivamente, não foi o primeiro evento do gênero que participei, mas foi o primeiro (que NÃO é direcionado para o público feminino) que eu fui sozinha.

Cheguei com a cara, a coragem e um certo embrulho no estômago.

A chegada

Na entrada tinha vários homens. Alguns formavam rodinhas de conversa e estavam bem distraídos. Outros estavam sentados numa escada formando um espécie de paredão.

Observavam as pessoas que entravam.

Confesso que fiquei feliz pela escada ter poucos degraus. A cada passo meu desconforto crescia exponencialmente. Por alguns instantes eu me tornara o centro de atenções indesejáveis.

É como ser uma presa que acaba de ser notada, mas não tem certeza se o predador já se alimentou ou se ela vai ser o jantar.

Sei que muitos olham como se fosse a coisa mais natural do mundo, mas não é. Ainda tem os que digam "eu só estava admirando" e que deveríamos encarar esse tipo de situação como se fosse um elogio.

Se você é um desses caras, entenda de uma vez por todas que não importa se você olha porque achou a menina bonita, feia, diferente ou exótica.

Entenda que seus olhares podem ser absolutamente desagradáveis.

Entenda que, por si só, o ambiente já é opressor considerando que esses eventos são predominantemente masculinos e somos uma minoria ali. Somos o algo que não se encaixa, que as vezes arrancam risos e que muitos fazem piada.

Algumas de nós nos esforçamos para mudar essa realidade. E, durante este processo, encontramos homens incríveis que nos ajudam, mas se você não quer ajudar, por favor, não seja o babaca que tenta atrapalhar isso.

O brother

Uma outra situação me deixou literalmente de boca aberta. Nem soube reagir. Ainda não sei dizer se fui menos privilegiada por ser mulher ou se foi a cultura do "quero me dar bem a qualquer custo" que imperou neste caso. Mas nada me tira da cabeça que, se eu fosse um homem, as coisas teriam acontecido de uma forma diferente.

Depois de assistir uma palestra, fui em direção ao local onde estavam acontecendo algumas oficinas. Encontrei um rapaz responsável por checar as vagas e encaminhar as pessoas para cada uma das salas.

Não existia pré-inscrição. As vagas eram de quem chegasse primeiro. Perguntei sobre a oficina que eu tinha interesse e ele me disse que aquela já estava lotada.

Eu tinha uma segunda opção, então falei: "ah, pode ser outra… deixa eu conferir o numero da sala". Peguei meu celular e fui checar a informação na programação do evento. Quando estava prestes a falar, chegou outro participante. Era um homem.

Eu não sei se eles já se conheciam, mas se cumprimentaram de forma bem amigável. Daí em diante eu fui completamente ignorada enquanto ele, que chegou depois e, inicialmente, queria ir na mesma oficina que eu (aquela que já estava lotada), simplesmente passou na minha frente e foi acompanhado pelo rapaz da organização ao som de "chega aí cara, tem uma última vaga nessa sala".

O que eu fiz? Nada. Fiquei plantada observando incrédula o rapaz que ria enquanto me lançava um olhar de vitória. Como se aquilo fosse uma selva e aquele fosse o dia que ele teria o que comer e eu não.

Quando a atenção é demais…

A carência de mulheres nestes ambientes é tão grande que, as vezes, com a melhor das intenções do mundo, algumas pessoas metem os pés pelas mãos.

Eu tinha acabado de fazer meu check-in no evento e um dos meninos da organização se ofereceu para me ajudar. Me perguntou sobre meu objetivo ali e eu falei sobre a trilha que tinha interesse. Até ai tudo bem. Troquei algumas palavras com ele, agradeci e estava prestes a seguir meu caminho quando… ele veio junto.

Acredito que ele estava tentando ser gentil ao me acompanhar. Mas a infelicidade é que eu era a única mulher entrando naquele momento e nenhum dos homens tiveram o mesmo tratamento.

O lugar estava super bem sinalizado. E na prática eu não precisava de ajuda. Mas se fosse o caso, não teria nenhum problema de pedir. Bastava que ele ficasse à disposição.

Deixo o alerta de que esse comportamento pode ser invasivo (ou talvez sufocante, se encaixasse melhor). É importante tentar entender o contexto de cada um: eu era uma estranha, sozinha, em um evento predominantemente masculino. Ter um homem que eu não conheço caminhando atrás de mim (e contra a minha vontade) não poderia ser mais desconfortável.

Sozinha nunca!?

Quando mulheres não representam nem 10% do público, tudo grita o tempo todo “você não está segura”. É muito difícil escapar disso.

Neste evento acabei vendo mais mulheres do que esperava, só que, exceto por uma, todas estavam acompanhadas. E, em sua grande maioria, acompanhadas por homens.

Eu já estive nesse papel. O curioso é que, sempre que fui com amigos, não percebia o machismo imperar nesses ambientes. Você já vai inserida em um grupo e tudo se torna mais fácil. Você se distrai e não percebe o que acontece no entorno.

Claro que é divertido frequentar eventos com um grupo de pessoas conhecidas e que compartilham dos mesmos interesses. Mas o que impede uma mulher de ir, não é só a ausência do grupo. Isso até pode influenciar, mas me tomando como exemplo, já passou pela minha cabeça medo de assédio e, em alguns casos, até de estupro.

E eu tenho certeza que eu não sou a única.

Escutamos tantas histórias e vemos tantas tragédias que não tem como não ter receio.

Não tem como não embrulhar o estômago.

Não tem como não estar na defensiva o tempo todo.

No fim das contas, quando a gente sofre abuso ainda tem quem seja capaz de dizer "você sabia que ia ter muito homem lá, se foi sozinha é porque queria isso". Pra piorar a situação, somos tão responsabilizadas enquanto vítimas que, as vezes, antes mesmo dessa acusação chegar, a culpa já se materializa na nossa mente "será que não fiz algo para merecer isso?".

De tanto que a sociedade diz que somos loucas e que estamos sempre cometendo excessos, por vezes acabamos duvidando da nossa sanidade. Confesso que, enquanto escrevia esse texto, muito duvidei de mim e dos meus relatos. Me perguntei inúmeras vezes se não estava exagerando.

Eu, mulher, adulta, privilegiada em muitos aspectos, independente e bem informada, percebi que não estou isenta. Que por mais que me esforce, eventualmente, projeto em mim parte de um comportamento que está entranhado na sociedade machista e patriarcal na qual vivemos.

Não é simples se desvencilhar disso.

Mas nem tudo é tristeza.

Se você chegou até aqui, quero te dar as boas notícias. Sim, tem coisa boa!

Quero te contar porque vou continuar indo a eventos de tecnologia. Inclusive, sozinha se for o caso.

Quero te contar porque acredito que precisamos estar lá.

Porque precisamos fazer um esforço e superar obstáculos que as vezes são muito mais difíceis do que estes que contei aqui.

Uma admirável estranha

A primeira palestra que assisti foi ministrada por um homem. Numa sala que, no momento em que entrei, havia oito pessoas. Dentre as quais, três eram mulheres. Até fiquei animada, mas não durou muito não… Os homens rapidamente começaram a chegar e, em questão de minutos, nos tornamos minoria absoluta. Quando as pessoas pararam de entrar, deviam ter quarenta participantes (ou mais) e acredito que, a esta altura, somávamos menos de 20% do público.

Tinha uma mulher incrível lá.

Ela ganhou espaço no final da palestra. Foi relatar sua experiência em um encontro no qual uma das premissas era equidade. Explicou a diferença entre igualdade e equidade naquela sala repleta de homens. Falou sobre a importância e a necessidade de dar oportunidade para todos. De considerar o contexto de cada indivíduo. Falou sobre orgulho, soberba e, principalmente, sobre humildade.

Ela falou enquanto todos os presentes a observavam em silêncio. Relatou sua experiência com uma maestria que deu gosto de ver. Não titubeou um instante sequer. Me fez acreditar que, um mundo mais justo é possível e que não precisamos segregá-lo pra isso.

Um rosto conhecido, um momento de alívio

No final da manhã, encontrei uma menina que havia conhecido em outro evento. Acho que fomos, uma para a outra, quase como brasileiros quando se encontram no exterior. Um misto de alívio e salvação.

Ela tinha alguns conhecidos lá, mas não eram as pessoas com as quais ela se sentia mais confortável no mundo. E isso em certos casos é uma coisa que a pressão do ambiente acaba nos forçando a fazer: nos cercamos de companhias que não queríamos pra não ficar só.

Almoçamos juntas. Assistimos uma palestra. E juntas pudemos respirar.

Uma mulher desacompanhada

Sabe aquela mulher que falei lá em cima que, assim como eu, estava desacompanhada? Pois bem, em determinado momento nossos destinos se entrelaçaram.

Ela estava na última oficina que participei naquele dia.

Eu pude ser a mulher que se sentou com ela quando o computador resolveu não funcionar. Ela, uns 15 anos mais velha que eu, estava trocando de área. Que mulher foda! Inteligentíssima, super antenada e com uma desenvoltura pra falar de dar inveja para muita gente.

Trocamos ideias. Codamos. Rimos e fizemos experimentos.

Ela tornou meu dia mais feliz.

Se eu estivesse acompanhada, talvez não tivesse tido a oportunidade de conhecê-la. Provavelmente não teria mergulhado em tantas descobertas. E não teria me deparado com a realidade que se materializou naquele momento bem diante dos meus olhos: eu não estava sozinha, afinal!


Acredito que o primeiro passo para mudar as coisas é tomar consciência de que elas existem e, em seguida, falar sobre elas. É exatamente isso que estou tentando fazer aqui.

Esse texto é parte de um processo de reflexão. Uma tentativa de mudança de dentro para fora.

Não podemos ficar caladas e tratar abusos como naturais. Precisamos ser uma fonte de apoio umas para as outras. E no momento que você se sentir insegura, não esqueça:

Você não está sozinha.


Agradeço a todas as pessoas maravilhosas que me ajudaram com esse texto, fazendo revisão ou me lembrando de que não, eu não estou louca.