Todos nós queremos pão

Alimento mais democrático do que o arroz com feijão, o pão é servido em pratos, marmitas, saquinhos, bandejas de prata e papéis laminados. Pesquisas, nada confiáveis e talvez até inexistentes, mostram que a forma de se comer pão revela um pouco mais sobre a personalidade e o poder aquisitivo do consumidor. A base é a mesma, o que mudam são os acompanhamentos.

Pedir pão com mortadela tornou-se piadinha pronta para os babacas de plantão, que se sentem parte da realeza ao comer canapé de salaminho em qualquer boca livre. Pão com ovo é sinônimo de “bicha pobre”, mas puro é ligado aos homens bonitos. Com queijo, é simples, com tomate, Bauru, e com peito de peru vira couvert. Pão na sopa é feio, mas colocar croutons por cima do caldo pode.

Em uma cena memorável, Caco, personagem de Miguel Falabella, criticava as pessoas que molhavam o pão no café antes de comê-lo. A descrição da cena vinha seguida do bordão: “eu odeio pobre!”.

Pobre ou não, eu adoro pão com ovo, pão com manteiga, pão com hambúrguer de picanha também, é verdade. Porque o pão é assim. Vai bem com caviar e com geleia. Combina com café e com champagne. É servido de manhã ou com salsicha no lanche da madrugada. Pode ser vilão ou mocinho, dependendo da sua dieta (e da sua vontade).

Talvez não estejamos prontos para aceitar algo tão democrático quanto o pão. Por estar ao alcance de todos, criamos padrões (fora dos padrões) para discriminar aqueles que julgamos piores ou incapazes de apreciar as boas coisas da vida. Quando, em vários momentos, a melhor coisa da vida é acordar com o cheiro de pão quentinho, puro, sem acompanhamento ou preconceitos.

Quem quer pão? Todos nós queremos pão.

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