“Sentou pra descansar como se fosse sábado. Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe.”

Balboa Park durante o Dia Mundial da Terra.

A lendária música “Construção”, de Chico Buarque, foi escrita durante a ditadura militar brasileira. Nela, ele descreve a rotina de um pobre trabalhador da construção civil, um dos setores que mais se expandiu na época. O personagem acaba morrendo durante a execução do seu trabalho mecânico. O jogo de palavras de cada estrofe intriga o ouvinte e incita a reflexão.

Sempre gostei de observar as pessoas. O jornalismo e a pesquisa em comunicação exigem isso. Foi através deles que aprendi a desenvolver técnicas de observação mais apuradas. Inspirada na canção de Chico, vou tentar descrever a rotina de alguns personagens que passaram — ou ainda passam — pela biblioteca durante meu trabalho.

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único

É meio-dia. O sol está forte, mas a brisa marinha acalenta a pele. Os dez carrinhos de livros estão na rua. Dispostos em linhas, exibem seus troféus. Uma placa ao fundo indica que existe uma sala com mais títulos. Uma criança corre. Ela pega o livro mais colorido da sua categoria. Seus olhos brilham a cada página. A mãe chama e ela abandona sua imersão. É hora de partir, mas não sem antes entregar uma moeda para a vendedora. Ela está apaixonada pelo seu novo amigo. Enquanto isso, um senhor se aproxima. Usa camisa social, boné e chinelos. Sua pele morena contrasta com a barba rala e grisalha. Parece conhecer o lugar. Vai direto ao último carro. Revira toda seção de culinária. Dá uma olhadela na oferta de história. Com 10 achados na mão, pede para reservar. Vai embora. Volta depois de meia hora com chá gelado e cookies. Presenteia a voluntária. Despende vários minutos tentando achar o dinheiro para pagar os livros. Sua carteira parece ter mais folhas internas do que muitos dos exemplares expostos. Não aceita o troco. Leva mais cinco minutos organizando suas aquisições na sacola. Conta uma história. Diz que o segredo do avô de 90 anos era o açúcar. Tomava uma xícara de chá com cinco colheres cheias do doce. Parece gostar da ideia e diz que vai seguir por esse caminho. Suas pernas doentes parecem não concordar. Despede-se com um largo sorriso. É o melhor cliente. Ele sabe disso.

E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Ela chega perguntando pelos livros gratuitos. Vai até eles e começa a falar sozinha. Faz bagunça, mas não percebe. Encontra algumas revistas chinesas. Fica contente. Percorre as demais seções. Parece não ter pressa. Sua camisa chama a atenção. Vários macacos estão pulando alegremente na estampa. Ela não está falando sozinha. Traz em uma das mãos um bicho de pelúcia. Também é um macaco. Apresenta ele para a voluntária. Diz que sua companhia irá ficar contente em ler as revistas. Ela não fala chinês, mas parece que seu amigo sim. Vai em direção ao seu carro. Parece ser sua casa. Continua falando com seu companheiro. Parece que a noite será animada.

Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música

O final do dia vai se aproximando. Com ele, surge um novo personagem. Ele fala ao telefone, mas observa as novidades em destaque na prateleira principal. Está usando roupa social. O gel no cabelo reflete a cada movimento da sua cabeça. Seu forte perfume espalha-se pelo ambiente. Pergunta pelos novos exemplares da Rolling Stone. Passa vários minutos olhando os CD’s. Começa a falar do seu trabalho. É músico. Parece estar em uma seção de terapia. Não se incomoda com os demais clientes que estão ao seu lado. Quer toda atenção só para si. Por vezes, fala em italiano. Em outras, espanhol. Começa a cantar Garota de Ipanema. Diz que um dia irá ao Brasil. Despede-se cantarolando.

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Está na hora de fechar. Ele aparece como mágica. Estende uma nota de um dólar e desaparece. Não diz uma palavra. Não se deixa reconhecer. No mesmo instante, ela surge irradiando o ambiente. Parece ter mais de 50 anos. Seus cabelos são loiros e seu corpo é magro. Fica absolutamente animada com o que vê. Dedica mais tempo para a seção de autoajuda. Parece ser conhecedora de reflexologia, reiki e cabala. Revira todas as prateleiras. Enche duas caixas. Paga agradecendo. Despede-se abençoando. Os carrinhos são guardados. A porta é fechada. O dia se encerra. O final de semana começa.


Originally published at derepentesandiego.com on April 29, 2015.

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