“Vida louca vida, vida breve. Já que eu não posso te levar, quero que você me leve.”

Uma das cenas mais clássicas da Segunda Guerra Mundial. Esse monumento está localizado no Pier de San Diego e é chamado de Unconditional Surrender.

A vida é louca por si só ou será que nós fazemos dela uma loucura? Será que ela não desejaria ser menos louca? Ou será que ela quer ser louca mesmo? Por que a vida é tão breve? Será que a loucura não a faz ser breve? Ou será que devemos fazer dela uma loucura por ser tão breve? Será que não podemos levar a vida ao nosso jeito? Ou será que nos acomodamos e esperamos ela nos levar para algum lugar? Será que ela foi feita para nos levar ou nós que devemos levá-la? Tantas perguntas curtas para tantas respostas complexas. Cazuza sempre nos fez refletir sobre a loucura que é viver em suas letras tão sinceras.

Algumas pessoas dizem que estou tendo sorte por aqui neste primeiro mês. A verdade é que não é sorte, é atitude e um pouco de loucura. Acredito na teoria de que as coisas não acontecem na sua vida do nada, você, de alguma forma, criou uma situação ou gerou uma ação que resultou naquele fato. Claro que não é nada fácil ter coragem e agir, isso exige um esforço gigante. Mas se você ficar parado, a vida passa.

Por exemplo, há duas semanas atrás conheci dois árabes, da Arábia Saudita, na Starbucks que tem perto da biblioteca em que faço trabalho voluntário. Estava lá fazendo minhas planilhas de comparação de preços dos itens que precisaria comprar para a casa nova e, no meio disso, acabei falando no Skype com meus dois melhores amigos. Como não tinha fone de ouvido na mochila, acabei pedindo emprestado para um dos árabes e depois, ao devolvê-lo, comecei a puxar papo. No fim, acabei conversando com Aymin e Mohammed por quase duas horas.

Conversa vai e conversa vem, um deles comentou que outro colega, Salim, estava de mudança para Chicago e precisava vender todas as suas coisas da casa. Devido à urgência, estava liquidando tudo. Disse que tinha interesse e liguei para o meu marido. Ele veio até nós e combinou uma visita à casa de Salim naquela mesma noite. Fomos até lá e adoramos! Todos os móveis tinham menos de um ano de uso e estavam muito bem cuidados. Fechamos negócio e na semana seguinte fomos lá buscar todas as coisas. Salim não quis nem conferir o dinheiro que combinamos e colocamos dentro de um envelope, pois disse que confiava em nós.

Conto esta história, pois ela me fez pensar em muitas coisas. Os árabes são, muitas vezes, discriminados e taxados de terroristas, quando na verdade existe sim um grupo de muçulmanos fanáticos que espalham terror pelo mundo com seus atentados bárbaros, mas, ao mesmo tempo, a grande maioria deles são pessoas do bem, apegadas a seus valores e sua família, e que também estão estudando e trabalhando para conquistar um lugar ao sol. Julgar o próximo é uma eterna falta de ter o que falar. É falta de respeito com o outro e consigo mesmo.

Tô cansado de tanta babaquice, tanta caretice
Desta eterna falta do que falar

Depois de tudo, mandei mensagem para Mohammed agradecendo a indicação e dizendo que havíamos fechado negócio. Ele se colocou à disposição para ajudar no que mais fosse preciso para nossa mudança. Aymin mandou mensagem perguntando como estavam as coisas para mim e para o meu marido. E assim conhecemos três pessoas que nos ajudaram a facilitar nossa instalação em San Diego e viraram nossas amigas.

Se eu tivesse me deixado levar pelo preconceito e pelo medo, certamente não teria pedido o fone emprestado à Aymin, pois antes disso tudo já tinha visto qual era sua origem ao ouví-lo falar ao telefone com alguém. Tampouco teria iniciado uma conversa com ele. Simplesmente poderia ter ido para casa. Não foi sorte conhecer os dois, foi ter a mente e o coração abertos para aceitar o outro do jeito que ele é.

Se ninguém olha quando você passa
Você logo acha que a vida voltou ao normal
Aquela vida sem sentido, volta sem perigo
É a mesma vida sempre igual

Se não tivéssemos sido um pouco loucos e ido até a casa de uma pessoa estranha, teríamos gastado o triplo do valor para mobiliarmos nossa casa, além de ter perdido muito tempo com isso. Se não tivéssemos sido um pouco loucos, não teríamos vindo morar em San Diego. Se não tivéssemos sido um pouco loucos, não teríamos saído da casa de nossos pais. Se não tivéssemos sido um pouco loucos, não teríamos conquistado nada na vida.

Todos somos iguais, independente do cargo que ocupamos, do sobrenome da nossa família, do quanto dinheiro temos, de onde viemos e para onde vamos. No fundo, todos temos medos, angústias, erros, vergonhas e esperanças. No fundo, somos todos loucos.

E a vida precisa ser louca, pois ela não espera você enxugar suas lágrimas ou curar os seus machucados. A vida precisa ser louca, pois ela corre todos os dias uma maratona e não nos espera nem para tomar um gole de água. A vida precisa ser louca, porque estamos tendo uma oportunidade de dar um sentido a ela. A vida precisa ser louca, para que possamos ser felizes. A vida precisa ser louca, para que tenhamos coragem de acompanhá-la até o fim.

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