Um homem qualquer

Eu poderia ter vivido cem anos. Em questão de frustração amorosa, vivi mais de 300. Em questão de apetite carnal, bem, esse eu perdi quando morri de verdade, aos 68. Nem para morrer aos 69, número que representaria muito bem a minha vida sexual ativa, passiva, relativa, feliz. Fui, sim, um homem de sorte. Mas isso só descobri depois de morto, no purgatório, quando num encontro com sabe-se lá quem eu acabei passando reto pelo portão dos prazeres. A morte não é um bicho de sete cabeças. Você enfarta — meu caso! — , m0rre e pronto. Não há segredos. Não há um homem com vestes brancas do mais puro linho te recepcionando. O céu, pelo menos para mim, não existe. Vivemos o sagrado e o profano enquanto vivos aí em São Paulo, no caótico trânsito da Rebouças. Mas vou lhes contar um segredo: viver não é um conto do Rubem Alves, está mais para os do Rubem Fonseca. Viver é mais árduo, é mais policial que político; é mais mais Romero Britto que Vik Muniz; é uma tremenda furada. Viver é assistir ao holocausto e não sentir dor na espinha; é ver morrer mais de 800 pessoas no Haiti e não se sensibilizar. Viver é que é a verdadeira morte. Tem quem goste. Eu gostava. Transava sempre. Gozava às vezes. Peguei mulher, homem, travesti. Peguei a primeira dama da cidade e o juiz da vara de infância. Peguei sífilis, gonorréia, rinite, artrite e artrose. Peguei de tudo. Só não peguei o amor. Por que o amor é que pega a gente. O amor é que deixa a gente sem chão, embora ele enraíze e nos torne seu escravo. O amor é a droga mais lícita. Vende-se amor em qualquer esquina. Mas não o amor puro, cristalino. É como cocaína boa. Você não encontra em qualquer fundo de quintal! O amor, ai, que ódio, o amor é a cólera. O amor é a desordem. Por amor Romeu morreu e matou junto a delicadeza das histórias românticas. Por amor Orféu, coitado, acreditou em Eurídice, que não passava de uma chata. Por amor aquele babaca do Jack morreu congelado enquanto sua Rose dormia num pedaço de madeira capaz de salvar ele, ela, eu e você que me lê agora. Por amor Deus enviou seu único filho para morrer por nós, embora já faça mais de 800 dias que esteja aqui e ainda não tenha encontrado uma cruz para comprovar isso. Só sei que nesse lugar tudo é mais simples. Ninguém usa sapatos de couro italiano, bolsas não são bem-vindas e iPhone não é celular de gente metida à rica, até por que nos comunicamos de forma bastante interessante. Sentimos com a alma, não com os olhos! Utopia? Utopia é viver, meus caros!

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