Paquera virtual

Outro dia eu estava num ônibus e vi uma menina usando Tinder. Fiquei impressionada: ela passou umas vinte fotos no curto tempo que ficou ao meu lado. Nenhum “like”, nenhum “match”. Só passando várias fotos pra esquerda, pro esquecimento. Fiquei imaginando se algumas daquelas pessoas não poderiam ser interessantes. Mas como saber? O perfil não fornece tantas informações. Muitas vezes só o nome, a foto e idade. Uma vitrine de humanos, fast-food de gente. Fiquei aliviada de não necessitar disso, mas preocupada. E se um dia eu precisar voltar a paquerar? Como vai ser? Deu tela azul.

Não que eu nunca tenha paquerado no mundo real, mas certamente pensaria muito em todo o trabalho que envolve a atividade. Ter que se arrumar, sair de casa, encontrar um lugar bacana com pessoas solteiras, flertar, conversar… Ai, que preguiça. Fácil compreender quem usa a tecnologia para se aproximar das pessoas. Eu comecei a fazer isso ainda nos anos 90, nas infames sala de bate-papo do Uol.

Depois surgiram o IRC e o ICQ. Funcionava assim: você entrava no IRC, começava a falar do que eu gostava (rock, por exemplo) e já apareciam alguns interessados. Geralmente a conversava migrava pro ICQ e depois de muito papo, começava o interesse pelo encontro pessoal. E aí eu confesso que tinha muito medo. Internet era ainda novidade e sabe-se lá se não havia muitos malucos querendo se aproveitar do anonimato que até então era regra. O único encontro que tive através do ICQ foi bem frustrante. O cara era bem menor que eu e tinha o hálito horrível, tampa de bueiro mesmo.

A coisa melhorou consideravelmente com a chegada do orkut (saudades!). Ali você poderia ver o perfil completo da pessoa, além de fotos, ver o que os outros achavam dela (confiável, legal, sexy…) e o melhor de tudo: as comunidades que frequentava!

Com as comunidades você podia explicitar os seus gostos, o seu tipo de humor, traços da sua personalidade. Ficava muito mais fácil de se definir e buscar pessoas que tivessem um perfil parecido com o seu. Lembro de ter encontrado o amor da minha vida assim. Um cara cujas comunidades deixavam bem claro que ele ideal para mim. Ele gostava dos mesmos tipos de músicas, filmes, livros, passeios… Minha nossa, achei uma outra pessoa tão fã de Sady Baby quanto eu! E ainda alto e bonito. Achei o homem quase perfeito. Quase, porque havia um pequeno detalhe: ele estava namorando.

Paciência, havia outras pessoas. E assim fiz amizades duradouras, alguns paqueras, alguns ficantes, relacionamentos rápidos, um relacionamento mais duradouro. E o orkut era um lar virtual: lá estavam os amigos, minhas comunidades. Quando a amizade ficava mais forte, acabava migrando para conversas de Messenger (do MSN). Cheguei até a participar de grupos por lá. Um pré WhatsApp, com direito a frase ou música no status, emojis animados e alarmes irritantes. Mas um desses alarmes me animou consideravelmente. Recebi a mensagem de uma amiga avisando que aquele meu rapaz ideal estava solteiro!

O fato de termos tantas comunidades em comum ajudou bastante. Já até trocávamos ideia em um tópico ou outro. Agora podia intensificar o contato, mandar mensagem no mural, fazer brincadeiras. Mas o recurso mais legal do orkut era justamente um que existe hoje no Tinder: “adicionar a lista de paqueras”, onde você adicionava a pessoa que gostava e se ela fizesse o mesmo com você, os dois recebiam uma mensagem avisando que estavam conectados (“Deu match!”). Sensacional. Entrei no perfil dele e o adicionei à minha lista. E para o meu espanto, recebi a mensagem de “match” segundos depois!

Daí foi fácil. Papos no messenger que duraram alguns meses, primeiro encontro num cinema bagaceiro do Centro de São Paulo, barzinho na Augusta, beijos… E estamos aí até hoje. E espero que sempre, pois sem Orkut e suas comunidades e afins para fuçar, sem Messenger para bater papos e marcar encontros… Sei lá, eu não conseguiria mais paquerar nos dias de hoje.

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