Esses meus cabelos brancos

Tudo começou há pouco menos de um ano atrás. Um dia eu amanheci, me olhei no espelho, a raiz branca gritava.

Eu tenho cabelos brancos desde os vinte e poucos anos. Pintar o cabelo naquela idade, no entanto, tinha mais a ver com estilo do que com preocupação em esconder os poucos brancos que apareciam. Era mais fácil arrancá-los, como a gente aprende.

E aí vieram muitas outras químicas no cabelo, de tal forma que ir ao salão a cada quinze dias ou no máximo vinte e um era praticamente um ritual.

Com as mudanças na vida, veio a vontade de conviver com os cabelos o mais natural possível. Parei com as progressivas e depois com os “tratamentos” para domar os cachos. Nem percebi o momento em que me tornei escrava da tinta.

E então chegou o dia, aquele, em que os brancos gritaram na frente do espelho. E ao invés de pensar em ir ao salão, eu pensei: de novo vocês? ok, vamos cuidar da nossa relação. Vou tentar ver essa beleza que vocês estão querendo me mostrar.

E de lá prá cá, exceto pelas fotos lindas de cabelos brancos e grisalhos que eu via na internet, passei por momentos muito difíceis. O primeiro é aquele em que é necessário parar de pintar mesmo e deixar a raiz crescer. Segurei ao máximo o momento de fazer o primeiro corte, diferentemente do que muitas mulheres fazem, porque queria ter volume suficiente para fazer um corte do meu gosto, não muito curto (pelo menos nesse momento da vida, porque adoro curtíssimos, um dia quem sabe).

Essa fase é uma das mais desafiadoras porque é preciso lidar com a reação silenciosa das pessoas. Dá para ler nos olhos: será que ela esqueceu de ir ao salão? E é aí que a gente vê o quanto está ou não preparada para lidar com a opinião das pessoas.

A segunda fase, o primeiro corte no cabelo, foi o momento de realmente tomar contato com a realidade. Os brancos já ficaram totalmente visíveis mesmo para os mais desatentos. E no espelho, a hora da verdade. E aí então as reações começam a ser verbalizadas. Da minha filha dizendo: “mãe, e esses cabelos brancos?” ao outro dizendo que “acha “nada a ver” pintar cabelo pra esconder branco”. Alguns “você é louca”, “admiro”, “nem pensar”, “invejo sua coragem”. Poucos elogios, é verdade, mas ~eu~ estava gostando do processo e também do resultado.

Nenhuma intenção de levantar qualquer bandeira — até porque ainda uso química nos cabelos, mas agora de forma muito menos frequente e severa. Eu só queria experimentar a liberdade.

Hoje cheguei finalmente à fase que eu almejava no início de tudo. Corte ajeitado e aquele toque na cor para que os brancos fiquem iluminados e em quantidade coerente com a minha etapa de aceitação. Estou me sentindo ótima. Aprendendo a curtir cada etapa da vida.

De agora pra frente, é brincar de viver e brincar com os cabelos. Vocês vão vê-los branco, rosa, lilás, azul, roxo. Podem esperar. Eles agora são livres para serem como quiserem.