Dos sonhos sonhados
Nesse dia a dia cíclico, percebo assuntos reaparecerem com outras vestes, noutras conversas, com outras pessoas. Mas basta atentar-me para entender que lá estou eu novamente falando sobre temas já discutidos, alguns que causaram sofrimento, outros que pareciam não ter mais sentido.
É como passear sempre pelo mesmo caminho e, em cada outono, recolher uma folha seca do chão. Quem de longe vê, talvez suponha uma cena igual a tantas outras de tantos outros outonos anteriores, mas não. A pessoa que carrega a nova folha seca perceberá nela nervuras que as outras não tinham, talvez a textura, a cor e o formato da folha também não se assemelhem aos das folhas antigas.
Por pensar na aparente repetição das cenas, acabo sonhando com conversas que tive ao longo do dia frequentemente. E, na maior parte dos sonhos, não sou protagonista, mas narradora em terceira pessoa. Assisto à minha história como se visse um filme sentada numa confortável poltrona de cinema. Talvez o sonho sirva para isto, afinal, para nos ajudar a entender ou revelar aquilo que nossas travas morais e sentimentais não nos permitem enxergar.
Há algumas noites, num dos sonhos em que era protagonista, sonhei que morava numa pequena cidade uruguaia. Não sei dizer se a cidade realmente existe, tampouco consigo entender por que uruguaia. Enfim, era uma mulher de aproximadamente 50 anos e morava nessa cidadezinha. Lembro-me de caminhar pelos paralelepípedos de uma rua larga que terminava numa rotatória, o ponto onde as pessoas da cidade se encontravam. Ali estava um trio de jazz — contrabaixo acústico, saxofone e bateria — e algumas pessoas dançavam em torno dele. Havia bebida, sons de de passos indo e vindo, garçons, risadas, crianças correndo. E eu era conhecida de todos ali. Por onde passava, as pessoas me cumprimentavam, acenavam, me abraçavam.
Sentei numa mesinha ao ar livre, pedi uma água com gás, e logo me vi conversando com alguém que hoje faz parte da minha vida. Éramos ambos mais velhos no sonho, mas a sensação que a conversa com essa pessoa me trazia era a mesma que tenho agora, na realidade. Ríamos muito, não sei do quê. O som do jazz não nos permitia entender tudo o que o outro dizia, e muitas vezes encerrávamos a fala sem ter concluído o pensamento.
Acordei. Sonho interrompido mas sensação de bem-estar.
E sigo querendo traduzir em palavras o assombro, a maravilha, o calor e a angústia do dia a dia. Entretanto, às vezes, só em sonho é possível encontrar respostas.
Originally published at desafiandoosilencio.wordpress.com on August 23, 2017.
